Se a inteligência artificial pode comprometer seu produto, seja você a primeira a transformá-lo
Por José Brazuna — São Paulo
01/07/2026 06h50 Atualizado 01/07/2026 06h50
Na minha última coluna, compartilhei minhas impressões ao retornar ao Web Summit no Rio de Janeiro, comparando as edições de 2026 e 2024. Em 2024, o evento revelava uma atmosfera de entusiasmo e criatividade, com muitos empreendedores apresentando ideias inovadoras, num ambiente que parecia festivo e promissor, especialmente em setores como fintechs, marketplaces e criptomoedas.
No entanto, em 2026, o cenário mudou bastante, refletindo um mercado mais rigoroso e seletivo, devido a fatores como a elevação das taxas de juros. Notei menos brilho, menos investimentos aparentes e, de outro lado, mais empreendedores em estágios iniciais, buscando validar suas ideias em condições mais desafiadoras.
Enquanto em 2024 a inteligência artificial (IA) era vista como conceito, em 2026 ela está disseminada em todos os setores, deixando de ser um diferencial isolado para se tornar uma ferramenta essencial e cotidiana. Hoje, a grande questão não é se a empresa usa IA, mas sim o objetivo da sua aplicação, a profundidade de sua integração, a qualidade dos dados e sua efetividade na execução.
Após a publicação do meu texto, o colunista Gustavo Cunha escreveu um artigo que complementa essa reflexão, destacando como a IA une pessoas em todos os níveis hierárquicos — de estagiários a executivos — em um processo intenso de aprendizado sobre novas ferramentas e possibilidades. Isso acelera o desenvolvimento de protótipos funcionais que antigamente levavam semanas e múltiplas equipes para serem elaborados.
Essa nova dinâmica transforma o modo de empreender, antecipando a fase de experimentação e diminuindo a necessidade de grandes times técnicos para validar ideias. Na minha própria empresa, conseguimos criar um protótipo em uma semana com apenas duas pessoas, uma mudança radical em relação ao paradigma anterior, que exigia vários profissionais e um mês para alcançar algo similar.
Com os custos e prazos para testar ideias reduzidos, aumenta-se a capacidade de validar hipóteses e evitar desperdícios. Também muda a relação entre as áreas de negócio e tecnologia: em vez de fornecer ideias vagas para serem desenvolvidas, hoje as equipes chegam com experimentos prontos, com dados e resultados iniciais, tornando o trabalho técnico mais focado em validar e aprimorar soluções sólidas.
Brincamos internamente que, se a IA vai acabar prejudicando algum de nossos produtos ou serviços, é melhor que sejamos nós a conduzir essa transformação primero. Essa mentalidade é crítica: resistir ao passado apenas por nostalgia não é uma opção diante de uma concorrência que se torna mais agressiva. Qualquer tarefa que possa ser automatizada provavelmente será, e talvez nem pelos seus adversários, mas pelos próprios clientes.
Essa transformação impacta diretamente na cultura empresarial. As perguntas sobre entregas simples deram lugar a questionamentos sobre como essas entregas podem ser convertidas em prompts, agentes inteligentes, bancos de conhecimento ou processos repetitivos automatizados. A diferença não está só em executar tarefas mais rápido, mas em construir organizações que aprendam com cada ação, acumulando e replicando conhecimento de forma eficiente.
Assim, a IA deixa de ser um recurso individual e passa a ser parte da infraestrutura das companhias. Enquanto um colaborador obtém ganhos pontuais ao usar a tecnologia para escrever um e-mail, uma empresa que a integra para automatizar rotinas, gerir conhecimento jurídico, pesquisas regulatórias e processos repetitivos, adiciona valor institucional real, capaz de ampliar sua capacidade operacional e estratégica.
Essa característica é especialmente visível em ambientes regulados, onde normas, documentos e auditorias são intensivos em informações. A IA não substitui especialistas técnicos, mas melhora significativamente a capacidade de organização, recuperação e aplicação desses conhecimentos, acelerando pesquisas, estruturando documentos, sugerindo fluxos e permitindo que equipes menores entreguem mais resultados com menos desperdício.
No entanto, o uso disseminado da IA traz desafios importantes, como o aumento do risco de vazamento de dados. Isso ocorre não necessariamente por má intenção, mas pelo uso inadequado, falta de diretrizes claras e excesso de informalidade no trato das ferramentas. A empresa inevitavelmente enfrentará problemas dessa natureza se não tiver controles rigorosos.
O mesmo instrumento que agiliza análises pode expor informações sensíveis; o prompt que resume documentos pode inadvertidamente enviar dados de clientes para ambientes inseguros. Essas facilidades que impulsionam a produtividade também podem gerar fragilidades jurídicas, reputacionais e operacionais.
Logo, não usar IA parece seguro, mas é uma falsa proteção, pois deixa a empresa mais lenta e menos competitiva. Por outro lado, adotar IA sem regras é irresponsável e pode causar danos sérios. As organizações precisam definir políticas claras sobre o uso da IA, delimitar informações que não podem ser compartilhadas em plataformas abertas, controlar soluções aprovadas, estabelecer revisões humanas e preparar planos para eventuais falhas ou incidentes.
A inteligência artificial chegou ao ambiente corporativo antes que muitas estruturas estivessem preparadas para recebê-la, infiltrando-se por navegadores, celulares e pelo interesse natural dos funcionários em aumentar produtividade. Hoje, é preciso que a gestão acompanhe essa realidade para garantir o uso seguro e eficiente da tecnologia.
O comentário de Gustavo Cunha reforça que a IA levou todos a uma curva de aprendizado compartilhada, cujas consequências práticas já modificam a forma de pensar, testar e lançar produtos. A vantagem é que experimentar ficou muito mais barato, mas a desvantagem é que errar ficou igualmente mais rápido.
Empreender é mais acessível, porém não necessariamente mais simples. Criar protótipos é mais veloz, contudo construir empresas sólidas e defensáveis continua sendo um desafio complexo. No fim das contas, a inteligência artificial não eliminou as perguntas fundamentais dos negócios, apenas antecipou a necessidade de respondê-las.
O produto realmente soluciona uma dor do mercado? O cliente reconhece seu valor? A empresa consegue distribuir eficientemente? O preço é competitivo? O mercado tem profundidade suficiente para ser lucrativo? A concorrência pode replicar facilmente a solução, eliminando seu diferencial?
A IA barateia e acelera não apenas as respostas a essas questões, mas também a capacidade da concorrência em copiar e até superar a sua oferta, possivelmente sem custos.
Por isso, o diferencial futuro estará em quem utilizará a inteligência artificial não apenas para fazer o básico, mas para construir negócios melhores, mais eficientes e competitivos. A grande questão é: quem realmente conseguirá se manter vitorioso nesse cenário em transformação?
José Brazuna é sócio da Iaas!
Contato: jbrazuna@iaasbr.com


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