A corrida para tornar robôs humanoides seguros para convivência com humanos
Na última semana, robôs humanoides aproveitaram o centro de convenções em Chicago para interagir com as pessoas, entregando snacks, cumprimentando e até dançando em público. Entretanto, episódios como um robô que perdeu o controle durante uma dança em um restaurante e outro que atingiu uma criança durante um evento na China evidenciam um desafio significativo: garantir que essas máquinas não causem danos às pessoas ao seu redor.
Os fabricantes desses robôs, destinados a executar tarefas similares às humanas, declararam que não há relatos de ferimentos graves ou fatalidades resultantes do uso dessas máquinas. Porém, conforme os modelos vão se tornando maiores e mais pesados, chegando a pesar até 90 quilos, especialistas alertam para os perigos em casos de perda de equilíbrio ou desligamento repentino.
Michele Silva, engenheira da Reynolds & Moore especializada em segurança funcional, destacou que a queda de um robô tão robusto pode causar acidentes graves, inclusive esmagar uma pessoa.
Os avanços em reduzir os riscos associados à operação de robôs humanoides são essenciais para as ambições de crescimento do setor. Atualmente, empresas como a Agility, sediada em Oregon, que já trabalha com robôs dentro de áreas protegidas em fábricas, estão levantando bilhões de dólares em investimentos. A Agility, por exemplo, planeja abrir seu capital com uma avaliação estimada em US$ 2,5 bilhões.
Embora esses robôs estejam em fase inicial de aplicação em ambientes industriais e centros de distribuição, algumas companhias visam levá-los futuramente até as residências. Previsões de pesquisadores do Morgan Stanley indicam que até 2050 haverá cerca de 1 bilhão de humanoides em operação globalmente, movimentando um mercado avaliado em US$ 7,5 trilhões.
Diferentemente de robôs industriais tradicionais que funcionam com regras rígidas e previsíveis, os humanoides utilizam inteligência artificial e operam com base em probabilidades. Isso implica a necessidade de múltiplas camadas de segurança para que possam atuar junto aos humanos sem risco.
Na feira Automate, em Chicago, diversas empresas mostraram que já estão desenvolvendo mecanismos de segurança variados, desde botões de emergência até sistemas integrados nos chips dos robôs.
Soluções da NVIDIA para segurança
A fabricante de semicondutores NVIDIA revelou um sistema inovador voltado para segurança de robôs humanoides que utiliza seus chips Blackwell. Amit Goel, diretor sênior de robótica e ecossistema de IA de borda da empresa, explicou que o dispositivo interpreta dados obtidos por sensores para identificar riscos, interrompendo o robô se detectar um ambiente inseguro.
Ele destacou a importância da comunicação constante entre o “cérebro” que garante a segurança e o que executa as funções principais do robô, com um contexto rico de troca de informações.
Além dos sensores incorporados aos humanoides, há também sistemas externos no ambiente, como os desenvolvidos pela Fort Robotics, da Filadélfia, que criam controladores e softwares para processar dados de várias fontes, melhorando a capacidade dos robôs tomarem decisões seguras.
O CEO Samuel Reeves explicou que essa abordagem envolve analisar dados complexos, como reconhecimento e localização das pessoas, garantindo que o robô confie nos dados para agir com segurança.
Padrões e inovações para evitar quedas e acidentes
A preocupação com eventuais quedas de robôs humanoides motivou uma painel da International Organization for Standardization (ISO) a estudar e desenvolver um padrão internacional de segurança, que deve ser lançado até meados de 2028. Enquanto isso, as empresas têm desenvolvido suas próprias soluções para reduzir riscos.
A empresa alemã Neura Robotics criou o modelo 4NE1, um robô que pesa cerca de 80 quilos e foi desenhado para minimizar perigos. O fundador David Reger explicou que, ao detectar falhas críticas, como em uma articulação do joelho, o robô tenta se equilibrar e, se não conseguir, desmorona sobre si mesmo de forma controlada, similar a uma implosão.
Outras companhias optaram por designs que eliminam as pernas, como a Dexmate, da Califórnia, que fabrica robôs com rodas e braços longos para alcançar itens em armazéns. O cofundador Yuzhe Qin afirma que o centro de gravidade baixo garante extrema estabilidade, evitando quedas.
A Noble Machines desenvolve humanoides especializados para ambientes com alto grau de perigo, como canteiros de obra, fábricas e minas. Para o cofundador e CEO Wei Ding, substituir humanos por robôs em locais arriscados representa um avanço significativo na segurança do trabalho.
Já Brad Porter, da Cobot, lembra que os riscos associados aos humanoides precisam ser contextualizados, ressaltando que seus robôs sobre rodas e braços têm funções suaves, como empurrar carrinhos em hospitais ou separar peças, sem transferir muita força e evitando acidentes graves.
Contato com o autor: john.keilman@wsj.com



