Aliko Dangote, o homem mais rico da África, amplia sua fortuna com a guerra no Irã
Quando Aliko Dangote, reconhecido como o africano mais abastado, decidiu erguer uma imensa refinaria de petróleo em um terreno pantanoso próximo a Lagos, na Nigéria, há mais de dez anos, poucos acreditavam no êxito desse ambicioso projeto.
Durante décadas, vários governos nigerianos tentaram sem sucesso implantar algo similar. Atualmente, a Dangote Petroleum Refinery, construída por US$ 20 bilhões e considerada a maior refinaria do mundo, está em operação plena e vem registrando maiores lucros com a recente escalada nos preços do petróleo, provocada pelos conflitos envolvendo o Irã.
O destaque da refinaria foi tema de uma reportagem recente do Financial Times, que colocou Dangote em nova perspectiva. Embora já fosse o industrial de maior destaque no continente e o homem negro mais rico mundialmente, sua fortuna pessoal chega a US$ 30,4 bilhões, ultrapassando figuras como Lakshmi Mittal, da ArcelorMittal, e Peter Thiel, da Palantir.
Mais do que um crescimento financeiro pessoal, a refinaria validou a visão de Dangote sobre o desenvolvimento da África: unir o investimento privado e o empreendedorismo com uma protecionismo estatal eficaz para eliminar a dependência de importações e fomentar a transformação da matéria-prima em produtos acabados.
Ele próprio caracterizou a construção da refinaria como “um inferno”, mas ao concluir também uma planta petroquímica e uma unidade para produção gasosa de ureia, capaz de fabricar 3 milhões de toneladas de fertilizantes ao ano, estabeleceu um modelo industrial raro no continente.
Este empreendimento resolveu um paradoxo histórico: apesar de ser o maior produtor de petróleo da África e membro da Opep, a Nigéria exportava até 2 milhões de barris diários de petróleo bruto e, ainda assim, dependia da importação da maior parte da gasolina e diesel consumidos, sobretudo vindos da Europa.
Atualmente, Dangote afirma possuir capacidade para atender toda a demanda de combustíveis da população nigeriana, estimada em 230 milhões, além de produzir fertilizantes e plásticos para outros mercados africanos, com excedente destinado à exportação.
A influência da guerra no Estreito de Ormuz
O bloqueio do Estreito de Ormuz imposto por Teerã durante a crise entre Irã, Israel e Estados Unidos gerou uma demanda inesperada pelos produtos refinados pela Dangote.
Em abril, a refinaria foi reconhecida como a principal exportadora global de querosene de aviação, segundo dados da S&P, contribuindo para manter os voos das companhias aéreas durante a instabilidade. Há planos para ampliar a produção atual de 24 milhões para 30 milhões de litros diários.
Curiosamente, o Brasil está integrado a essa cadeia de suprimentos. Embora a Nigéria seja a maior produtora africana de petróleo, sofre com furtos e sabotagens em seus oleodutos, o que restringe a oferta interna do petróleo bruto.
Por essa razão, a refinaria de Dangote importa petróleo do Brasil e dos Estados Unidos e mantém negociações com países africanos produtores como Líbia e Angola. Os principais compradores dos derivados refinados são grandes tradings internacionais, incluindo Trafigura, Vitol, BP e TotalEnergies.
Inspirado no modelo asiático de desenvolvimento
O economista Joe Studwell, especialista em desenvolvimento econômico e estudioso do contexto asiático, compara o caso Dangote a conglomerados como Samsung, Hyundai e LG, que impulsionaram o crescimento industrial da Coreia do Sul desde a década de 1960.
Segundo Studwell, grandes empresas com forte fluxo de caixa têm capacidade para treinar trabalhadores e aumentar a produtividade, mesmo que sejam poucas em número, gerando um impacto significativo.
Entretanto, críticos apontam que Dangote se beneficia de relações próximas ao governo, favorecendo monopólios e adotando práticas de capitalismo de compadres. Recentemente, ele entrou em conflito com os reguladores nigerianos ao buscar proteger sua refinaria contra importações concorrentes.
No mês anterior, Dangote moveu ação judicial contra o governo da Nigéria, contestando licenças consideradas ilegais segundo a legislação nacional do petróleo, e denunciou a existência de uma “máfia do petróleo” interessada em manter o status quo.
Planos ambiciosos até 2030
Com 69 anos, Dangote afirma estar apenas iniciando sua trajetória. Ele traça metas para dobrar a capacidade da refinaria de Lagos para 1,4 milhão de barris diários até 2028, equiparando-a ao polo Jamnagar da Reliance na Índia, hoje a maior refinaria global. Também planeja construir outra refinaria de grande porte no leste africano, escolhendo entre Quênia ou Tanzânia.
No setor cimenteiro, a meta é ampliar a produção de 60 milhões para 100 milhões de toneladas até 2030, distribuídas em 11 países africanos. Quanto a fertilizantes, pretende quadruplicar a produção nas plantas da Nigéria e da Etiópia, alcançando 12 milhões de toneladas anuais.
Esse volume supera o consumo total atual de fertilizantes na África, conforme avaliação de Hanan Morsy, economista-chefe da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África.
Esse último aspecto tem implicações diretas para o Brasil, já que a Nigéria é o segundo maior exportador de ureia para o país, atrás apenas de Omã, com 1,58 milhão de toneladas importadas em 2024.
A ampliação da produção da Dangote pode reestruturar parte da cadeia global de fertilizantes nitrogenados, setor no qual o Brasil depende fortemente de importações.
No total, Dangote pretende investir US$ 45 bilhões até 2030, um montante inédito para um empresário africano. Embora uma parte venha de fluxo de caixa, ele planeja captar US$ 4 bilhões por meio de uma abertura minoritária da refinaria na bolsa de Lagos ainda neste ano.
A capitalização da refinaria, estimada em cerca de US$ 40 bilhões, equivaleria a aproximadamente um quarto do valor total da bolsa nigeriana. Também está prevista uma oferta secundária das operações de cimento, avaliada em US$ 13 bilhões, na bolsa de Londres em novembro. Subsequentemente, serão listadas as unidades de fertilizantes e de infraestrutura.
“Estamos trabalhando ininterruptamente. Este é o momento mais intenso da minha vida”, declarou Dangote ao Financial Times. “Até 2030, almejamos estar entre as 120 maiores corporações do mundo, com receita de US$ 100 bilhões.”



