País vizinho ao Brasil adota jornada reduzida com aumento salarial e desemprego em patamar mínimo
Enquanto o debate sobre a redução da carga horária no Brasil continua, outras nações sul-americanas já implementaram ou estão finalizando reformas que visam diminuir a jornada de trabalho. A Colômbia, por exemplo, a partir do dia 15 de julho, limita a jornada semanal máxima a 42 horas para trabalhadores assalariados, após uma diminuição gradual de seis horas em cinco anos, desde a aprovação da lei em 2021.
Ao contrário do Brasil, onde a proposta é reduzir de 44 para 40 horas semanais junto com o fim da escala 6×1, a Colômbia não exige a concessão obrigatória de pelo menos dois dias de descanso semanal.
Essa redução da jornada, iniciada no governo de Iván Duque (2018-2022), foi acompanhada pela reforma trabalhista de 2025, sob a gestão de Gustavo Petro, que elevou o salário mínimo em 23,7% e ampliou os parâmetros para pagamento do adicional noturno, o que impulsionou os rendimentos dos trabalhadores.
Empresários colombianos relatam dificuldades decorrentes dos aumentos nos custos trabalhistas, levando a mudanças como fechamento antecipado de estabelecimentos e maior automação dos serviços. No entanto, o mercado de trabalho permanece aquecido, com uma taxa de desemprego histórica baixa, conforme destaca o economista Stefano Farné, diretor do Observatório do Mercado de Trabalho e Seguridade Social da Universidade Externado, em Bogotá.
De acordo com Farné, apesar do aumento dos custos unitários por trabalhador, o emprego no setor privado tem apresentado crescimento contínuo, e ainda faltam estudos científicos aprofundados sobre os impactos da reforma.
Uma análise feita pela Corficolombiana indicou que a diminuição da jornada impulsionou a contratação de aproximadamente 787 mil novos empregados entre 2022 e 2025 para compensar as horas reduzidas, porém a produtividade por trabalhador caiu, tornando a economia menos eficiente, já que o mesmo volume de trabalho é realizado por mais pessoas.
Além disso, a Federação Nacional de Comerciantes e Empresários (Fenalco) entrevistou 610 empresários de 25 cidades, evidenciando que 51% das empresas passaram a fechar mais cedo, 25% intensificaram a automação e 23% aumentaram os preços dos produtos, sobretudo nos setores que operam em regime estendido, como comércio varejista, bares, restaurantes, hotelaria e vigilância privada.
Segundo a Fenalco, 64% dos empreendedores reduziram o número de funcionários e 80% alteraram planos futuros de contratação, refletindo um ambiente de precaução diante do aumento dos custos operacionais. Todavia, a federação ressalta que a capacidade empreendedora na Colômbia segue robusta, apesar da diminuição na abertura de novos negócios em 2026.
Principais distinções entre a Colômbia e o Brasil
O professor Stefano Farné destaca que o contexto colombiano é complexo para comparações diretas com o Brasil, pois a redução da jornada no país vizinho foi acompanhada por outras reformas trabalhistas e ocorreu de maneira gradual ao longo de cinco anos.
Uma lição importante é a gradualidade na implementação das mudanças, evitando alterações abruptas, o que pode ser aplicado a qualquer contexto. No Brasil, embora a proposta de redução de 44 para 40 horas esteja prevista para ocorrer em duas fases, o intervalo previsto pode ser insuficiente para a adaptação completa das empresas, segundo o economista Bruno Ottoni, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Outra diferença está na flexibilização dos horários de trabalho na Colômbia, onde a lei permite acordos que ajustem as jornadas entre os dias, sem a exigência de dois dias fixos de descanso semanal, além de permitir que o empregador escolha o dia de folga, não precisando coincidir necessariamente com o fim de semana.
Essa flexibilidade beneficia especialmente o comércio, que é um setor bastante impactado. Entre outras mudanças, as empresas deixaram de ser obrigadas a conceder uma folga extra por semestre para o “dia da família” e a realizar duas horas semanais de atividades culturais ou formativas.
Experiência do Chile
No Chile, o governo liderado por Gabriel Boric aprovou em 2023 uma reforma trabalhista que prevê reduzir a jornada máxima semanal de 45 para 40 horas entre 2024 e 2028. Antes disso, o país já havia passado por uma redução da jornada de 48 para 45 horas, implementada gradualmente entre 2001 e 2005.
Estudos demonstram que os efeitos dessas reduções foram relativamente pequenos e, muitas vezes, não estatisticamente significativos, com impactos mínimos tanto na criação quanto na perda de empregos. A jornada reduzida passou a ser melhor remunerada, já que os salários não foram diminuídos.
O economista Rafael Sanchéz constatou que as empresas chilenas utilizaram o período de transição para adaptar seus processos produtivos e redistribuir tarefas, evitando demissões em massa e absorvendo o aumento do custo por hora sem reduzir de forma expressiva o número de empregados.
De modo geral, a diminuição da jornada de trabalho é uma tendência mundial inevitável. No entanto, não significa que a América do Sul precise imediatamente adotar jornadas europeias de até 36 horas semanais, mas sim avançar de modo gradual e cuidadoso.



