Como avaliar um gestor de private equity — as seis perguntas que diferenciam habilidade de sorte do ciclo
Por Marina Procknor — São Paulo
07/07/2026 06h50 Atualizado 07/07/2026 06h50
Na coluna anterior, destaquei que grande parte dos retornos globais em private equity no último ciclo decorreu da expansão de múltiplos e do custo baixo da alavancagem, condições que o atual cenário de juros não proporciona — situação que, no Brasil, sempre foi menos favorável do que em outros mercados. Quando esse panorama muda, a distinção entre competência do gestor e sorte de mercado se torna mais clara.
Para os investidores, a pergunta prática é: como identificar essa diferença antes de firmar um compromisso de longo prazo, geralmente de dez anos? Investidores institucionais experientes costumam acudir a seis questionamentos fundamentais para guiar sua análise, dos quais o mais difícil não envolve diretamente números.
A primeira questão: o gestor já efetivamente retornou dinheiro real ao investidor?
Embora um portfólio possa apresentar resultados atraentes no papel, o retorno só é considerado concreto quando traduzido em liquidez para o investidor. Por isso, indicadores como o DPI — que mede a proporção entre o que o fundo já distribuiu e o capital aportado — ganharam destaque nas avaliações diligentes, acompanhados por métricas como TVPI (que inclui o valor presente em carteira) e PME (comparando resultado com mercado público equivalente no mesmo período).
Essa distinção tem importância prática: conforme o Bain Global Private Equity Report 2026, há cerca de US$ 3,8 trilhões em empresas adquiridas e ainda não vendidas nos portfólios de buyout, refletindo o volume de dry powder aguardando investimento, e com prazos médios para saída próximos de sete anos.
Na América Latina, operações secundárias foram responsáveis por impressionantes 28% das desinvestidas no primeiro semestre de 2025, um recorde segundo dados da LAVCA, incluindo continuation funds — instrumentos que transferem ativos para novos veículos geridos pelos mesmos gestores. Essas operações podem tanto preservar valor e prolongar horizontes para empresas relevantes quanto sinalizar um mercado pouco receptivo a vendas tradicionais; a transparência na explicação dessas decisões é determinante para avaliar o mérito.
Segunda pergunta: o gestor demonstra capacidade de repetir bons desempenhos ao longo do tempo?
Um alerta fundamental, muitas vezes surpreendente, é que estudos acadêmicos de referência, como o trabalho de Harris, Jenkinson, Kaplan e Stucke (2023), usando dados da Burgiss, indicam pouca persistência em resultados dos fundos de buyout desde os anos 2000. Ou seja, mesmo um fundo histórico de performance no primeiro quartil não garante que um novo fundo do mesmo gestor terá resultado semelhante. Já em venture capital, essa persistência permanece mais evidente.
Portanto, embora o histórico continue sendo uma referência valiosa, ele sozinho não é suficiente para prever resultados futuros, pois o timing das entradas e saídas e o ambiente de mercado exercem impacto relevante. É por isso que as questões qualitativas ganham destaque nas análises dos investidores institucionais.
Terceiro ponto: o gestor oferece uma explicação precisa das origens dos retornos anteriores?
É fundamental que o gestor detalhe quanto do valor criado provém do crescimento operacional, quanto é resultado da expansão dos múltiplos e quanto deriva da alavancagem financeira. Os melhores gestores conseguem decompor essa geração de valor com precisão, evitando narrativas excessivas, demonstrando profundo domínio da estratégia, o que auxilia os investidores a entenderem o que pode ser replicado em um ciclo com menor suporte a engenharia financeira.
Quarta questão, menos comum fora de diligências institucionais: a equipe central permanece a mesma?
Grande parte do valor de uma gestora está concentrado na equipe, resultado das relações estabelecidas ao longo do tempo, do julgamento de investimento e da capacidade de execução. Quando sócios importantes deixam a casa ou a estrutura societária muda, o histórico baseado na equipe original deixa de ser um indicador confiável. Por isso, cláusulas de key person são essenciais para proteger os investidores perante esses riscos.
Quinta pergunta: o gestor mantém disciplina durante períodos de competição intensa no mercado?
Em momentos nos quais a liquidez é abundante, há pressão para investir rapidamente, o que eleva preços e reduz a seletividade. Gestores consistentes preservam a capacidade de recusar negócios que não atendam aos critérios rigorosos, até mesmo perdendo operações por não aceitarem pagar preços exagerados. Evitar más decisões vale tanto quanto identificar excelentes oportunidades.
Sexta e última questão — a mais qualitativa e informativa segundo a experiência da autora: como o gestor aborda casos de investimento que não tiveram sucesso?
Todo gestor acumula investimentos abaixo do esperado, fato natural em uma indústria que depende de decisões de longo prazo, tomadas sob incerteza. O fundamental não é a ausência de erros, mas a compreensão do porquê deles terem ocorrido e as mudanças decorrentes desse aprendizado. Gestores maduros sabem distinguir entre erros de tese, falhas na execução e simples azar no timing, com honestidade e clareza analítica, sem recorrer a defesas superficiais. Essa postura revela muito sobre a qualidade da gestora, frequentemente mais do que seus casos de maior sucesso.
No contexto brasileiro, a primeira pergunta se torna ainda mais relevante. Embora o mercado de saídas comece a se abrir — como foi destacado nas primeiras análises desta série — os sinais ainda são tímidos: desde 2021, a única estreia relevante na B3 foi da Compass, via oferta secundária, ou seja, sócios vendendo participação, não captação primária pela empresa, sem que isso tenha desencadeado uma sequência consistente.
Os números evidenciam essa defasagem: dados consolidados da ABVCAP/TTR Data revelam que os investimentos em private equity atingiram R$ 15,9 bilhões nos primeiros nove meses de 2025, superando os R$ 13,3 bilhões de 2024, enquanto as saídas somaram apenas R$ 1,5 bilhão, bem abaixo dos R$ 10 bilhões do ano anterior. Ou seja, o capital entra, mas o retorno em liquidez é ainda muito limitado.
Enquanto o mercado acionário brasileiro não consegue sustentar uma sequência sólida de ofertas públicas, a liquidez tem se originado principalmente de operações estratégicas de M&A, com compradores internacionais atentos às plataformas construídas pelos fundos locais na última década, e de vendas secundárias. Também surgem desinvestimentos parciais, onde o gestor realiza parte do investimento e a empresa recebe novo capital para crescer — uma forma de liquidez que devolve recursos aos investidores sem abrir mão do potencial de valorização residual.
Assim, o DPI demorado em se concretizar no Brasil indica mais sobre a qualidade e estrutura do gestor local do que qualquer múltiplo apresentado no papel.
É importante destacar que nenhuma dessas perguntas, isoladamente, é suficiente para nortear a decisão de investimento. Mas, agrupadas, elas oferecem muito mais do que um simples histórico de retornos: fornecem uma perspectiva sobre como o gestor opera, enfrenta diferentes ciclos econômicos e executa sua estratégia quando o ambiente se torna adverso.
A combinação entre a avaliação da equipe e do histórico representa metade da diligência realizada; a outra metade envolve aspectos estruturais, como governança, alinhamento econômico, conflitos de interesse e prazos dos fundos. Essa discussão será tema da próxima coluna.
Marina Procknor é sócia do Mattos Filho e vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP).
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