Bolsa Brasileira Atrai Fluxo Estrangeiro e Quase Rende Selic

Bolsa Brasileira Atrai Fluxo Estrangeiro e Quase Rende Selic

Bolsa brasileira atrai maior fluxo de investidores estrangeiros desde 2023 e quase alcança rendimento da Selic em 2026

Apesar das tensões globais, a bolsa de valores do Brasil tem se destacado como uma alternativa atrativa para investidores estrangeiros. A expectativa de redução dos juros tem reforçado o interesse pelo país entre as economias emergentes.

Ibovespa e entrada recorde de capital estrangeiro

O rendimento anual da taxa Selic, atualmente em 15%, é expressivo, mas o índice Ibovespa, principal indicador da bolsa brasileira, tem se aproximado desse patamar em 2026, com uma valorização superior a 13% nos primeiros dias do ano. Esse desempenho é impulsionado pela maior entrada mensal de recursos estrangeiros desde novembro de 2023, quando até o dia 22 foram aportados R$ 21 bilhões, enquanto em janeiro de 2026 o volume até 23 do mês já soma quase R$ 18 bilhões.

Esse fluxo intenso não é novidade, mas sua magnitude em 2026 surpreende especialistas, como Fabiano Vaz, sócio e analista de ações da Nord Investimentos, que destaca a velocidade e o volume como aspectos notáveis neste início de ano. Em 2025, o Ibovespa ganhou 34% em reais e 51% em dólares, sustentado por compras estrangeiras da ordem de R$ 26 bilhões.

Motivações para saída de recursos dos EUA e entrada nos emergentes

A migração de investimentos estrangeiros para países emergentes está relacionada a riscos geopolíticos, com mercados como o brasileiro sendo vistos como menos vulneráveis. Além disso, problemas estruturais nos Estados Unidos, como ativos caros, aumento da dívida pública e déficit em conta corrente próximo a 3% do PIB, têm aumentado a percepção de risco nesse país, combinado com a perda de força do dólar no cenário internacional.

Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Way Investimentos, destaca a perda de confiança nas moedas tradicionais e a valorização de metais preciosos, reflexo do elevado endividamento das principais economias e do desconforto no sistema financeiro tradicional. Acresce ao cenário o ambiente político turbulento dos EUA sob o comando de Donald Trump, com medidas tarifárias controversas e questionamentos à independência do Federal Reserve, fatores que têm prejudicado Wall Street e bolsas europeias, enquanto mercados emergentes se beneficiam.

Entretanto, segundo Espírito Santo, a alta recente do mercado brasileiro está mais ligada à realocação global de investimentos do que a melhorias concretas nos fundamentos nacionais. Contudo, para Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, a sólida atuação de setores como commodities, bancos e energia também tem aumentado o interesse no Brasil.

Fundos de mercados emergentes acumulam forte ingresso de capital

Os fluxos para fundos de investimentos em emergentes aceleraram desde a metade do ano anterior, com entradas de US$ 17,5 bilhões em janeiro de 2026, superiores aos US$ 13,1 bilhões de dezembro e US$ 9 bilhões de novembro, conforme levantamento do BTG Pactual. Só as entradas deste mês correspondem a quase metade do volume de 2025.

Essa movimentação tem refletido no desempenho das bolsas latino-americanas, com valorização em dólar de 24% na Colômbia, 15% no Brasil, 14% no Chile e 10% no México, contrastando com a modesta alta de 1% do índice S&P 500 nos Estados Unidos.

Brasil se destaca entre emergentes como destino preferido

Nesse contexto, o Brasil ganhou relevância entre os destinos globais para investimentos em emergentes. A participação do país nos fundos externos subiu de 5,6% no fim de 2024 para 6,4% em dezembro, indicando que os gestores internacionais estão alocando montantes acima da média histórica, de acordo com o BTG.

Para Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, esse volume sugere expectativa de continuidade do fluxo estrangeiro, desde que o cenário macroeconômico permaneça estável. Além disso, a perspectiva de queda da Selic em 2026, em função do alívio inflacionário, estimula investidores a antecipar cortes nos juros, tornando ativos brasileiros mais vantajosos.

Conforme primeira leitura de Belitardo, o mercado está precificando o fim do ciclo de juros elevados e os cortes previstos para este ano, aumentando o apelo das ações em comparação à renda fixa, o que elevou o volume médio diário negociado no Ibovespa para cerca de R$ 30 bilhões em janeiro, 32% acima de igual período de 2025.

Concentração da entrada de recursos em grandes ações e fundos

Os investimentos estrangeiros não estão distribuídos de forma homogênea no mercado, concentrando-se principalmente em ações de grande liquidez. No último ano, as compras foram focadas em empresas como Vale, Eneva, Sabesp e Axia, e em 2026, a mineradora Vale continua atraindo a maior parte dos recursos, seguida pela Petrobras, Marfrig, Prio e Eneva.

Vale, que representa 12% do Ibovespa, já contribuiu com cerca de 3 mil pontos para a alta do índice no início do ano, cuja valorização total aproximou-se de 18 mil pontos. Também cresce a participação em fundos de índice (ETFs), como o EWZ, principal fundo que replica o mercado brasileiro externamente, com aumento de 78% na quantidade de cotas nos primeiros dias de 2026 em comparação a igual período de 2025, atingindo o maior número de cotas da história, superando níveis pré-pandemia.

Investidores locais e perspectiva de retorno ao mercado de ações

Mesmo com a Selic ainda alta, investidores pessoa física têm comprado ações, investindo cerca de R$ 8 bilhões em 2025. Todavia, o impacto maior na bolsa provém do investimento estrangeiro, já que investidores nacionais, tanto pessoa física quanto institucionais, estão pouco expostos à bolsa brasileira, o que torna a entrada de capital externo com forte impacto no desempenho.

Com a expectativa de redução dos juros, parte dos recursos atualmente em renda fixa pode migrar para renda variável, indicando um possível aumento da participação da pessoa física no mercado acionário. Fundos locais de ações, que tiveram resgates de aproximadamente R$ 63 bilhões em 2025, continuam a sofrer saídas neste início de 2026, porém em ritmo mais lento, sinalizando possível reversão de ciclo, conforme análise do BTG. Atualmente, apenas 8,7% dos recursos em fundos de investimento estão alocados em ações, sugerindo amplo espaço para retorno.

Perspectivas e cautelas para a bolsa brasileira em 2026

Analistas do Itaú BBA, Fábio Perina e Lucas Piza, apontam que a superação dos 180 mil pontos no Ibovespa representa marco importante, suportado pelo fortalecimento da maior parte dos índices setoriais, incentivando a continuidade da tendência de alta com meta de alcançar a marca dos 200 mil pontos.

Por outro lado, Fabiano Vaz adota visão mais conservadora, ressaltando que o ano eleitoral tende a aumentar incertezas e que fatores como questões fiscais, política monetária e geopolítica criam um ambiente volátil. Por isso, a Nord Investimentos prefere não estabelecer projeções específicas para o fechamento do Ibovespa em 2026.

Bolsa brasileira em alta 2026

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