A mulher que desafiou o domínio da China nas terras raras
Amanda Lacaze arriscou sua trajetória profissional para salvar a mineradora australiana Lynas, especializada em terras raras. Hoje, a empresa fornece materiais estratégicos para o Pentágono, tornando-se uma peça-chave no mercado global desses minerais.
Quando Lacaze assumiu a chefia da Lynas em 2014, o ceticismo predominava no setor. Seu antecessor havia deixado o cargo após apenas 14 meses, as ações da empresa haviam caído mais de 90% e sua experiência anterior era em marketing, não mineração. Ainda assim, ela precisava enfrentar o domínio quase absoluto da China nessa área, tarefa com importância estratégica, porém pouco rentável comercialmente.
Amanda recorda ter dito ao marido que, caso não conseguisse salvar a empresa, provavelmente nunca trabalharia novamente, destacando que, na Austrália, o fracasso não é facilmente aceito.
Doze anos depois à frente da companhia, ela vai se desligar no final de junho, após transformar a Lynas em uma potência ocidental no setor de terras raras. Em março, a mineradora fechou um acordo preliminar para fornecer esses minerais ao Pentágono, incluindo as raras terras pesadas, que a China usou como instrumento de pressão no último ano sobre a indústria mundial.
Atualmente, o valor das ações da Lynas é cerca de quinze vezes maior do que quando Amanda assumiu. Sua receita atingiu cerca de US$ 470 milhões nos nove meses encerrados em março, um crescimento de 70% comparado ao mesmo período anterior.
“Temos uma razão para não sermos muito populares na China”, afirmou Lacaze após visita às instalações em expansão na Malásia, onde são processados os minerais extraídos na Austrália.
Apesar da trégua comercial entre Estados Unidos e China, a dependência das terras raras controladas por Pequim ainda é um problema urgente para empresas globais. Ímãs feitos com esses minerais são componentes indispensáveis para eletrônicos, automóveis e defesa, e sua demanda cresce rapidamente com a expansão de veículos elétricos, drones e outras tecnologias avançadas.
A corrida global pelas terras raras
Esse contexto provocou uma corrida mundial, com governos investindo em minas, plantas de processamento e fábricas de ímãs para diminuir a dependência chinesa.
Um relatório recente do Conselho Empresarial EUA-China apontou que restrições chinesas tornaram certas terras raras quase impossíveis de serem obtidas. Cerca de metade das empresas consultadas busca fornecedores alternativos fora da China, mas ainda enfrenta dificuldades.
A Lynas, junto à americana MP Materials, tornou-se vital nesse cenário, sendo das poucas empresas ocidentais capazes de separar os elementos de terras raras em escala industrial — o motivo pelo qual a China processa 90% desses minerais mundialmente, e não 100%.
Desafios e mudanças na administração da Lynas
Quando Amanda assumiu, a Lynas já tinha um ativo importante: a mina Mount Weld, na Austrália Ocidental, que se destaca por sua alta concentração de terras raras.
Em 2010, as ações da Lynas subiram muito após a China restringir suas exportações, o que forçou o mundo a buscar outras fontes. Porém, poucos anos depois, Pequim retomou as vendas em larga escala, derrubando os preços, e a americana Molycorp, que pretendia dominar o mercado, declarou falência em 2015. A expectativa era de que a Lynas seria a próxima a sucumbir.
A planta de processamento da empresa em Kuantan, Malásia, enfrentava sérios problemas para separar os elementos químicos das terras raras, e a empresa não gerava caixa, afundada em dívidas.
Amanda cortou cargos na alta administração, fechou escritórios e mudou a equipe para Malásia, apostando em uma recuperação. Precisava também reconquistar a confiança dos credores, que se sentiam enganados quanto ao real estado da companhia.
Ela recorda viagens econômicas, incluindo uma estadia apertada em um hotel em Hong Kong para conversar com um credor japonês. Numa reunião em Tóquio, apostou na cortesia japonesa para conseguir um acordo crucial que permitiu postergar pagamentos da dívida e dar fôlego financeiro à empresa. O Japão queria garantir uma fonte alternativa para evitar dependência da China em eletrônicos e automóveis.
Enquanto as negociações avançavam, a equipe resolveu os problemas de qualidade da fábrica na Malásia. Cinco meses após assumir, Amanda anunciou que 99% da produção atendia aos padrões exigidos, em contraste com apenas 48% anteriormente.
Persistência e visão estratégica
A determinação de Lacaze tem raízes em sua infância simples em Brisbane, onde competia por comida com seus irmãos. Formada em marketing e com carreira em telecomunicações, ela era iniciante no setor de terras raras, mas não tinha medo de questionar e aprender.
De 2018 em diante, a Lynas enfrentou riscos políticos na Malásia devido a preocupações ambientais. A empresa sempre cumpriu as normas e conseguiu manter suas operações.
Como precaução, construiu uma instalação na Austrália para realizar uma etapa ambientalmente difícil do processamento, o chamado “cracking and leaching”, concluída em 2024.
Essa preparação permitiu que, em 2025, quando a China reduziu drasticamente as exportações de terras raras pesadas e ímãs como retaliação comercial aos EUA, a Lynas atendesse rapidamente a demanda global.
Desde então, a empresa captou aproximadamente US$ 600 milhões para ampliar a produção e firmou parceria com a fabricante texana Noveon, especializada em ímãs de terras raras.
Dificuldades e perspectivas futuras
Nem todos os planos foram bem-sucedidos. A Lynas anunciou em 2023 um contrato de US$ 258 milhões com o Pentágono para construir uma planta de processamento no Texas, mas abandonou o projeto em 2025 devido a custos elevados e dificuldades para atingir eficiência similar à planta da Malásia.
Enquanto isso, a concorrente MP Materials avança em sua unidade de separação na Califórnia, com apoio do governo americano, prevista para iniciar operações ainda este ano.
Amanda acredita que muitos governos abordam a questão erradamente, investindo em novas plantas de processamento, quando, segundo ela, os recursos seriam melhor aplicados subsidiando a escolha de fabricantes ocidentais de ímãs, evitando que essas empresas sofram competição desleal dos chineses, que praticam preços mais baixos.
Após deixar a Lynas, Lacaze assumirá a presidência do Conselho de Minerais da Austrália, associação que representa o setor minerador. Embora o comunicado oficial informe que ela está se aposentando, ela rejeita esse termo.
“Seria um erro dizer que estou realmente me aposentando. Isso seria loucura”, disse.



