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Cimed Prioriza Crescimento De Marcas Como Carmed E Expande Espaço

Cimed Prioriza Crescimento De Marcas Como Carmed E Expande Espaço

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Cimed prioriza crescimento de marcas como Carmed em detrimento de margens

Muitos representantes comerciais frequentam constantemente a sede da Cimed em São Paulo, onde a identidade visual da marca Carmed está em destaque, remetendo até a eventos como a Copa do Mundo, junto com produtos de higiene pessoal da linha Super. Essa decoração se renova frequentemente, acompanhando o lançamento de novos itens, e a movimentação de visitantes só aumenta.

Em março de 2026, dados da IQVIA destacaram a Cimed como líder entre os fabricantes de bens de consumo no Brasil, com vendas que alcançaram R$ 479,6 milhões no mês, superando gigantes internacionais como P&G (R$ 402,2 milhões) e Nestlé (R$ 389,1 milhões). Em termos de volume, a vantagem da Cimed foi ainda maior: 29,8 milhões de unidades comercializadas, contra aproximadamente 11,5 milhões das concorrentes.

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Esse resultado reflete uma mudança estratégica comandada pelo CEO João Adibe Marques, que dirige a empresa num movimento de transformação, passando de uma farmacêutica tradicional para uma empresa voltada ao setor de bens de consumo. A receita cresceu e as marcas ganharam força, mas isso ocorreu às custas da redução das margens e do caixa da companhia, que entrou em saldo negativo.

Fundada em 1977 pelo pai de Adibe, a Cimed é parte de um grupo familiar com sólida tradição no setor farmacêutico. Mas dentro desse grupo, a Cimed é a empresa que mais rompeu com o modelo clássico do segmento. Medicamentos controlados, que dependem de prescrição médica e compõem 55% do faturamento total do setor, exigem uma extensa rede de contatos com profissionais da saúde – algo que a Cimed não possui. “É muito difícil garantir crescimento em uma área da qual você praticamente não participa”, comentou Adibe em entrevista.

Hoje, 60% da receita da Cimed provém de produtos de consumo direto, contra 31% observado em 2021. João Adibe e sua irmã Karla Marques Felmanas, ambos da segunda geração da empresa, assumem papel ativo na divulgação da marca nas redes sociais, com milhões de seguidores no Instagram, forjando uma imagem de “executivos influencers”. Essa visibilidade digital impulsiona vendas, mas também aumenta a pressão sobre a transparência dos negócios, dividendos e endividamento.

Aposta em marcas próprias e desafios financeiros

A transformação da Cimed em uma empresa focada em bens de consumo começou com itens como vitaminas, repelentes e sabonetes íntimos, produtos disponíveis sem receita médica. Porém, o maior destaque da estratégia foi o hidratante labial Carmed, inicialmente pensado como uma alternativa ao Carmex americano e que ganhou nova força após seu relançamento.

Levando a assinatura de Karla, a Carmed se revitalizou especialmente por meio de comunidades digitais voltadas ao público infantil, alcançando faturamento acumulado de R$ 2 bilhões. Já a linha Super, que inclui produtos para cuidado oral e desodorantes, segue a mesma linha estratégica. A Cimed firmou parceria com o influenciador Thiago “Toguro” como porta-voz da marca, numa troca simbólica de valores e visibilidade.

A campanha focou em um público pouco explorado por grandes marcas, como os motoboys, resultando em um faturamento de R$ 150 milhões e previsão de fechar 2026 com R$ 600 milhões em vendas. A cooperação com Toguro também sustenta o lançamento da Urso, linha de suplementos e lifestyle, prevista para agosto, que busca conquistar 10% do mercado de suplementação e atingir R$ 1,2 bilhão em faturamento até 2029.

Esse enfoque em “supermarcas” abrange segmentos com mercado superior a R$ 1 bilhão, nos quais a Cimed pretende atuar em várias faixas de preço, mirando ter dez dessas marcas até 2030. No entanto, essa construção não ocorre sem custos elevados.

Enquanto um medicamento genérico costuma apresentar margem bruta em torno de 70%, demandando só cerca de 5% em marketing, um produto de consumo opera com margem próxima a 35% e exige até 20% de receita investida em comunicação. “Decidimos abrir mão de parte da margem para conquistar espaço nas prateleiras”, afirma Adibe.

Esse custo é visível nas demonstrações financeiras recentes. Em 2025, o faturamento da Cimed atingiu R$ 3,07 bilhões, expansão de 12,5%, superior ao crescimento do mercado geral (11,3%). Entretanto, o lucro líquido caiu 30%, alcançando R$ 196,7 milhões, com margem Ebitda diminuindo para 16%, bem abaixo da média histórica de 21%. Além disso, o fluxo de caixa operacional ficou negativo em R$ 55,5 milhões, revelando um caixa em queima.

