Países desenvolvidos devem se preocupar com a ‘Brasilização’ da economia global, alerta The Economist
A revista britânica The Economist utilizou o Brasil como um alerta para as economias mais avançadas do planeta, destacando os riscos de um cenário caracterizado por juros elevados e uma dívida pública fora de controle. Em um artigo publicado na quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026, a publicação chama a atenção para o fenômeno denominado “Brasilização”, que envolve o aumento da dificuldade em manejar a dívida pública em condições de altas taxas de juros.
A matéria aponta o paradoxo vivido pelo Brasil, que apesar de apresentar indicadores que, em tese, são positivos — como crescimento econômico, um banco central independente e um orçamento primário quase equilibrado —, convive com uma dinâmica de endividamento considerada explosiva.
Com a taxa básica de juros Selic em 15% ao ano, a revista ressalta que o governo brasileiro gastará cerca de 8% do PIB somente para pagar os juros da dívida, ainda que as contas primárias estejam próximas de um equilíbrio.
Segundo a publicação, a dívida líquida do Brasil, que está em 66% do PIB, é elevada para o padrão de mercados emergentes, mas ainda baixa quando comparada às economias mais ricas.
Previsões e cenário futuro preocupam
O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta que a dívida pública bruta do Brasil pode chegar a 99% do PIB até 2030, um crescimento significativo em relação aos 62% registrados em 2010.
A revista destaca o dilema que se apresenta para o país: em um contexto de crescente populismo, é extremamente difícil ao mesmo tempo manter a inflação baixa e restringir gastos, especialmente com a população idosa. Porém, essa escolha será ainda mais dolorosa, pois o Brasil terá que optar entre uma austeridade severa ou enfrentar um ciclo vicioso de juros crescentes e aumento da dívida.
No entanto, a publicação ressalta que a alternativa da austeridade parece politicamente impossível, pois o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem adotando uma postura que dificulta um ajuste fiscal rigoroso no curto prazo.
Contexto institucional e histórico explicam os custos elevados
A revista atribui as altas taxas de juros que o Brasil enfrenta a uma combinação de fraquezas institucionais e fatores históricos. Ela menciona que as instituições brasileiras são frágeis e chegaram a vacilar durante a tentativa de golpe político em 2022 promovida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Além disso, a história recente do país, marcada por períodos de hiperinflação nas décadas de 1980 e 1990 e a crise econômica da década anterior, fez com que a inflação tenha um “pavio mais curto”, ou seja, seja um tema sensível com rápida reação.
Outro fator apontado é a rigidez dos gastos públicos. O Brasil destina aproximadamente 10% do PIB apenas para o pagamento de aposentadorias, e sem reformas, a projeção é que em 2050 esses gastos ultrapassem os dos países mais ricos e envelhecidos.
A Constituição protege esses gastos previdenciários, determinando, por exemplo, que o aumento do salário mínimo reflita no valor pago às aposentadorias. Essa forte influência dos pensionistas sobre o orçamento público torna o equilíbrio das contas ainda mais difícil e desloca recursos que poderiam ser usados em outras áreas.
Alerta para as economias avançadas
De acordo com The Economist, o Brasil funciona como um “avisado antecipado” do que pode acontecer com as economias mais desenvolvidas. A crise fiscal enfrentada pelo país evidencia vulnerabilidades que também ameaçam os países ricos.
O editorial cita que os Estados Unidos já exibem sinalizações iniciais desse fenômeno de “brasilização”, como instituições sob pressão e dificuldades em controlar a inflação pós-pandemia.
O texto observa que o governo americano tem mostrado dificuldades institucionais, mencionando o ex-presidente Donald Trump, que politizou o Departamento de Justiça, busca controlar o Federal Reserve e cogita federalizar o processo eleitoral.
Além disso, o aumento dos gastos com aposentadorias e saúde nas nações desenvolvidas também coloca pressão sobre seus orçamentos públicos, similarmente ao que ocorre no Brasil.
Crise fiscal brasileira vai além da política atual
Em uma análise publicada na quarta-feira, 11 de fevereiro, a revista destacou que, embora haja indicadores econômicos positivos, a trajetória da dívida pública brasileira é insustentável e os pessimistas têm razão ao prever problemas futuros.
A crise fiscal não seria decorrente apenas das decisões do governo atual, mas sim de um sistema que foi capturado por interesses poderosos, muitos deles protegidos pela Constituição.
A publicação aponta que as eleições de outubro serão decisivas para o futuro do país e para evitar que a economia brasileira se estanque ou entre em crise. Para isso, os parlamentares eleitos precisarão ter coragem para enfrentar interesses profundamente enraizados.
O sistema tributário brasileiro foi criticado como uma “bagunça”, que prejudica o crescimento econômico e contribui para a falta de credibilidade fiscal.
Estima-se que o custo econômico dessa desorganização seja significativo, levando a perdas no ritmo de crescimento que podem chegar a meio ponto percentual do PIB anualmente.
Essa falta de reformas impacta negativamente a confiança do mercado, acarretando perdas de até um ponto percentual no crescimento econômico a cada ano.
Embora reconheça alguns avanços recentes, como a limitação das isenções fiscais e a criação de um IVA dual, que podem elevar o PIB em até 4,5% até 2033, a revista enfatiza que, sem transformações estruturais, o Brasil continuará preso a um modelo fiscal insustentável.



