Conheça a Gomo Coop, o mercado onde clientes são também sócios e colaboradores
Um grupo de moradores de São Paulo reuniu R$ 500 mil para lançar o primeiro mercado cooperativo do Brasil, que começou a operar na primeira semana de 2026. O modelo se baseia no trabalho colaborativo da comunidade para reduzir custos e oferecer produtos mais acessíveis.
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Na Gomo Coop, localizada no centro de São Paulo e inaugurada oficialmente em 6 de janeiro de 2026, o cliente tem um papel ativo: além de fazer suas compras, ele pode ajudar a organizar as prateleiras, descarregar mercadorias ou manter o ambiente limpo. Em contrapartida, tem acesso a alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos, com preços competitivos.
Os participantes, chamados cooperantes, adquirem uma cota de R$ 100 para se tornarem co-proprietários do mercado. Essa iniciativa, conhecida como mercado cooperativo, é inédita no Brasil e na América Latina. A proposta é que o esforço conjunto dos cooperantes diminua despesas operacionais, resultando em melhores preços ao consumidor.
Esse formato já é tradicional em cidades como Nova York, Paris e Madri. Nos EUA, por exemplo, a Park Slope Food Coop, com cerca de 16 mil membros e mais de 50 anos de atuação, registrou vendas líquidas de aproximadamente US$ 55 milhões no primeiro semestre de 2024.
Apesar do sucesso, essa cooperação enfrenta desafios. Conforme destacou o jornalista Pete Wells no New York Times, o Park Slope é conhecido por disputas internas e normas exigentes, mas também por seus produtos frescos e orgânicos a preços acessíveis. Segundo ele, quando os membros têm voz na gestão, muitos participam ativamente, às vezes com posições firmes e apaixonadas.
O modelo cooperativo brasileiro
Chico Lima, um dos idealizadores da Gomo Coop, visitou o Park Slope e descreveu a experiência como uma “bagunça muito organizada”. Inspirado por essa vivência e após cursar uma disciplina sobre cooperativismo em São Paulo em 2021, reuniu cerca de 30 pessoas para idealizar um projeto similar no Brasil.
Depois de quatro anos de encontros virtuais, pesquisas e elaboração de planilhas, o grupo conseguiu levantar recursos e encontrar um local para o mercado. O modelo contou ainda com o apoio e orientações de cooperativas europeias e norte-americanas.
Para tirar a Gomo Coop do papel, os integrantes fizeram empréstimos pessoais que somaram cerca de R$ 430 mil, com previsão de reembolso em cinco anos. Além disso, lançaram uma campanha de financiamento coletivo que arrecadou outros R$ 100 mil para a primeira compra de mercadorias.
Atualmente, a garantia financeira da cooperativa vem também do capital social: cada cooperante contribui com uma cota única de R$ 100 na entrada, valor que pode ser devolvido caso opte por sair ao final do exercício fiscal.
“Quanto maior o número de cooperantes, menor pode ser o preço dos produtos”, explica Lima. Hoje, a Gomo Coop conta com 358 cooperantes, totalizando quase R$ 36 mil em cotas, e a meta é alcançar 700 membros nos próximos meses. Apesar do funcionamento experimental em dezembro, a inauguração oficial ocorreu na primeira semana deste ano.
Como a coop funciona no dia a dia
As regras do mercado são simples: após ingressar na cooperativa, o novo cooperante participa de uma reunião de integração, adquire a cota social de R$ 100 e já agenda sua primeira jornada para ajudar nas atividades do mercado. Diariamente, alguma pessoa veste o avental e assume tarefas que vão desde organização do estoque e limpeza até atendimento no caixa.
Esses cooperantes têm vidas profissionais diversas fora da cooperativa, sendo atores, designers, professores, psicólogos, entre outras atividades. Eles trabalham ao lado de um pequeno grupo de funcionários contratados — atualmente quatro pessoas — que ganham R$ 4 mil por 36 horas semanais.
Para garantir a sustentabilidade financeira na fase inicial, a Gomo Coop atende tanto os cooperantes quanto o público em geral, com diferença de preços mínima entre R$ 1 e R$ 3 a mais para quem não é sócio. Essa abertura também serve para aumentar o capital de giro e potencialmente atrair novos cooperantes.
Cada cooperante se compromete a dedicar três horas de trabalho a cada 28 dias, obtendo em troca menor custo dos produtos e direito a participar das decisões do mercado. Anualmente, eles participam da Assembleia Geral, onde são apresentados os resultados financeiros e escolhidos os membros dos conselhos administrativo e fiscal.
Na próxima Assembleia, prevista para algumas semanas, os cooperantes debaterão a continuidade do acesso livre ao público externo ou a exclusividade para membros, como ocorre em cooperativas semelhantes no exterior. Durante o dia a dia, a organização é feita por meio de grupos no WhatsApp, fomentando a interação e coordenação da comunidade.
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