Atlético-MG Reforça Sustentabilidade Financeira da SAF Com Aporte

Atlético-MG Reforça Sustentabilidade Financeira da SAF Com Aporte

Atlético-MG aposta em aporte de R$ 500 milhões e novo CEO para fortalecer sustentabilidade financeira da SAF

Com um investimento de R$ 500 milhões liderado pelo bilionário Rubens Menin, o Atlético Mineiro busca reestruturar sua organização financeira e avançar na transformação de um clube originalmente sustentado pelos donos em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) com modelo de negócios mais autossustentável.

Esse aporte, que ainda está em fase final de negociação, deverá reduzir o volume das dívidas bancárias de curto prazo e diminuir os custos financeiros da operação, conforme explica Pedro Daniel, o recém-empossado CEO do clube, que assumiu o cargo em dezembro de 2025.

Com passagem pela consultoria EY, Daniel tem como desafio primordial restaurar a saúde financeira do Atlético. O clube encerrou 2024 com o maior índice de alavancagem entre os participantes da Série A do Campeonato Brasileiro, que terá início nesta quarta-feira (28).

A relação entre a dívida líquida e a receita total do Galo atingiu 3,8 vezes em 2024, conforme os últimos dados disponíveis — o balanço de 2025 será divulgado somente em abril. Vale destacar que, na contabilidade tradicional, o parâmetro usual para análise de alavancagem é a comparação da dívida líquida com o Ebitda (lucro operacional), número que costuma ser menor que a receita. Portanto, esse índice de 3,8 vezes a receita evidencia uma situação ainda mais delicada do que parece.

Apesar disso, já representa uma diminuição em relação aos 4,4 vezes registrados em 2023. O Atlético opera com resultado positivo, tendo apresentado em 2024 receita de R$ 607 milhões e despesas estimadas em R$ 452 milhões.

Para combater o elevado endividamento, concentrado especialmente no curto prazo, a SAF do clube estruturou um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) que captou R$ 90 milhões em sua primeira emissão, realizada em dezembro do ano passado. Agora, o novo aporte de R$ 500 milhões, liderado por Menin, promete ampliar a liquidez de caixa do clube.

“Nosso foco com esse aporte é exatamente atacar a dívida de curto prazo”, afirma Pedro Daniel em entrevista. “Temos conseguido reduzir o índice de alavancagem e hoje projetamos que essa relação entre dívida e receita ficará em torno de duas vezes para 2025. Ainda assim, a estrutura da dívida é complexa.”

Segunda etapa para SAFs brasileiras

O movimento do Atlético-MG acontece em uma fase mais madura para as SAFs no futebol brasileiro: após a fase inicial marcada por grandes aportes, os clubes agora enfrentam o desafio de comprovar que podem funcionar como negócios lucrativos e sustentáveis.

A contratação de Pedro Daniel como CEO reflete esse objetivo. O executivo acumulou experiência relevante em projetos de reestruturação e governança de clubes nacionais, colaborando inclusive com a CBF e órgãos públicos na implementação das SAFs e na adoção de práticas de fair play financeiro no país.

Pedro Daniel assumiu o comando executivo após liderar, pela EY, a elaboração do plano estratégico “Galo 2030”, projeto que traça o horizonte futuro da operação do clube. Ele vinha atuando como consultor desde 2020, acompanhando a transição do modelo associativo para o empresarial.

O plano estratégico inclui ampliar receitas recorrentes, especialmente por meio de uma utilização mais intensa da Arena MRV, inaugurada em 2023 e capaz de receber 43 mil torcedores em jogos e até 60 mil pessoas em eventos como shows.

Para isso, o Atlético fechou parceria com a empresa americana Live Nation para explorar o estádio como um espaço multiuso. Além disso, o clube anunciou investimentos próximos a R$ 10 milhões na infraestrutura da base, com foco em expandir a formação e a negociação de jogadores jovens.

Parte da estratégia é reforçar a marca e aumentar seu alcance nacional, fortalecendo a identidade do “Galo” para além de Minas Gerais.

A meta ambiciosa é alcançar um faturamento na ordem de R$ 1 bilhão nos próximos anos, desconsiderando eventuais ganhos extras atrelados ao desempenho esportivo, os quais poderiam acelerar esse crescimento.

Dificuldades para alcançar líderes do futebol brasileiro

Pedro Daniel admite que o Atlético-MG ainda não possui capacidade financeira para competir de igual para igual com Flamengo e Palmeiras, atualmente os dois clubes mais poderosos do país em termos de elenco, títulos e receita.

O Flamengo, por exemplo, registrou receita superior a R$ 2 bilhões em 2025, valor recorde para o futebol brasileiro, impulsionado por sua gigantesca base de torcedores, receitas comerciais e direitos de transmissão, além dos troféus conquistados durante a temporada.

