Diretor Financeiro, pare de tentar ganhar dinheiro com o caixa da empresa
Caixa da empresa deve estar em ativos de renda fixa, altamente líquidos, com mínimo risco de crédito e controle rigoroso do risco de mercado
Por Hugo Daniel Azevedo — São Paulo
15/04/2026 06h56 Atualizado agora
Um conselho que repito há muitos anos, mas que ainda é frequentemente ignorado é: o caixa da empresa não serve para gerar retorno financeiro, mas sim para garantir sua segurança. Se essa ideia parece estranha, é importante continuar lendo e entender o porquê.
Durante minha trajetória profissional, testemunhei muitos CFOs, diretores e gerentes financeiros, de organizações de vários portes, inclusive de companhias listadas na Bolsa, cometendo erros na administração do caixa. Alguns desses erros eram sofisticados e outros mais elementares, mas quase todos tinham a mesma origem: tratar o caixa da empresa como se fosse uma carteira de investimentos. Isso não é correto, nunca foi, e geralmente indica o caminho errado.
O problema geralmente começa com uma pergunta aparentemente inocente: “quanto estamos rendendo acima do CDI?”. Quando essa questão passa a direcionar as decisões, o foco desloca-se da proteção para o retorno. E, como em quase tudo nas finanças, essa mudança de foco tem um custo — que muitas vezes não é imediatamente percebido.
É nesse ponto que surgem os desvios mais perigosos. Empresas que deveriam manter seu caixa em ativos líquidos e previsíveis começam a alocar recursos em produtos estruturados, como COEs, muitas vezes sem as contrapartidas adequadas. Em algumas situações, até destinam parte do caixa para ações ou fundos de ações como se estivessem gerenciando um portfólio de longo prazo. Não há muito espaço para análises sofisticadas: isso não é gestão de caixa corporativo, é um erro grave.
O caixa corporativo não precisa — e nem deve — assumir esse tipo de risco. Não importa se o produto é bom ou ruim. Um COE pode fazer sentido para um investidor específico que tem total compreensão do ativo. Uma ação pode ser um ótimo investimento no longo prazo. Um fundo de ações pode apresentar bons resultados sustentáveis no tempo. No entanto, nenhuma dessas opções combina com a necessidade e finalidade do caixa empresarial.
Existe uma regra muito simples — até incômoda pela sua evidente obviedade — que deve nortear qualquer decisão da tesouraria: o caixa da empresa precisa estar alocado em ativos de renda fixa, com liquidez muito alta, risco de crédito quase inexistente e risco de mercado controlado. Qualquer desvio dessa regra deveria ser uma exceção justificada com muito cuidado.
Basicamente, toda aplicação do caixa envolve quatro tipos simultâneos de risco: liquidez, crédito, mercado e operacional. Eles são inerentes e inseparáveis ao investimento. Quando uma empresa se distancia dessa premissa fundamental, ao investir caixa em ativos inadequados, ela está, na prática, aumentando todos esses riscos de forma simultânea.
O conceito de liquidez, por exemplo, costuma ser mal interpretado e simplificado de maneira perigosa. Liquidez não é apenas o prazo para resgatar o investimento. Liquidez é realmente a capacidade de converter o ativo em dinheiro sem que o preço seja afetado de forma significativa. Pode parecer óbvio, mas passa a ser um problema quando a empresa precisa do dinheiro e percebe que aquilo que parecia líquido na teoria não se confirma na prática — especialmente quando o ativo não conta com um mercado profundo.
O risco de crédito é ainda mais sutil. Existe uma crença disseminada de que certas operações são “seguras por natureza”. Isso inclui operações compromissadas. Entretanto, há um aspecto técnico que raramente é discutido: mesmo em operações compromissadas, apesar de existir colateral, há exposição ao risco de crédito do emissor do lastro. Enquanto o papel estiver na carteira da empresa, essa exposição existe. O prazo para recompra não elimina o risco. Ignorar isso não reduz o risco, apenas faz com que a empresa o desconheça.
O risco de mercado geralmente surge de maneira despercebida. A crença de que ativos pós-fixados não apresentam risco é confortável, porém equivocada. Dependendo das condições econômicas, a marcação a mercado pode gerar impactos significativos, tanto em títulos públicos quanto privados, seja de forma direta ou através de fundos.
O risco operacional talvez seja o mais negligenciado. Falta de controles adequados, ausência de processos eficientes, erros humanos, falhas tecnológicas ou até mesmo má fé podem ocasionar perdas consideráveis. A história do mercado financeiro está cheia de episódios em que prejuízos não decorreram da má decisão de investimento, mas sim de falhas operacionais. Não existe nenhum motivo para acreditar que empresas estejam livres desses riscos.
No fim, o maior erro que engloba todos os outros é investir sem entender exatamente onde está colocando o dinheiro. Não ler o regulamento dos produtos, desconhecer o portfólio de um fundo, aceitar recomendações sem questionar, não saber onde o capital está efetivamente aplicado. Isso acontece com frequência em problemas relacionados à gestão do caixa corporativo — e pode ser evitado completamente.
Por isso, a melhor orientação, embora simples e paradoxalmente a menos seguida, permanece sendo: não invente. O caixa da empresa deve ser mantido em ativos que ofereçam altíssima liquidez, risco mínimo de crédito e risco de mercado controlado. Qualquer tentativa de “melhorar” essa estrutura geralmente traz resultados piores.
Se você ainda tem dúvidas, deixo uma última reflexão: caso o caixa da sua empresa esteja rendendo muito acima do CDI, a questão não deveria ser se isso é positivo, mas sim: qual risco oculto está sendo assumido sem que você perceba?
Hugo Daniel Azevedo é gestor de patrimônio, consultor CVM, autor de quatro livros sobre finanças, professor e sócio da MFS Capital.
Instagram: @dinheirodescomplica
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