Petróleo em alta desafia resultados da Vibra, Ipiranga e Raízen diante do combate ao combustível ilegal
A elevação superior a 30% no preço do petróleo, motivada pelos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, já começa a impactar com força o mercado brasileiro, pressionando as principais distribuidoras de combustíveis do país — Vibra, Ipiranga e Raízen — que enfrentam novo cenário de tensões após um período de estabilidade.
Desde o início do conflito no Irã, no fim de fevereiro, o diesel registrou alta média de 19% no Brasil, enquanto a gasolina subiu mais de 5%, conforme dados recentes da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Essa situação reacendeu preocupações quanto à inflação e motivou o governo federal a adotar ações, como a redução a zero de tributos sobre o diesel e intensificação das fiscalizações para evitar repasses abusivos, com sanções que podem chegar a R$ 500 milhões.
No entanto, além da pressão do Estado sobre os preços, o setor enfrenta o risco de que medidas emergenciais para assegurar o abastecimento possam, inadvertidamente, abrir espaço para práticas ilegais na cadeia de combustíveis, como a operação de refinarias que atuam fora da legalidade.
Para as distribuidoras, esse cenário configura uma reversão acentuada após um período de melhorias operacionais, embora o setor tenha acumulado alguma margem para absorver a pressão atual.
Crescimentos simultâneos impulsionados pela repressão ao mercado ilegal
Mesmo com o panorama adverso, Vibra, Ipiranga e Raízen obtiveram avanços expressivos, atingindo um incremento simultâneo de margens, volumes e participação no mercado.
Segundo as companhias, todas com ações negociadas na bolsa brasileira, esse progresso não decorreu da demanda, mas do fortalecimento do ambiente competitivo, em especial pela intensificação do combate ao mercado ilegal, simbolizado pela Operação Carbono Oculto, que evidenciou a ligação entre o crime organizado e o mercado financeiro em agosto de 2025.
Agora, a volatilidade crescente nas cotações do petróleo começa a testar esses ganhos.
Margens operacionais apresentaram avanço importante
O desempenho operacional aprimorado, que agora corre riscos, se traduz no indicador principal do setor: a margem por metro cúbico. A Vibra, responsável pelos postos com a bandeira Petrobras, observou alta de 73,4% nessa margem no quarto trimestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando R$ 251 por metro cúbico.
De acordo com especialistas de mercado, o CEO da Vibra, Ernesto Pousada, declarou que 2025 foi um ano decisivo devido às ações realizadas na Operação Carbono Oculto e outras iniciativas contra irregularidades.
A Vibra também registrou crescimento no volume vendido, com aumento de 5% no último trimestre, e elevou sua participação no mercado para 24,5%.
Além disso, o combate à comercialização ilegal impulsionou um recorde na conversão de estabelecimentos independentes para operar sob a bandeira Petrobras. No período, a Vibra somou 404 novos postos, totalizando aproximadamente 7,5 mil unidades no país.
Contudo, diante da escalada do preço dos combustíveis, esse quadro positivo passa a ser desafiado. Em entrevista recente à CNN Brasil, Pousada destacou que o setor vivencia um choque externo sem precedentes recentes, com impactos diretos nos custos e abastecimento.
Ele declarou: “Estamos próximos de uma crise energética global”, comentando os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre a cadeia de suprimentos. Como cerca de 30% do diesel consumido no Brasil é importado, a pressão sobre custos é inevitável.
O aumento da importação emergencial também provoca elevação significativa nos custos logísticos, pois demanda mais transporte, armazenamento e frete, o que, segundo Pousada, “expande exponencialmente” os custos da cadeia.
Na prática, esse aumento limita a flexibilidade das distribuidoras para absorver despesas. O diesel importado chega ao Brasil até R$ 2,50 por litro mais caro que o nacional, enquanto o subsídio do governo cobre cerca de apenas R$ 0,30 dessa diferença.
Considerando que a distribuição representa cerca de 5% do preço final dos combustíveis, resta pouco espaço para suportar esse impacto sem repassar custos, colocando em xeque as margens recentemente conquistadas.
Impacto da Operação Carbono Oculto
Para o Instituto Combustível Legal (ICL), representante das principais empresas do setor, a melhora recente nos resultados ocorre devido à redução de práticas ilícitas tradicionais, como sonegação fiscal e comercialização irregular – alvos das operações Carbono Oculto, Poço de Lobato e Tank.
Conforme declarou Emerson Kapaz, presidente do ICL, em entrevista, o mercado vive um equilíbrio maior, em que os preços começam a refletir os custos reais, excluindo, porém, o efeito da alta atual do petróleo.
As distorções derivadas da venda ilegal permitiam que alguns agentes atuassem com custos artificialmente baixos, pressionando a cadeia formal. “Ao combater o ilegal, devolvemos competitividade para quem cumpre o pagamento de impostos”, explicou Kapaz.
Na Ultrapar, dona da Ipiranga, os resultados refletem essas melhorias. A receita aumentou 5% em 2025, chegando a R$ 127,6 bilhões, e a margem recorrente subiu 2%, para R$ 145 por metro cúbico.
O CEO Rodrigo Pizzinatto atribuiu esses números à retomada do mercado após a intensificação do combate às irregularidades, ressaltando a recuperação das margens do setor.
Esse ambiente mais saudável também despertou o interesse de investidores estratégicos. A gigante americana Chevron está em negociação para adquirir cerca de 30% da Ipiranga junto à Ultrapar, um movimento que reforça a percepção positiva do mercado, segundo Kapaz.
Na Raízen, que enfrenta um processo delicado de reestruturação financeira com aproximadamente R$ 65 bilhões em dívidas na maior recuperação extrajudicial do país, a melhora operacional foi uma das poucas notícias favoráveis recentes.
A joint venture entre Cosan e Shell reportou crescimento de 50% no Ebitda da divisão de distribuição no terceiro trimestre da safra 2025/26 na comparação anual, impulsionada pelo aumento simultâneo de volumes e margens. A rentabilidade por metro cúbico cresceu 35,2%, alcançando R$ 215, e o volume vendido subiu 11,6% no período.
Riscos de retrocessos com alta de preços e escassez
Mesmo com esses avanços, o Instituto Combustível Legal alerta que o cenário atual, marcado pela elevação dos preços e risco de desabastecimento, pode abrir espaço para a atuação de agentes irregulares.
O ICL destaca que os mecanismos emergenciais criados pelo governo para ampliar a oferta de combustíveis podem ser explorados de forma oportunista por sonegadores e inadimplentes persistentes.
Esse alerta já figura no radar do mercado. A Refit, refinaria associada ao empresário Ricardo Magro, está em estudo para retomar operações no Rio de Janeiro, em busca de aproveitar instrumentos como o subsídio ao combustível, conforme reportado por Lauro Jardim, do jornal O Globo.
A Refit tem afirmado que seus débitos tributários estão sendo questionados judicialmente e que processos dessa natureza são comuns no setor. Além disso, a empresa se queixa de perseguições por parte de concorrentes.
Atualmente, a unidade está interditada pela ANP devido a irregularidades operacionais e riscos à segurança.
O ICL manifesta receio de que soluções emergenciais possam facilitar o retorno de agentes com passados ligados a práticas anticompetitivas e ilícitas.
Emerson Kapaz reforça que “abrir espaço para operadores com histórico de irregularidades não é uma solução; trata-se de um retrocesso”, defendendo, portanto, fiscalização rigorosa e maior controle sobre a origem e movimentação dos combustíveis.