Já o Palmeiras projetava encerrar 2025 com R$ 1,7 bilhão em receitas, parte expressiva advinda da venda de jovens talentos, como o caso de Estêvão, negociado com o Chelsea por 61,5 milhões de euros (mais de R$ 360 milhões à época do acordo).

Segundo Cesar Grafietti, sócio da consultoria Convocados, o principal desafio do Atlético não está na esfera esportiva, mas sim na estrutural. “A questão central é a dívida, garantida pelos próprios donos, especialmente os Menin. O custo financeiro anual ultrapassa R$ 250 milhões”, observa.

Grafietti complementa que o objetivo maior é fazer o clube operar dentro de suas capacidades financeiras. “Resolver R$ 1 bilhão em dívidas não adianta se o clube continuar trabalhando no vermelho e se endividando para tentar acompanhar Flamengo e Palmeiras.”

Implementado em 2021, o modelo de SAF transformou a maneira de investir no futebol nacional. Clubes tradicionais como Atlético Mineiro, Botafogo, Cruzeiro e Vasco têm visto a SAF como um canal para acessar o mercado de capitais e tentar reorganizar dívidas históricas.

No caso do Atlético, essa transição foi concluída em 2023 com a formação da Galo Holding, avaliada na época em cerca de R$ 2,1 bilhões. Esse processo atraiu investidores importantes da economia mineira, entre eles Rubens e Rafael Menin (associados à MRV e ao Banco Inter), Ricardo Guimarães (BMG) e Renato Salvador (Mater Dei).

Atualmente, a 2R Holding S.A., controlada por Rubens e Rafael Menin, detém 55,7% da Galo Holding, que por sua vez possui 75% da SAF do Atlético. Os 25% restantes permanecem com o clube associativo.

O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, também integrava a composição societária, mas sua participação foi suspensa devido a problemas judiciais relacionados à liquidação do banco. Com o aporte de R$ 500 milhões, a tendência é que a fatia dele fique ainda mais diluída.

Pressão do rival Cruzeiro

Nos últimos dois anos, o Atlético-MG enfrenta um novo fator de pressão: o ressurgimento do seu maior rival, o Cruzeiro.

Primeiro grande clube que aderiu ao modelo SAF, o Cruzeiro foi adquirido em dezembro de 2021 por Ronaldo Fenômeno. Atualmente, está sob o comando do empresário Pedro Lourenço, dono da rede Supermercados BH, que em 2024 comprou 90% da SAF do clube por cerca de R$ 350 milhões.

A entrada de um investidor com grande capacidade financeira revitalizou o Cruzeiro, que intensificou os investimentos e passou a brigar em pé de igualdade pelos principais títulos da última temporada. Em contrapartida, o Atlético focou em ajustes financeiros, priorizando o controle das dívidas.

Essa disparidade também se refletiu no desempenho esportivo: apesar do título estadual de 2025, o Atlético terminou o Campeonato Brasileiro na 11ª colocação, enquanto o Cruzeiro finalizou em terceiro lugar, atrás apenas de Flamengo e Palmeiras.

Cesar Grafietti comenta: “Agora é o Cruzeiro que possui dinheiro e um investidor disposto a alavancar o clube, enquanto o Atlético convive com problemas herdados da tentativa de crescimento acelerado nos últimos anos.”

Reestruturação dos direitos de transmissão

Na agenda do CEO do Atlético, um tema importante é a reorganização dos direitos de transmissão. Os clubes se dividiram em duas ligas – a Libra e a LFU (Liga Forte União) – com o objetivo de aumentar o poder de negociação e buscar novas fontes de receita para o Brasileirão.

Em outubro, o Atlético deixou a liga Libra para ingressar na LFU, devido a divergências sobre os critérios de distribuição das receitas do acordo com a TV Globo. A LFU conta com o apoio de um consórcio de investidores incluindo General Atlantic, Life Capital Partners e XP, e vem atraindo cada vez mais clubes — atualmente, 12 da Série A fazem parte da LFU, enquanto oito permaneceram na Libra.

Apesar dessa mudança, o impacto financeiro imediato no clube é nulo, uma vez que o Atlético mantém contrato vigente com a Globo até 2029. A expectativa, porém, é que a atuação coletiva a partir de 2030 fortaleça a capacidade de negociação dos clubes nas futuras renegociações.

“O Brasil talvez seja o último grande mercado do futebol em que o produto ainda reside no clube e não na liga. Nosso foco é ajudar a estruturar o Campeonato Brasileiro como um produto mais robusto”, conclui o CEO do Galo.

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