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Bolha Na Bolsa Americana: Riscos e Avisos Cruciais

Bolha Na Bolsa Americana: Riscos e Avisos Cruciais

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Existe uma bolha no mercado de ações dos Estados Unidos?

Costumo lembrar de um ditado popular que gosto muito: “Cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça”. Essa expressão serve para ilustrar a célebre frase do economista Thomas Sowell: “A realidade não se pode escolher”.

Com as expectativas em torno da possível resolução da guerra no Oriente Médio e os resultados fortes das companhias de tecnologia no primeiro trimestre, as ações americanas tiveram recentes altas relevantes. Entretanto, cresce entre investidores e analistas o debate sobre o surgimento de uma bolha no mercado acionário dos EUA. Embora o entusiasmo com a inteligência artificial (IA) e setores relacionados esteja impulsionando os mercados há meses, indicadores indicam que esse cenário pode não se manter sustentado a longo prazo, como já venho destacando em minhas colunas.

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A muitos posso parecer repetitivo ao afirmar que uma queda está próxima, e que daqui a pouco acertarei. Mas não tenho pretensão de atuar como um vidente do mercado, prevendo precisamente o momento da explosão de uma possível bolha. Meu intuito é simplesmente analisar o histórico e alertar que dessa vez não há motivos para acreditar que será diferente. O perigo principal não se limita a uma simples correção nos preços, mas sim às consequências sistêmicas que uma queda brusca no S&P 500 e na Nasdaq poderia provocar para a economia mundial.

Um dos fatores que tem impulsionado as valorizações extraordinárias recentemente é o volumoso fluxo de capitais dedicado ao desenvolvimento da infraestrutura necessária para suportar o crescimento da IA. Isso envolve a construção de data centers, investimentos no setor energético, produção de semicondutores e até o mercado imobiliário, beneficiado pela maior demanda por espaços físicos. Contudo, toda essa movimentação depende de uma condição essencial: a capacidade das empresas de IA de gerar receita proporcional aos investimentos trilionários realizados. Caso essa expectativa não se realize, o impacto poderá ser severo.

Alguns analistas alertam que, se a projeção de faturamento não se concretizar, o primeiro efeito será a rápida interrupção dos investimentos. Projetos serão adiados ou cancelados, prejudicando diretamente companhias dos setores de construção civil, energia e tecnologia. Posteriormente, o sistema financeiro começaria a sentir os efeitos, uma vez que bancos, ao incorrerem em prejuízos por empréstimos inadimplentes, passariam a restringir a oferta de crédito, impactando ainda mais a atividade econômica.

Esse quadro pode desencadear um efeito em cadeia. Empresas de tecnologia, ao enfrentarem receita abaixo do esperado e dificuldade para obter financiamento, teriam que promover cortes de custos intensos, inclusive com demissões significativas. O desemprego crescente reduziria o consumo, aprofundando a desaceleração econômica e estendendo os efeitos negativos para outros setores além da tecnologia.

Além desse risco estrutural, já existem indícios evidentes de que o mercado acionário opera atualmente em patamares de apreciação elevados. Investidores institucionais estão destinando cerca de 65% de seu patrimônio para ações, percentagem próxima ao ápice histórico de 66% ocorrido em 2021, logo após a pandemia. Esse nível elevado de exposição revela um otimismo acentuado, mas também amplia o potencial de correções súbitas.

Outro aspecto preocupante diz respeito às métricas tradicionais de avaliação. O chamado Buffett Indicator, que calcula o valor de mercado das empresas listadas em bolsa em relação ao PIB, atingiu sua máxima histórica de 230%, o que indica que o valor das ações supera mais do que duas vezes o PIB dos Estados Unidos. Examinando determinadas gigantes do setor de tecnologia, os múltiplos de preço sobre lucro (P/L) estão extremamente elevados. A Nvidia, por exemplo, está sendo negociada a um múltiplo aproximado de 40 vezes, enquanto a Tesla alcança níveis praticamente insustentáveis, perto de 170 vezes, segundo padrões convencionais. Isso sugere que uma grande parte do crescimento futuro já está embutida nos preços, reduzindo a margem para surpresas positivas.

