Embraer mira expansão global com nova fábrica na Índia
A Embraer anunciou na terça-feira (27) a instalação de uma unidade fabril na Índia para a produção de aeronaves comerciais. Essa iniciativa reforça o país como ponto estratégico para o crescimento da companhia brasileira no mercado global, que é um dos maiores no setor de aviação civil.
A empresa firmou parceria com o grupo indiano Adani, consolidando a estratégia de ampliar sua presença local, alinhando-se ao potencial do mercado indiano, que pode impulsionar significativamente seus negócios na aviação comercial.
Embora os dados finais de entregas em 2025 ainda não tenham sido divulgados, a Embraer estimava entregar entre 77 e 85 aeronaves no período, um avanço comparado às 73 unidades entregues em 2024. A nova planta tem potencial para elevar esses números consideravelmente. Internamente, a fabricante entendia que uma produção mínima de 200 aviões garantiria a viabilidade da fabricação na Índia. A projeção da companhia prevê uma demanda total de 500 aviões para os próximos 20 anos no país, sendo que aproximadamente 300 deles devem ser solicitados na próxima década.
A Embraer irá apresentar os modelos comerciais E195-E2 e E175 na Wings India 2026, evento que acontecerá em Hyderabad a partir de 28 de janeiro. Além disso, mantém diálogos com companhias aéreas locais desde a reunião da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata). Atualmente, o mercado indiano é liderado pelas companhias Air India e IndiGo.
Parceria com o grupo Adani
O conglomerado Adani, um dos maiores da Índia, atua principalmente nos setores de infraestrutura e energia, áreas fundamentais para a economia do país. Controlado pelo bilionário Gautam Adani, o grupo possui negócios que abrangem portos, logística, geração e transmissão de energia, incluindo fontes renováveis, além de aeroportos, cimento e infraestrutura digital.
O evento de assinatura do acordo foi realizado no Ministério da Aviação Civil em Nova Déli, reforçando o compromisso da parceria com a política “Make in India”, que visa estimular a produção industrial local, fortalecer a cadeia de fornecedores e gerar empregos dentro do país.
Oportunidades no mercado de aviação indiano
A Índia tem se destacado como um importante polo da indústria aeronáutica global. Em junho de 2025, durante a assembleia anual da Iata realizada no país, o primeiro-ministro Narendra Modi destacou os investimentos em infraestrutura e conectividade. O governo busca inaugurar 50 aeroportos até 2030 e promover a aviação regional por meio do programa UDAN, criado para incentivar voos entre cidades de pequeno e médio porte. Esse cenário chamou a atenção da Embraer, que vê na aviação regional um segmento em crescimento no país.
Em outubro, a companhia abriu um escritório local e reconhece que sua atuação na Índia ainda é modesta em comparação com o tamanho do mercado. Em entrevista concedida em junho de 2025, o CEO Francisco Gomes Neto apontou que a Embraer opera apenas 50 aeronaves no país, contra 4 mil globalmente, sendo apenas 11 aeronaves comerciais (modelos ERJ145 e E175) operadas pela Star Air.
Foco na aviação regional comercial
A Embraer aposta no segmento de aviação comercial regional, considerado subexplorado na Índia, sem deixar de lado áreas de defesa e jatos executivos. A empresa enxerga que a aviação regional está ganhando prioridade devido a necessidades econômicas e políticas públicas. Seu portfólio busca preencher a lacuna existente entre os turboélices, que têm alcance limitado e são mais lentos, e os narrowbodies de 180 a 200 assentos que dominam o mercado das grandes companhias aéreas.
O modelo E175, com capacidade para cerca de 80 passageiros, é ideal para rotas que conectam pequenas cidades, enquanto o E2, da nova geração, oferece maior eficiência e conforto para trajetos regionais e de distância maior. Conforme explicou o CEO Francisco Gomes Neto, algumas localidades não têm demanda suficiente para aviões maiores, enquanto outras precisam de mais frequência de voos diários. A disparidade é semelhante ao que ocorre no Brasil, onde rotas regionais dependem de aeronaves menores e eficientes. Os turboélices têm alcance estimado em 500 km, ao passo que os jatos E2 podem voar até 6.000 km, diminuindo significativamente o tempo de viagem, de mais de duas horas para aproximadamente uma hora e meia.
Perspectivas empresariais e ações
Analistas veem o mercado indiano como uma nova variável que pode alavancar ainda mais a Embraer, que já apresenta valorização significativa em bolsa — acumulando alta de 1.064% nos últimos cinco anos. Desde abril de 2019, Francisco Gomes Neto comanda a empresa, após experiência como CEO da Marcopolo. Ele enfrentou desafios como a desistência da Boeing da compra da unidade comercial da Embraer e momentos difíceis para a companhia brasileira.
Expansão no setor de defesa
Além da aviação comercial, a Embraer tem ampliado sua atuação no segmento de defesa. Em fevereiro de 2024, firmou um memorando de entendimento com a Mahindra Defence Systems para a participação em programas governamentais deste setor. Atualmente, essa área é a mais consolidada para a companhia, tanto em vendas quanto pela parceria estratégica.
A previsão da Embraer estima uma demanda global de 500 aeronaves do porte do KC-390 para os próximos anos, com 23% dessa demanda concentrada na região da Ásia-Pacífico. O Brasil disputa a venda de 40 a 80 aeronaves militares para a Índia e também observa oportunidades na Arábia Saudita, que em breve aposentará cerca de 60 aviões de defesa.



