O erro invisível: Por que é essencial ajustar suas métricas a proventos
A importância da rentabilidade total na análise de investimentos
Por Carlos Heitor Campani — Rio
20/03/2026 07h00 Atualizado agora
Um tema crucial que quero compartilhar faz parte da nossa série de debates “importantes, porém pouco abordados”. Trata-se de um erro conceitual comum que, mesmo simples à primeira vista, compromete significativamente a exatidão de qualquer avaliação: a falta de atenção a métricas e dados que incorporam os proventos.
Entendendo o que são proventos
Proventos correspondem a qualquer forma de distribuição de recursos aos investidores de um ativo. Para facilitar a explicação, vamos focar em exemplos relacionados a ações negociadas na Bolsa. Entre os mais conhecidos estão dividendos e Juros sobre Capital Próprio (JCP), mas também incluem bonificações e direitos de subscrição.
É fundamental que quando se analise rentabilidade, indicadores de performance (como Sharpe, Sortino e o Índice Campani, que é uma evolução destes dois), ou qualquer medição de retorno, os dados estejam devidamente ajustados para considerar estes pagamentos feitos aos acionistas. Para quem ainda não conhece o Índice Campani, que desenvolvi, ele possibilita uma avaliação mais precisa da performance dos investimentos.
Caso ilustrativo: o desempenho da Petrobras em 2023
Utilizar apenas o preço de fechamento das ações, sem os ajustes referentes aos proventos, constitui uma falha grave na metodologia. No caso da Petrobras, isso fica claro em 2023, ano em que a empresa distribuiu uma quantidade significativa de proventos. Se considerarmos somente a oscilação do preço das ações, o retorno seria de 52%. Porém, o investidor que manteve sua posição recebeu, na prática, um retorno total de 96%, graças ao montante recebido em dividendos e JCP.
Por isso, a métrica adequada para analisar qualquer investimento é a rentabilidade total — também chamada de rentabilidade ajustada —, que reintegra os proventos ao cálculo do preço do ativo.
Recompras de ações: uma forma indireta de payout
Enquanto dividendos e JCP são formas tradicionais e visíveis de distribuição, a recompra de ações é um mecanismo frequentemente negligenciado. Nesse processo, a empresa usa seu caixa excedente para adquirir suas próprias ações no mercado, geralmente sob a justificativa de que o ativo está subvalorizado.
Essa ação implica uma transferência de riqueza ao longo do tempo: os investidores que vendem antecipam seu fluxo de caixa a valor presente, enquanto os que continuam detêm uma participação maior proporcionalmente, aumentando sua fração no fluxo futuro de caixa da companhia.
Comparativo prático: dividendos versus recompras
Suponha uma empresa avaliada em R$ 100 milhões com 10 milhões de ações, cada uma valendo R$ 10,00. Se essa empresa tem R$ 20 milhões em caixa para distribuir, temos dois cenários distintos:
- Cenário de dividendos: Cada ação recebe R$ 2,00, resultando em ajuste do preço para aproximadamente R$ 8,00. O patrimônio do acionista permanece o mesmo, com combinação entre a ação descontada e o dinheiro recebido.
- Cenário de recompra: A empresa compra 2 milhões de ações a R$ 10,00 cada, consumindo os R$ 20 milhões em caixa. José, que vende a sua ação, tem R$ 10,00 em moeda. João, que não vende, possui uma ação de uma empresa com valor reduzido para R$ 80 milhões e só 8 milhões de ações em circulação. Dessa forma, o preço por ação se mantém em R$ 10,00.
Portanto, a recompra mantém o preço da ação estável e beneficia quem permanece, assumindo que o preço inicial estava subavaliado. Já o pagamento de dividendos distribui o valor para todos e provoca uma queda imediata no preço da ação.
Do dividend yield para payout yield
A recompra, apesar de não alterar o preço histórico da ação, tem impacto direto sobre o Dividend Yield (DY). Como é uma forma de distribuição de valor, deve ser levada em conta nas análises. Assim, o termo mais apropriado para essa taxa seria Payout Yield, que inclui recompras e pagamentos tradicionais.
Como exemplo, a ação XYZW3 indicava um DY de cerca de 3% em 2025, considerando apenas dividendos. Ao incluir as recompras feitas, esse índice supera 10%, refletindo com maior fidelidade a política de remuneração da empresa e proporcionando uma análise mais precisa para o investidor.
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Carlos Heitor Campani é PhD em Finanças, CNPI, Diretor Acadêmico da iluminu s – Academia de Finanças, sócio da CHC Finance e da Four Capital, além de pesquisador da ENS – Escola de Negócios e Seguros.



