Política fiscal robusta de Lula pode manter Selic elevada mesmo sem conflito no Oriente Médio, avalia economista
Em entrevista exclusiva para a EXAME, José Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, aponta que o Banco Central deveria suspender os cortes na taxa Selic na reunião desta quarta-feira, devido aos desafios internos para trazer a inflação novamente à meta estipulada.
A possibilidade de um entendimento entre Estados Unidos e Irã, que poderia reduzir as tensões no Oriente Médio, representa uma redução em uma das principais fontes recentes de incerteza para os mercados globais. No entanto, Camargo ressalta que a alta da Selic no Brasil não é explicada apenas por esse fator.
Segundo ele, há uma complexidade maior envolvida, que abrange desafios domésticos, como a elevação das despesas públicas em ano eleitoral, programas de crédito com juros subsidiados e um mercado de trabalho aquecido, elementos que pressionam para cima as expectativas de inflação, as quais estão desancoradas.
O economista destaca que o governo adotou medidas de estímulo que somam aproximadamente R$ 200 bilhões, impulsionando a demanda da economia num cenário em que a inflação de serviços permanece elevada e o desemprego registra níveis próximos aos menores já registrados.
“O presidente Lula implementa uma política fiscal e parafiscal bastante agressiva”, afirma Camargo.
Ele acrescenta que, embora um aumento nos gastos durante um ano eleitoral fosse previsto, o volume surpreendeu o mercado. Nas últimas semanas, o governo anunciou pacotes de crédito com taxas menores para motoristas de aplicativos, entregadores e caminhoneiros.
Além disso, Camargo ressalta o impacto do fenômeno climático El Niño, que deve afetar a produção agrícola brasileira e exercer pressão sobre a inflação dos alimentos.
Esse contexto contrasta com as previsões de início de ano, quando parte do mercado estimava a taxa básica de juros próxima a 12% ao término de 2025. Atualmente, bancos e gestores têm ajustado suas expectativas para patamares maiores, refletindo a persistência da inflação e o aumento das incertezas fiscais. Na Genial, por exemplo, a projeção da Selic para o fim do ano foi elevada de 12,5% para 14%.
Apesar deste cenário, Camargo acredita que o Banco Central deve promover um novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião atual, mas defende que a instituição deveria suspender o ciclo de flexibilização para melhor avaliar os efeitos de diferentes fatores como as expectativas inflacionárias, o comportamento do câmbio e os riscos climáticos e econômicos.
“Entendemos que o Banco Central deveria parar com os cortes agora. Apesar da melhora decorrente do arrefecimento do conflito no Oriente Médio, persistem inúmeras incertezas, como o preço dos alimentos, o El Niño e as expectativas inflacionárias”, acrescenta o economista.
Entrevista com José Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos
Qual o impacto da possível trégua entre EUA e Irã para a inflação e juros no Brasil?
Para nós, o tema é mais complexo do que apenas o conflito no Oriente Médio. Observamos a perspectiva de um fenômeno El Niño que provavelmente elevará os preços dos alimentos. Durante 2025 e no começo de 2026, o real se valorizou fortemente frente ao dólar, reduzindo a inflação de produtos industriais, pois ela depende muito da taxa de câmbio. Houve também uma deflação vinda da China, que foi transmitida ao Brasil e reforçada pela valorização cambial. Simultaneamente, as projeções inflacionárias permanecem acima da meta e continuam em trajetória ascendente.
E a guerra, qual o papel dela?
A guerra representa uma fonte adicional de incerteza, e é prematuro afirmar que esta foi superada. O acordo recente trata da reabertura do Estreito de Ormuz e desbloqueio dos portos iranianos, mas questões fundamentais, como o potencial desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã, seguem sem resolução. Além disso, o Estreito não estava integralmente fechado antes do conflito, então é incorreto considerar isso uma vitória total. Também está pendente a questão do urânio enriquecido que o Irã possui, o que precisa ser tratado. Portanto, os pontos decisivos ainda permanecem indefinidos.
O que o Banco Central deveria fazer na reunião desta quarta-feira?
Avaliamos que o Banco Central deveria suspender os cortes neste momento. Ainda que o conflito tenha arrefecido, muitas incertezas permanecem: preços dos alimentos, El Niño e expectativas inflacionárias. Parar os cortes agora ajudaria a ancorar as expectativas inflacionárias e criaria espaço para uma possível redução dos juros mais à frente, talvez no final do ano. Contudo, acreditamos que o Banco Central fará mais um corte de 25 pontos-base, ao mesmo tempo em que deverá emitir um comunicado firme. Se o corte ocorrer sem uma comunicação rigorosa, especialmente sem apresentar um balanço de riscos claro apontando um avanço inflacionário, pode haver pressão sobre o dólar, o que resultaria em aumento da inflação. A taxa de câmbio é um dos principais formadores da inflação no Brasil, como ficou evidenciado no final de 2024, quando o dólar superou os R$ 6,30 e o Banco Central precisou intervir no mercado e elevar a taxa Selic a 15% ao ano.
