Banco Master: uma lição aprofundada sobre a dinâmica da economia brasileira
No livro “Capitalismo para o Povo”, Luigi Zingales esclarece os motivos que impulsionaram o sucesso da economia norte-americana e discute por que ela tem perdido força recentemente. Ele identifica que economias marcadas por um “capitalismo imperfeito” ou “capitalismo de compadrio”, como o caso do Brasil e da Itália, apresentam uma dinâmica distinta e menos eficiente. O episódio envolvendo o Banco Master ilustra claramente essa tese apresentada pelo autor em 2012.
Zingales diferencia duas formas de capitalismo: o “pró-mercado”, que estimula a competitividade entre agentes econômicos e promove o desenvolvimento; e o “pró-negócios”, no qual empresas se beneficiam ao capturar instituições públicas, a elite intelectual e os órgãos reguladores, obtendo privilégios que prejudicam o funcionamento saudável da economia. Esse último modelo cria uma percepção negativa do capitalismo perante a população, pois parece injusto e favorece interesses restritos.
Embora o capitalismo naturalmente gere desigualdades sociais, na história dos Estados Unidos a maioria da população conseguiu ascender socialmente, o que fortaleceu o apoio ao sistema. Hoje, somente 40% dos americanos atribuem as diferenças de renda à sorte, confiando no mérito e no esforço pessoal. Em contraste, 75% dos brasileiros acreditam que a desigualdade é principalmente fruto do acaso, sinalizando um menor respaldo popular ao capitalismo.
O Brasil apresenta um modelo capitalista ainda em fase tardia, formado por uma tríade composta pelo Estado, empresas públicas e privadas. O Estado teve papel central na estruturação da economia, explicando a presença marcante de estatais importantes como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, BNDES e Correios, além das empresas que foram privatizadas, como Eletrobras e Telebras. Isso cria uma conexão muito próxima entre empresas privadas e o governo, configurando um tipo de “capitalismo de Estado” mais do que um capitalismo tradicional, visto que boa parcela da atividade econômica é conduzida ou influenciada pelo setor público.
Além disso, dadas as dificuldades fiscais brasileiras, o país opera com taxas de juros elevadas. Para contornar isso, o governo recorre a mecanismos paliativos, como linhas de crédito subsidiadas pelo BNDES, Banco do Brasil e Caixa. Isso incentiva as empresas a manterem boas relações com o governo para acessar esses financiamentos ao invés de buscarem aprimoramento em eficiência, inovação ou redução de custos, priorizando relações institucionais em detrimento da competitividade real.
Essa lógica explica por que o Banco Master manteve contratos ou vínculos frequentes com figuras ligadas direta ou indiretamente aos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo. Também justifica a tentativa do banco em se unir ao BRB, um banco público, buscando apoio de ministros do Tribunal de Contas da União e funcionários do Banco Central, além de buscar alterações legislativas para elevar o limite do Fundo Garantidor de Créditos, visando tornar seus ativos mais atrativos de acordo com uma relação retorno-risco que depende desses mecanismos. Essa proximidade entre o setor privado e o Estado está no cerne do fenômeno descrito por Zingales.
Esse tipo de relação “promíscua” entre empresas e o governo não é novidade no Brasil. Casos anteriores incluem o uso dos fundos de pensão na privatização da Telemar e a eleição das chamadas “campeãs nacionais” no governo de Dilma Rousseff, exemplificando o “capitalismo de compadrio” que prejudica a transparência e justiça econômica.
O livro de Luigi Zingales é recomendado para quem deseja entender as nuances e contradições do sistema capitalista em contextos como o brasileiro. Resumir seus conteúdos em poucas linhas é tarefa difícil, dada a riqueza de insights apresentados.
Em suma, o entrave na economia brasileira não está no capitalismo em si, mas sim em um sistema econômico disfuncional, que frequentemente se assemelha a um modelo socialista com um Estado excessivamente poderoso, que gera mais caos do que desenvolvimento.



