Como O Fed Enfrenta Pressão Política Entre Bancos Centrais

Como O Fed Enfrenta Pressão Política Entre Bancos Centrais

Desafios enfrentados pelo Fed e outros quatro bancos centrais perante pressões políticas

A independência dos bancos centrais, definida pela sua capacidade de estipular taxas de juros sem interferência do poder político, é reconhecida como fundamental para a saúde econômica dos países. Por isso, a tentativa do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de demitir a diretora do Federal Reserve (Fed), Lisa Cook, tem gerado intensa repercussão.

Pesquisas indicam que quando bancos centrais são alinhados às vontades de governantes, resulta em maior inflação e crescimento econômico comprometido. Em contrapartida, experiências históricas mostram que essas instituições conseguem manter a estabilidade de preços com maior eficiência ao atuarem de forma independente.

A seguir, destacam-se cinco casos emblemáticos de bancos centrais submetidos a influências políticas e as consequências dessas intervenções.

Estados Unidos

Nos EUA, apesar de nunca ter ocorrido a demissão direta de um presidente do Fed por discordâncias com um governo em relação à política monetária, houve tentativas e subsídios a influências indiretas. Por exemplo, no caso de Lisa Cook, embora a controvérsia tenha base nas decisões dela sobre juros, as investidas contra ela também se fundamentam em alegações infundadas de fraude hipotecária.

Na década de 1970, o então presidente Richard Nixon pressionou Arthur Burns, presidente do Fed, a manter baixas as taxas de juros para favorecer sua reeleição, mesmo diante de alta inflação. Esse episódio desencadeou um período inflacionário severo que só foi controlado por Paul Volcker, sucessor de Burns, que elevou os juros para dois dígitos, adotando medidas dolorosas para a economia e restabelecendo a credibilidade do banco central.

Antes disso, Lyndon Johnson tentou também interferir diretamente, exigindo do presidente do Fed, William McChesney Martin Jr., que suspendesse o aumento dos juros, chegando a repreendê-lo fisicamente. Martin resistiu inicialmente, preocupado com os riscos inflacionários provenientes das políticas fiscais do governo, mas, mais tarde, flexibilizou a política monetária após um acordo relativo à elevação de impostos, o que posteriormente contribuiu para o avanço da inflação.

Turquia

O presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, autointitulado “inimigo dos juros”, substituiu quatro presidentes do banco central entre 2019 e 2023 por eles terem aumentado as taxas ou resistido a cortes que ele ordenou, acreditando que esses cortes controlariam a inflação.

Entretanto, o resultado foi o oposto do esperado: a inflação explodiu, a moeda local, lira turca, desvalorizou-se drasticamente e a população enfrentou dificuldades para custear despesas básicas como moradia e alimentação.

Em 2023, Erdoğan mudou a estratégia e nomeou Hafize Gaye Erkan, uma executiva financeira americana, que rapidamente elevou a taxa básica de juros de 8,5% para 45%. Seu sucessor, Fatih Karahan, endureceu ainda mais a política monetária antes de promover um alívio gradual. A inflação, que atingiu 85% em 2022, reduziu-se, mas permanece em níveis elevados de dois dígitos.

Argentina

Desde a nacionalização do banco central em 1946 pelo ex-presidente Juan Perón, a Argentina viveu ciclos repetidos de crise econômica. A prática do governo de emitir moeda para financiar despesas públicas conduziu a altos índices inflacionários, incluindo episódios de hiperinflação.

Desde o ano 2000, dos catorze presidentes do banco central, vários foram removidos por divergirem de políticas governamentais. Um exemplo foi Martín Redrado, afastado em 2010 por se negar a executar o plano da então presidente Cristina Fernández de Kirchner, que previa utilizar reservas cambiais para quitar dívidas.

Venezuela

A Constituição venezuelana assegura certa autonomia ao banco central e veda o financiamento direto de déficits governamentais. No entanto, sob o governo de Nicolás Maduro, que enfrenta julgamento em Nova York por acusações relacionadas ao tráfico de drogas, essa independência foi comprometida.

Leis foram aprovadas para colocar o banco central sob completo controle do Executivo, com seus dirigentes indicados exclusivamente pelo presidente. Após a queda dos preços do petróleo em 2014, o banco central financiou déficits elevados por meio da emissão de moeda, provocando uma hiperinflação estimada em mais de um milhão por cento em 2018.

Zimbábue

Durante a presidência de Robert Mugabe, o banco central do Zimbábue também adotou a emissão de moeda para suprir gastos governamentais, incluindo custos eleitorais, subsídios estatais e empréstimos para agricultores.

Esse desequilíbrio levou a uma hiperinflação extrema, culminando em 2009 com a emissão de uma nota de 100 trilhões de dólares zimbabuanos pelo então presidente do banco central, Gideon Gono.

Fonte

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