O índice Shiller CAPE (P/L ajustado pela inflação) é outro importante indicador que demonstra esta realidade. Atualmente, está em 41 vezes, a segunda maior leitura da história, somente atrás do pico de 44 vezes que antecedeu a bolha das empresas pontocom no final dos anos 1990. Historicamente, níveis assim elevados correlacionam-se com retornos futuros menores e maior probabilidade de quedas acentuadas.

Curiosamente, esse otimismo dos mercados financeiros contrasta com o sentimento do consumidor americano, que caiu para menos de 50, seu nível mais baixo em sete décadas. Essa disparidade entre o desempenho das bolsas e a percepção econômica das famílias gera dúvidas sobre a sustentabilidade do atual ciclo de valorização. Enquanto os investidores apostam em um futuro promissor no campo tecnológico, os consumidores demonstram preocupação com as condições econômicas atuais, especialmente em razão da inflação pressionada pelo preço do petróleo.

Esse descompasso é preocupante justamente porque o consumo é um dos principais motores da economia norte-americana. Se os consumidores mantêm uma postura cautelosa, reduzindo seus gastos por conta da inflação alta, isso poderá afetar diretamente a receita das empresas, fragilizando ainda mais os fundamentos de valuations tão altos.

Diante disso, alerto que o risco da bolha no mercado de ações dos EUA se romper não deve ser subestimado e, em minha avaliação, esse momento está próximo, especialmente frente às eleições de novembro e a possibilidade crescente de derrota do Partido Republicano no Senado, com consequentes implicações sobre a liderança de Trump.

O problema não está no avanço da IA em si, que tem efetivamente um potencial transformador, mas no descompasso entre as expectativas e a situação econômica real. A dívida pública americana se aproxima de 130% do PIB, com pagamentos de juros que ultrapassam US$ 1 trilhão anuais. Pergunto-me: isso é realmente sustentável? Será que os juros vão diminuir na expectativa de que o futuro presidente do FED, Kevin Warsh, tenha razão ao prever que a IA é um fator deflacionário?

O fato concreto é que, quando os investimentos são alicerçados em projeções exageradamente otimistas, qualquer desapontamento — seja corporativo ou macroeconômico — pode provocar ajustes rápidos e severos. O gatilho, inclusive, pode vir de fatores externos, como as mudanças na política monetária japonesa com o fim do dinheiro barato, o colapso no mercado imobiliário chinês ou mesmo os mais de US$ 3 trilhões em dívidas corporativas pelo mundo, que parecem pouco saudáveis num cenário de juros elevados.

Finalizo enfatizando que bolhas podem tanto murchar gradualmente quanto estourar de forma abrupta. Uma eventual explosão não atingiria somente os investidores individuais, mas poderia deflagrar um ciclo de contração econômica com efeitos amplos e duradouros. O contágio entre diferentes setores, a restrição do crédito e o crescimento do desemprego podem transformar uma simples correção do mercado numa crise econômica mais profunda. Portanto, apesar do atual entusiasmo com a IA continuar alimentando os mercados, é crucial estar atento aos sinais de alerta já evidentes. A história demonstra que fases de euforia tendem a preceder correções severas. Ignorar esses indícios pode trazer prejuízos significativos, não só para investidores, mas para toda a economia. Afinal, como diz o ditado citado, aquilo que antes parecia uma simples “linguiça” pode se revelar uma cobra venenosa a qualquer momento.

Alexandre Espirito Santo é sócio e economista-chefe da Way Investimentos e professor titular do IBMEC-RJ e ESPM.

Alexandre Espirito Santo — Foto: Valor InvesteFonte

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