Essa queda nos indicadores antecede 2025. Levantamento feito por Gustavo Moraes, da newsletter Laboratório do Investimento, mostrou que o ROIC (Retorno sobre o Capital Investido) recuou de acima de 30% em 2017 para cerca de 13% em 2025, enquanto a margem bruta caiu de 59% para 45% no mesmo intervalo.

Por outro lado, dados do primeiro trimestre de 2026 indicam que a estratégia de priorizar produtos de consumo começa a mostrar resultados. Nesse período, a receita da empresa alcançou R$ 1 bilhão, com crescimento anual de 20%, e o Ebitda teve alta de 26%.

Aporte externo para alavancar crescimento

No intuito de duplicar o faturamento em cinco anos, a Cimed buscou no mercado um parceiro para investir. Em 2024, iniciou negociações que culminaram na entrada do fundo soberano de Cingapura, GIC, como acionista minoritário, detendo atualmente 12,54% do capital social, adquiridos via aumento de capital de R$ 1 bilhão aprovado em março de 2025.

Até agora, R$ 424,5 milhões foram integralizados, com o restante previsto para os próximos dois anos. Todos esses recursos foram aportados diretamente no caixa da companhia, sem venda de ações pelos fundadores. A família Marques continua controlando a Cimed, com 56,85% pelas mãos da holding J.A. Marques e 30,61% pela KAR Veículos e Administração Patrimonial, sob gestão de Karla.

O valor implícito da transação posiciona o valuation da empresa próximo a R$ 8 bilhões, número que contrasta com estimativas independentes baseadas em históricos financeiros, que giram em torno de R$ 3 bilhões, alinhadas a múltiplos de empresas do setor como a Hypera.

No segundo semestre de 2025, para possibilitar a distribuição de R$ 427,2 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio, a Cimed recorreu a empréstimos e emissão de debêntures, somando R$ 450 milhões, incluindo uma emissão de R$ 300 milhões com taxa de CDI + 0,55% ao ano. Esse movimento considerou também mudanças na legislação tributária, uma vez que isenção do Imposto de Renda para lucros distribuídos terminaria em 31 de dezembro de 2025, passando a aceitar a tributação de 10% para pagamentos mensais a beneficiários que superem R$ 50 mil.

Adibe ressalta que a antecipação dos dividendos foi uma decisão estratégica seguida por outras grandes empresas do país, como WEG, Klabin e Guararapes.

Rebaixamento da classificação de crédito

O mercado reagiu negativamente aos sinais financeiros da Cimed, indicando maior risco. A Fitch Ratings rebaixou em abril a nota de crédito da companhia de AA+(bra) para AA(bra), destacando a redução da margem Ebitda, fluxo de caixa operacional negativo e o aumento de captações para sustentar dividendos.

A dívida bruta da empresa fechou 2025 em R$ 1,8 bilhão, o que representa aproximadamente 3,7 vezes o Ebitda, um patamar elevado. Embora a empresa tenha recorrido dessa decisão, a Fitch manteve a avaliação. Os documentos auditados pela KPMG ainda mostram que a companhia registra adimplência com as cláusulas de dívida (_covenants_).

Há também um passivo tributário contingente de cerca de R$ 590 milhões, referente a 28 processos sobre cálculo de ICMS-ST, considerado risco de perda “possível”, mas sem provisão contabilizada.

Novas frentes de crescimento

Com a ambição de tornar a Cimed uma espécie de P&G brasileira, João Adibe está abrindo outras áreas para impulsionar as vendas. Em setembro de 2025, firmou uma joint venture com a Globo Ventures e o apresentador Luciano Huck focada em produtos para bebês e crianças, como a linha João e Maria. A empresa recém-criada, como esperado, apresentou prejuízo de R$ 15,3 milhões no seu primeiro trimestre, ainda sem faturamento registrado.

No setor farmacêutico, a Cimed também aposta na entrada da sua versão nacional da caneta para emagrecimento à base de semaglutida — princípio ativo do Ozempic, que teve sua patente vencida recentemente. A expectativa da empresa é a aprovação do análogo pela Anvisa para emplacar o produto no mercado brasileiro.

Apesar da importância da substância, o CEO alerta que esse produto não deve ser visto como uma “galinha dos ovos de ouro”, pois genéricos já são vendidos na Índia por preços bastante competitivos (em torno de US$ 14), o que deve pressionar as margens para novos competidores.

As metas da Cimed são ambiciosas: atingir receita de R$ 4,8 bilhões em 2026, o que requer crescimento superior a 50%, e alcançar R$ 10 bilhões até 2030. A abertura de capital está no horizonte, porém sem definição de data, pois ainda é necessário consolidar a geração de caixa e reconquistar a confiança de investidores mais criteriosos.

Fonte

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