Por que o Desenrola é considerado um ‘paliativo’, segundo este economista
Endividamento elevado e consumo impulsivo ameaçam a saúde financeira das famílias, alerta Sérgio Vale
O programa de renegociação de dívidas do governo federal conhecido como Desenrola, que recentemente ampliou sua oferta para abranger microempreendedores individuais (MEIs), tem sido apontado como uma solução temporária para problemas mais profundos na economia brasileira. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados e colunista da EXAME, destaca que essa iniciativa funciona apenas como um ‘paliativo’. Segundo ele, o país enfrenta um cenário marcado por juros historicamente altos, uma população altamente endividada e o crescimento expressivo das apostas esportivas entre os consumidores.
Vale explica que a inadimplência está elevada, resultado dos últimos anos em que taxas de juros altas foram combinadas com um padrão de consumo exagerado por parte dos brasileiros, que muitas vezes têm dificuldade para quitar suas contas.
O impacto do programa e seu caráter temporário
Na análise do economista, o Desenrola conseguiu reduzir a inadimplência entre as camadas mais pobres da população em cerca de 3,5 pontos percentuais em seu primeiro ano de funcionamento. No entanto, ele alerta que os efeitos positivos duram aproximadamente 18 meses, prazo após o qual o índice de inadimplência tende a voltar ao patamar anterior.
O economista ressalta que, embora o programa ofereça um alívio temporário para quem renegocia suas dívidas, ele não resolve a questão estrutural que leva as pessoas a se endividarem repetidamente.
Aspectos estruturais do problema econômico
Vale aponta que o desafio vai além das dificuldades momentâneas que ajudam a aumentar a inadimplência. Dois elementos estruturais comprometem o poder de compra das famílias brasileiras: primeiro, a permanência de juros elevados, o que encarece o crédito; segundo, o avanço acelerado das apostas esportivas, que vêm ganhando espaço no orçamento das pessoas.
Apesar da escassez de dados concretos no Brasil sobre o impacto das apostas, Sérgio Vale observa que os sinais negativos já aparecem em diferentes setores da economia. Ele destaca a ausência de estatísticas detalhadas como um desafio para quantificar o problema, mas cita experiências internacionais para auxiliar na compreensão do fenômeno.
Experiência internacional e consequências das apostas esportivas
O economista relembra o caso dos Estados Unidos, onde o mercado de apostas esportivas está regulamentado há mais tempo e existem estudos mais detalhados. Lá, investigou-se como esse tipo de atividade financeira afeta especialmente famílias de baixa renda, levando a uma piora patrimonial, aumento do uso de crédito e crescimento da inadimplência entre os consumidores mais vulneráveis.
Segundo Vale, pesquisas americanas indicam que pessoas de menor renda podem perder até 15% de sua renda vital ao direcionar parte dos recursos para apostas, o que também contribui para o crescimento do endividamento por meio de cartões de crédito e outras formas de financiamento.
Embora o Brasil ainda não possua números equivalentes, o economista considera provável que o mesmo padrão esteja ocorrendo, o que agrava ainda mais a situação já pressionada pelo elevado custo do crédito.
O dilema dos juros altos e o desequilíbrio fiscal
Sérgio Vale enfatiza que o grande desafio para o país é o alto custo estrutural dos juros, diretamente ligado à situação fiscal do Brasil. Ele alerta que, sem um ajuste fiscal robusto, não será possível diminuir as taxas de juros de forma sustentável, o que perpetua o ciclo de endividamento das famílias.
Independentemente do resultado eleitoral de 2026, o economista acredita que o Brasil seguirá enfrentando uma economia pressionada por desequilíbrios fiscais, juros elevados e consumidores financeiramente fragilizados, o que demandará esforços sérios para modificar esse cenário.



