BYD e suas novas táticas para competir com Fiat, Volkswagen e GM no cenário brasileiro
Até pouco tempo, a ideia de uma fabricante chinesa de automóveis superar tradicionais marcas brasileiras parecia improvável. No entanto, dados recentes indicam que isso já está acontecendo. Em novembro, a BYD ficou à frente da Fiat no ranking da Fenabrave entre os carros de passeio mais vendidos no varejo, segmento que desconsidera veículos de frotas e locadoras.
Com uma participação de mercado de 9,8%, a BYD posicionou-se atrás somente da Volkswagen (16,4%), Hyundai (10,2%) e General Motors (10,23%). Além disso, a marca chinesa consolidou-se como a maior vendedora mundial de veículos totalmente elétricos no último ano, superando a Tesla, com 2,26 milhões de unidades contra 1,4 milhão.
Alexandre Baldy, vice-presidente sênior e chefe de marketing da BYD no Brasil, declarou ao InvestNews que a ambição da empresa é conquistar a primeira colocação no mercado, reconhecendo a Fiat, Volkswagen e GM como seus principais competidores.
Expandindo a análise para além dos carros de passeio e considerando os veículos comerciais leves, a Fiat retoma a liderança por conta do sucesso da picape Strada, que é o carro mais vendido no país. Ainda assim, para Baldy, a Fiat permanece entre as concorrentes que a BYD busca superar.
Porém, o desafio para a BYD crescer entre os modelos mais populares está na diferenciação tecnológica. Os carros líderes no Brasil, como Fiat Strada, VW Polo, Hyundai HB20 e Chevrolet Onix, possuem motores 1.0 turbo flex, tecnologia exclusiva do mercado brasileiro que garante menor carga tributária e preços competitivos. Já os veículos da BYD são exclusivamente elétricos ou híbridos, geralmente mais caros, o que limita o acesso a parte do público.
A BYD não produz carros apenas a combustão há anos, especialmente na China, e não pretende voltar atrás. “A BYD é uma das maiores montadoras do mundo e comprovou que o futuro está nas energias renováveis”, destacou Baldy.
Ao se referir a “novas energias”, fala-se de veículos totalmente elétricos ou híbridos em que o motor elétrico colabora ativamente na propulsão. Modelos micro-híbridos, como algumas versões da Fiat Pulse e Fastback, ficam fora dessa categoria. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), a BYD detém 56,6% do mercado nacional de veículos movidos por essas tecnologias (100% elétricos e híbridos – HEV e PHEV), seguida pela GWM, com 14,8%, e Toyota, com 9,8%.
No segmento dos carros totalmente elétricos, a BYD quase monopoliza o mercado brasileiro. Entre os híbridos, embora a competição seja maior, principalmente com o sucesso dos SUVs Song Pro e Song Plus da BYD em disputa com o GWM Haval, a liderança da montadora chinesa permanece sólida.
Expansão em locadoras
Para ampliar sua presença, a BYD busca expandir para além do varejo, mirando vendas para frotas e locadoras. Informações obtidas pelo InvestNews indicam conversas avançadas com uma importante rede do setor, possivelmente a Localiza. Essa empresa, no entanto, negou a existência de acordos firmados em 2025 e afirmou que qualquer eventual parceria será divulgada oportunamente.
Se o acordo se concretizar, poderá envolver cerca de 10 mil veículos, representando 9% da produção anual da BYD no país, com ênfase nos híbridos Song Pro e Song Plus.
Investimento em carregadores ultrarrápidos
Embora a BYD fabrique veículos híbridos, todos são do tipo plug-in, ou seja, possuem tomada para recarga. Diferente da GWM, que oferece híbridos passíveis de abastecimento convencional e até picapes a diesel, a BYD aposta no avanço da infraestrutura de recarga rápida para garantir maior penetração de mercado.
Na China, a disponibilidade de carregadores é ampla, com 4,5 milhões de pontos, contra apenas 17 mil no Brasil. Esse contraste ajuda a explicar porque 34% das vendas na China são de carros 100% elétricos, enquanto no Brasil o percentual é de 3%.
Para mudar esse cenário, a BYD pretende implementar 800 carregadores de alta velocidade no território nacional, com tecnologia própria denominada Flash Charging, capaz de adicionar até 400 km de autonomia em 5 minutos.
Atualmente, poucos modelos suportam essa tecnologia, incluindo as próximas gerações dos Tan e Han (ainda não disponíveis no Brasil) e alguns veículos da Denza, marca premium da BYD que será lançada em 2026.
Inicialmente, esses carregadores estarão instalados nas concessionárias BYD e Denza, com planos de implantação em eletropostos de vias públicas nas principais capitais brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília, consideradas estratégicas para o crescimento da montadora.
A estratégia da BYD para o Brasil passa, portanto, também por um planejamento urbano. Alexandre Baldy, com experiência prévia como ministro das Cidades e secretário dos Transportes Metropolitanos de São Paulo, lidera essa iniciativa.
Complexo de fabricação em Camaçari
Um dos principais impulsos para a BYD no Brasil foi a conclusão, em outubro, da modernização do complexo industrial de Camaçari, na Bahia, local anteriormente pertencente à Ford até 2021.
Com investimento de R$ 5,5 bilhões, o espaço possui 4,6 milhões de metros quadrados, o equivalente a aproximadamente 645 campos de futebol. Atualmente, a fábrica produz o Dolphin Mini, o carro elétrico mais vendido nacionalmente, além dos híbridos plug-in King e Song Pro.
A capacidade inicial era de 150 mil veículos por ano, mas a adição de um segundo turno elevou essa capacidade para 300 mil unidades anuais. O objetivo é alcançar a produção anual de 600 mil veículos quando estiver em plena operação, quase seis vezes maior que as vendas atuais da BYD no Brasil, que chegam a 110 mil unidades por ano.