Como as eleições influenciam esse cenário?
O debate com vista às eleições de 2026 começou muito cedo, o que gera mais incerteza. O governo Lula mantém uma postura fiscal e parafiscal altamente expansionista, incluindo crédito subsidiado para aquisição de veículos e caminhões, o que impulsiona a demanda e pressiona a inflação. A inflação de serviços está em torno de 7% ao ano, enquanto o desemprego permanece baixo, cerca de 5,8%. Também existe o debate sobre o fim da jornada de trabalho 6 por 1, que, se aprovado, elevaria os custos da hora trabalhada e provavelmente seria repassado aos preços pelas empresas. Com um mercado de trabalho tão apertado, é provável que ocorra um aumento salarial significativo, o que pode desencadear um processo de indexação salarial e ampliar as pressões inflacionárias.
O que mudou internamente para que as projeções de inflação e juros piorassem desde o início do ano?
A guerra é só uma parte do problema. Especialistas em clima passaram a prever que o El Niño será muito mais intenso do que se esperava, o que tende a pressionar os preços dos alimentos. Além disso, a política fiscal e parafiscal continua agressiva, com expansão do crédito subsidiado. A inflação de serviços está alta, algo incompatível com a meta de 3%. Mesmo com juros próximos de 15%, essa pressão dos serviços tem aumentado, pois a política fiscal permanecem expansionista.
Os gastos extras em ano eleitoral não eram esperados?
De fato, o mercado antecipava maiores despesas, mas a magnitude surpreendeu. Aproximadamente R$ 200 bilhões em gastos adicionais podem ser contabilizados em 2026, incluindo programas como Desenrola, Pé-de-Meia, Vale-Gás e outros. Além disso, o pagamento de juros da dívida pública, que chega perto de R$ 1,5 trilhão por ano, tem impacto significativo na economia, estimulando a demanda e pressionando a inflação. Esses fatores, em conjunto, levaram à revisão das projeções do Banco Central, elevando a expectativa da Selic para 14% no fim deste ano, contra 12,5% projetados no início.
Por que o mercado de trabalho resiste à alta da taxa de juros?
A explicação é multifacetada. A reforma trabalhista de 2017 aumentou a flexibilidade do mercado, permitindo terceirização mais ampla, o que reduziu custos para as empresas. Também houve mudanças na litigiosidade trabalhista, que se tornou menos intensa inicialmente, mas cresceu novamente devido a decisões recentes do STF. A formalização de modalidades de trabalho mais flexíveis e com base em aplicativos contribuiu para a redução do desemprego tradicional, já que muitos trabalhadores transitam para ocupações temporárias. Estimamos que a taxa neutra de desemprego caiu de cerca de 9% para aproximadamente 7%, mas a taxa efetiva está perto de 5,3%, mantendo elevada a pressão salarial e a inflação de serviços. Embora seja menor do que antes da reforma, a pressão inflacionária permanece.
Como o Banco Central pode controlar a inflação sem causar desaceleração severa na economia?
O grande desafio hoje é a saúde financeira das empresas. Observamos um aumento de casos em que grandes companhias recorrem à recuperação judicial ou extrajudicial, ou vendem ativos para controlar o endividamento, pois foram muito alavancadas e enfrentam um ambiente prolongado de juros elevados. Isso pode provocar uma crise de crédito no setor produtivo, afetando empresas relevantes como Raízen e Grupo Pão de Açúcar. Enquanto a política fiscal e parafiscal seguirem expansionistas, o risco dessa crise permanece alto. O cenário é delicado, com potencial de repetição de crises cambiais como a de fim de 2024 ou uma crise de crédito significativa. Essas questões devem ser o foco central nas discussões de política econômica.
Já pensando em 2027, como a expectativa de ajuste fiscal impacta as previsões econômicas?
O mercado atualmente trabalha com a expectativa de que, se a oposição vencer a eleição, haverá um ajuste fiscal precoce, visando redução de gastos, revisão de programas sociais e diminuição do crédito subsidiado, entre outras medidas. Caso o governo Lula seja reeleito, a previsão é que as políticas fiscais continuem similares às atuais. Historicamente, durante os mandatos de Lula, a única contenção fiscal significativa ocorreu no primeiro mandato, com Antonio Palocci na Fazenda. Após sua saída, a postura ficou mais expansionista. Hoje, o ministro da Fazenda atribui parte do déficit fiscal elevado principalmente ao custo de juros, e não ao aumento dos gastos públicos. Se essa visão prevalecer, o cenário fiscal pode se deteriorar ainda mais, o que seria negativamente recebido pelos mercados, especialmente diante das recentes declarações do governo nessa área.



