Copom reduz taxa Selic em 0,25 ponto percentual para 14,25% ao ano; veja análises da decisão
Em sua terceira redução consecutiva, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade nesta quarta-feira (17), diminuir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, fixando-a em 14,25% ao ano. Essa medida mantém o ritmo das últimas decisões de política monetária promovidas pelo Banco Central.
De acordo com o comunicado oficial divulgado pelo Copom, “o Comitê considerou adequado, neste momento, prosseguir com o processo de ajuste da política monetária, reduzindo a taxa básica de juros para 14,25% ao ano”.
Sobre o cenário internacional, o Copom destaca que permanece um ambiente de incertezas, mesmo após o anúncio de um acordo entre Estados Unidos e Irã. O órgão evidencia a indefinição acerca dos termos para o fim dos conflitos no Oriente Médio e dos reflexos já visíveis desses embates nas condições financeiras globais.
Contexto econômico local
Em relação ao Brasil, o Banco Central ressaltou que a atividade econômica acelerou no primeiro trimestre do ano. Além disso, a inflação ultrapassou novamente o teto definido, alcançando 4,5% ao ano.
O Copom alerta que os riscos que podem influenciar a inflação, tanto para cima quanto para baixo, continuam acima do habitual. Entre os fatores que podem pressionar a inflação para cima, estão:
- O risco de as expectativas de inflação se desancorarem por um período mais longo, com impactos secundários provenientes de choques de oferta, principalmente relacionados a petróleo e derivados, e efeitos climáticos que afetam a produtividade agrícola e os custos de energia;
- Uma inflação de serviços possivelmente mais resistente que o previsto, decorrente de um hiato do produto mais reduzido;
- Políticas econômicas externas e internas que possam resultar em pressões inflacionárias superiores às estimadas, como uma taxa de câmbio persistentemente depreciada;
- Estímulos à demanda agregada, especialmente no consumo, que possam gerar um crescimento econômico acima do potencial, enfraquecendo os canais tradicionais de transmissão monetária.
Quanto aos riscos de queda para a inflação, o Banco Central cita:
- Uma desaceleração mais intensa da atividade econômica doméstica que o esperado, afetando o cenário inflacionário;
- Uma desaceleração global mais expressiva, decorrente de choques no comércio e no preço do petróleo, além de aumento da incerteza;
- Diminuição nos preços das commodities, gerando efeitos desinflacionários.
O comunicado também enfatiza os potenciais efeitos secundários relacionados às restrições de oferta de petróleo e seus derivados, mencionados na divulgação anterior de abril, e acrescenta os impactos climáticos sobre a produtividade agrícola e os custos de energia. Essa inclusão revela a preocupação do comitê com as consequências econômicas advindas de fenômenos climáticos, como o El Niño.
Perspectivas e postura do Copom
Quanto aos próximos passos da Selic, o comitê reafirma uma condução da política monetária pautada pela cautela e serenidade diante do atual cenário, marcado por um aumento significativo da incerteza. “Além do objetivo principal de garantir a estabilidade de preços, essa decisão também busca atenuar oscilações no nível da atividade econômica e fomentar o pleno emprego”, afirmou o documento.
Reações do mercado à decisão da Selic
Raphael Vieira, responsável pela área de Investimentos da Arton Advisor, aponta que o principal recado da decisão é a continuidade do ciclo de cortes, ainda que com previsibilidade reduzida e forte dependência dos dados que surgirem. Ele ressalta que o Copom reforçou os riscos inflacionários, especialmente devido às incertezas no panorama internacional e aos possíveis impactos dos conflitos no Oriente Médio sobre preços do petróleo e de commodities.
Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB Investimentos, destaca que, embora o corte de 0,25 ponto percentual fosse esperado, o que chamou atenção foi a mensagem sobre a inflação permanecer acima da meta no horizonte relevante da política monetária. Segundo ele, o Banco Central indicou uma redução no espaço para novos cortes no curto prazo.
Já Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, explica que, com a taxa nominal em 14,25% e projeções de inflação para os próximos doze meses em torno de 5%, o juro real ex-ante está entre 8,5% e 9% ao ano – valor significativamente superior ao juro neutro estimado em cerca de 5% reais. Isso implica que, mesmo após o ajuste, a política monetária continua sendo fortemente contracionista, justificando o corte pequeno e marginal, sem representar uma flexibilização substantiva.
Trevisan ainda acredita que o corte sinaliza uma tendência de encerramento do ciclo e não a abertura para sucessivas reduções. Segundo ele, o Copom fez o ajuste permitido pelo atual nível contracionista, ao mesmo tempo que condiciona os próximos movimentos à evolução dos dados, mantendo a possibilidade de interromper cortes já na próxima reunião, em 5 de agosto.
Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD, compartilha a visão de um comitê disposto a suspender o ciclo de redução dos juros de acordo com o comportamento da economia. Ele entende que, mesmo com o corte realizado, o discurso do Banco Central ficou mais rígido, deixando claro que a “barra” para novas reduções subiu. O ciclo de flexibilização monetária estaria próximo do fim e, conforme a reação da inflação, do câmbio, das commodities e das condições fiscais, uma pausa prolongada nos cortes não está descartada.



