Duas eleições presidenciais: Disputa em São Paulo extrapola Haddad e Tarcísio e ganha dimensão nacional
O cenário político em São Paulo começou a se definir com mais clareza na terceira semana de março, quando Fernando Haddad (PT), ex-ministro da Fazenda, anunciou sua pré-candidatura ao governo estadual após deixar o cargo. Essa candidatura é vista como uma peça estratégica dentro da campanha presidencial de 2026, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca seu quarto mandato.
Haddad é considerado o principal representante do PT no estado, que, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), corresponde a quase um quinto (22%) do eleitorado brasileiro. O objetivo é ampliar a presença regional enfrentando uma das principais oposições ao governo federal: o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Segundo o professor Marco Antonio Teixeira, do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), o PT enfrenta o desafio da alta rejeição no interior paulista. Lula busca atrair nomes de peso do governo para São Paulo, tentando conquistar eleitores não tradicionais da sigla. “Reduzir essa diferença em São Paulo é essencial para que Lula consiga compensar eventuais perdas no Norte e Nordeste, região onde ele tem enfrentado desgaste”, afirma Teixeira.
Além de Haddad, outros aliados do PT como Simone Tebet (PSB) e Geraldo Alckmin (PSB) possuem influência significativa em São Paulo. Tebet, que confirmou sua candidatura ao Senado durante sua filiação ao PSB, tem vínculos fortes com o agronegócio e mudou seu domicílio eleitoral para São Paulo a pedido de Lula e Alckmin, apesar de sua trajetória política ter começado no Mato Grosso do Sul.
Durante o anúncio, Tebet reforçou o apoio à reeleição do governo federal e criticou o senador Flávio Bolsonaro e a participação da família Bolsonaro na política. Já Alckmin, com quatro mandatos como governador de São Paulo entre 2001 e 2018 e grande presença no interior, confirmou sua saída do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços para se lançar novamente como vice de Lula.
Desafios de 2022 e potencial chapa
A disputa no interior do estado representa um ponto crítico para Haddad, refletindo os obstáculos enfrentados em 2022 quando perdeu para Tarcísio. O cientista político Carlos Melo, do Insper, destaca que o PT precisa resolver essa questão, pois vencer apenas na capital não é suficiente para garantir a vitória na eleição estadual.
Para fortalecer sua campanha, Haddad já definiu seus principais nomes: o deputado federal Kiko Celeguim, presidente estadual do PT e ex-prefeito de Franco da Rocha, será responsável pela coordenação. Otávio Antunes, responsável pelo marketing da campanha de 2022, continuará atuando com Haddad, e Jilmar Tatto, vice-presidente nacional do PT, coordenará a comunicação.
Quanto à chapa para o governo, o PT ainda debate possíveis candidatos a vice, com preferência por alguém ligado ao agronegócio e com destaque no interior paulista. A ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, Teresa Vendramini, está entre os cogitados para a vaga.
Disputa polarizada com Tarcísio
Embora a campanha ainda não tenha começado oficialmente, pesquisas indicam que a disputa em São Paulo será majoritariamente entre Haddad e Tarcísio. A pesquisa Atlas/Estadão, a primeira após o anúncio da pré-candidatura, apontou o governador com 49,1% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Haddad com 42,6%. O terceiro colocado, Kim Kataguiri (Missão), aparece com apenas 5%.
Em um eventual segundo turno, Tarcísio lidera com 53,5% contra 43,2% de Haddad.
Especialistas acreditam que o contexto eleitoral vai impulsionar a campanha de Haddad para intensificar a disputa, levando em consideração o histórico político do estado. “Em 2018, Jair Bolsonaro obteve um número de votos expressivo em São Paulo que não se repetiu em 2022. Caso Tarcísio vá às urnas, o importante para o PT é perder por uma margem estreita e sustentar uma boa votação de Lula, mantendo o desempenho de 2022 aqui”, analisa Melo.
Teixeira acrescenta que Haddad já teve um bom desempenho em 2022 e, por ter sido ministro durante todo esse período, pode ter uma condição até melhor na disputa estadual. O professor da FGV ressalta que a gestão de Tarcísio apresenta temas que provocam debates, como a privatização da Sabesp, a segurança pública, um tema de grande peso para São Paulo, e a administração da educação, temas que são potencialmente polêmicos.
Futuro político de Haddad em jogo
Além de fortalecer a candidatura de Lula à presidência, a campanha ao governo de São Paulo é uma aposta importante para a carreira política de Haddad, considerada por alguns como arriscada. O ex-ministro acumula derrotas recentes: para João Doria nas eleições de prefeito de São Paulo em 2016, para Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial em 2018, e para Tarcísio na disputa pelo governo paulista em 2022.
Teixeira avalia que, para a carreira de Haddad, seria mais vantajoso ser eleito senador, já que acumula três derrotas consecutivas, mas ressalta que ele está fazendo um esforço pessoal em prol da liderança de Lula e em consideração ao contexto nacional. Apesar disso, Haddad é considerado o principal nome do PT com viabilidade política em São Paulo, apoiado em sua experiência como ex-prefeito da capital e em sua relação com a classe média.
Melo destaca que os recentes trabalhos de Haddad junto ao governo federal podem ajudar na campanha, sobretudo porque o PT possui base em todo o país, e Haddad teve avanços importantes durante seu período no Ministério da Fazenda, além dos índices econômicos do país estarem relativamente positivos.
Esse esforço pessoal de Haddad demonstra também sua lealdade a Lula e a necessidade do PT de projetar ou definir um sucessor político para o atual presidente. Nesse ponto, há divergências entre especialistas: Teixeira considera Haddad o sucessor natural de Lula, já que o partido hoje não dispõe de outro nome tão forte e, segundo pesquisas, sua aprovação é próxima à de Lula.
Por outro lado, Melo acredita que ainda é prematuro falar em sucessão antes do resultado das eleições e do mandato presidencial até 2030. “Haddad é o nome mais conhecido depois de Lula, mas assumir a condição de principal candidato ou sucessor depende de muitos fatores que poderão ocorrer até lá”, analisa.
De qualquer forma, concordam que essa eleição é crucial para a trajetória política de Haddad e que os resultados tendem a influenciar sua imagem e capital político para os próximos anos, diretamente relacionados ao cenário do PT e ao próprio Lula.
“Se Haddad vencer, assume o governo de São Paulo e se torna um potencial candidato presidencial. Caso perca, com Lula reeleito, pode ser nomeado ministro e continuar na corrida política”, conclui Melo.
Para Teixeira, mesmo com a reeleição de Lula, Haddad sai fortalecido, independentemente da votação que consiga em São Paulo. Porém, se Lula não for reeleito, Haddad enfraquece, embora ainda possa se manter como possível sucessor em eleições futuras, mas com o PT em posição menos favorável.



