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Mente Sã, Bolso São: Impactos do Estresse Financeiro na Cognição

Mente Sã, Bolso São: Impactos do Estresse Financeiro na Cognição

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Mente sã, bolso sadio

Por Aquiles Mosca — São Paulo

Publicado em 13/05/2026 às 07h00

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O endividamento das famílias brasileiras atingiu um patamar sem precedentes em março de 2026, alcançando 80,4%, conforme revela a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). A situação também é preocupante no segmento empresarial: dados da Serasa indicam que, ao final de 2025, o Brasil registrou um recorde de 8,9 milhões de empresas inadimplentes, um aumento de 2 milhões em relação ao ano anterior. Os setores de serviços e comércio respondem por 55,2% dessas dívidas, que totalizam R$ 213 bilhões, sendo que micro e pequenas empresas representam mais de 90% deste montante.

Um estudo renomado de Mani et al. (2013) evidenciou que indivíduos enfrentando dificuldades financeiras apresentam desempenho cognitivo comprometido em razão do estresse associado à situação financeira. Contudo, não se trata de uma redução do QI, mas sim do impacto das preocupações financeiras sobre a capacidade de raciocínio.

No experimento, participantes nos Estados Unidos foram convidados a refletir sobre decisões hipotéticas, como reparar um carro com um custo de US$ 1.500, tendo opções como pagar à vista, fazer um empréstimo ou adiar o conserto. Durante esse processo, eles também realizaram tarefas avaliativas da capacidade cognitiva, como as Matrizes de Raven (comuns em testes de QI) e tarefas que medem o controle de impulsos.

Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um com alta preocupação financeira, para quem o custo do conserto era de US$ 1.500, e outro com baixa preocupação, configurado com um custo de US$ 150. A ideia era que as perguntas induzissem uma condição de estresse financeiro maior no primeiro grupo.

Os resultados mostraram que pessoas com renda abaixo da mediana apresentaram pior desempenho nas tarefas cognitivas quando estavam sob alta preocupação financeira. Já pessoas com renda acima da mediana não apresentaram alterações significativas. Logo, para aqueles que enfrentam dificuldades financeiras frequentes, ter a mente preenchida por preocupações econômicas prejudica a resolução de problemas e o funcionamento cognitivo.

Para validar essas conclusões em um contexto mais real, os pesquisadores estudaram agricultores de cana-de-açúcar na Índia, que recebem pagamento anual durante a colheita. Nos meses que antecedem o pagamento, quando a escassez financeira é maior, o desempenho cognitivo desses agricultores nas tarefas foi inferior ao período posterior à colheita, quando há maior abundância de recursos.

Esses achados não indicam que ser pobre diminui o QI, mas sim que a presença constante de problemas financeiros pode comprometer momentaneamente a capacidade cognitiva.

Entretanto, decisões ruins não são inevitáveis. Os autores recomendam evitar tomar decisões importantes enquanto estiver com um problema financeiro específico em mente. Dar um tempo para processar as emoções, discutir o assunto com alguém de confiança e se afastar temporariamente das preocupações pode ajudar a melhorar a qualidade das decisões e aliviar o comprometimento cognitivo.

Aquiles Mosca é CEO da BNP Paribas Asset Management no Brasil, professor de finanças comportamentais e gestão de ativos, além de autor dos livros “Investimentos sob medida” e “Finanças Comportamentais”. É também diretor da Anbima, liderando a Rede de Educação de Investidores. Contato: aquiles.mosca@br.bnpparibas.com

Aquiles Mosca — Foto: Arte / Valor Investe Fonte

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