Haverá empregos para os 1,2 bilhão de jovens que adentrarão o mercado de trabalho nos próximos 10 anos?
As economias emergentes e em desenvolvimento enfrentam um desafio sem precedentes na questão da geração de empregos. O Banco Mundial estima que, entre 2025 e 2035, aproximadamente 1,2 bilhão de jovens atingirão a idade trabalhista nessas regiões. Contudo, a criação de vagas prevista é de somente 400 milhões, o que representa cerca de um terço do total de jovens que entrarão no mercado.
Esse cenário preocupante é abordado no relatório recente do Banco Mundial, que propõe maneiras de transformar esse desafio econômico e social em uma oportunidade de progresso. A maior parte do crescimento da força jovem estará concentrada na África Subsaariana, que deverá receber mais de 330 milhões, seguida pelo Sul da Ásia e Leste Asiático e Pacífico, com cerca de 280 milhões cada, além do Oriente Médio e Norte da África, contabilizando aproximadamente 170 milhões de novos trabalhadores jovens. A América Latina e o Caribe irão contribuir com cerca de 100 milhões.
Segundo o Banco Mundial, o emprego é um elemento crucial para mitigar a pobreza, promover riqueza compartilhada, consolidar economias independentes e garantir estabilidade social. Logo, superar esse desafio mundial requer respostas urgentes e em grande escala, que envolvem a mobilização de recursos públicos, conhecimento técnico, investimento privado e mecanismos de gerenciamento de riscos.
Estratégias e pilares para criação de empregos
O relatório intitulado “The Global Jobs Challenge” indica três pilares centrais para a formulação de políticas que possam gerar um volume adequado de empregos: infraestrutura essencial (incluindo capital físico, humano e digital), um ambiente propício para negócios e a atração de capital privado.
Complementarmente, há cinco setores destacados por seu grande potencial para gerar empregos estáveis e em larga escala: infraestrutura (com ênfase em energia), agronegócio, saúde, turismo e manufatura de produtos de maior valor agregado.
O documento ressalta, contudo, que gerar empregos suficientes está se tornando mais difícil devido à desaceleração global do crescimento, redução da capacidade fiscal e menor efetividade dos métodos tradicionais de geração de postos de trabalho, em decorrência das transformações tecnológicas e da fragmentação do comércio internacional.
No entanto, o Banco Mundial enfatiza que projeções não são um destino inevitável. Ao fomentar políticas de criação de oportunidades ocupacionais, esses jovens poderão contribuir para ampliar a demanda interna, fortalecer as relações internacionais, consolidar a estabilidade econômica e social e impulsionar a prosperidade global.
O estudo também aborda casos históricos de países que alcançaram crescimento sustentável na geração de empregos, mostrando que os pilares indicados de fato estimularam ampliação do trabalho e crescimento econômico acelerado.
Setores com impacto na geração de empregos
Strategicamente, políticas que focam em determinados setores podem potencializar a capacidade de criar postos de trabalho. Segundo o Banco Mundial, ao menos cinco segmentos apresentam oportunidades expressivas para gerar vagas duradouras:
- Infraestrutura: investimentos físicos, digitais e em energia que viabilizem o crescimento empresarial.
- Agronegócio: responsável por quase metade dos empregos na África Subsaariana e parte significativa em outras regiões, sendo um pilar fundamental para absorver mão de obra jovem.
- Saúde: com potencial de emprego pela crescente demanda por serviços adequados e abrangentes.
- Turismo: capaz de gerar oportunidades locais e impulsionar economias regionais.
- Manufatura de maior valor agregado: que eleva a produtividade e atrai investimentos intensivos em capital humano.
O Banco Mundial também assinala que o ritmo de crescimento potencial desses países desacelerou, passando de uma média anual de 6% nos anos 2000 para pouco acima de 4% na década atual, o que afeta a capacidade de expansão dos empregos.
Além disso, o relatório destaca que mais de 270 milhões de jovens de países emergentes estarão vivendo em regiões frágeis ou marcadas por conflitos em 2035, o que dificulta ainda mais a inclusão no mercado de trabalho.
Os três pilares da política para criação de empregos
Infraestrutura fundamental
Para que o setor privado prospere e gere empregos, é necessário que haja uma infraestrutura eficiente e serviços públicos eficazes. Investimentos bem direcionados em capital físico, digital e humano criam plataformas que fomentam negócios e conectam as pessoas a novas oportunidades de trabalho.
Esses investimentos incluem educação de qualidade, capacitação contínua, acesso a sistemas de saúde, transporte confiável, redes digitais robustas e fornecimento de energia estável e acessível. Além disso, incentivos públicos estrategicamente planejados podem alavancar investimentos privados importantes.
Ambiente propício para os negócios
Um mercado de trabalho vigoroso depende de instituições sólidas, estabilidade macroeconômica e políticas previsíveis. Isso permite que empresas produtivas cresçam e que empresas menos eficientes saiam do mercado, facilitando a geração de emprego.
O fortalecimento das instituições reguladoras, aplicação consistente das leis por um judiciário independente e políticas de longo prazo confiáveis formam a base adequada para investimentos e expansão empresarial.
Reformas abrangentes podem aprimorar o ambiente de negócios ao reduzir barreiras para entrada de novas empresas, melhorar a eficiência regulatória, eliminar subsídios distorcidos e otimizar o uso da terra. Também é relevante aumentar a flexibilidade em contratações e treinamentos, além de incentivar a integração em cadeias de valor globais e regionais.
Mobilização de capital privado
Para que as empresas possam crescer e gerar empregos, é fundamental que existam mercados financeiros profundos e líquidos, que ofereceam capital acessível e com riscos controlados. A aplicação eficaz dos contratos diminui incertezas, e a redução das restrições à circulação de capital, aliado a garantias parciais de crédito, estimula o desenvolvimento do mercado.
Uma expansão dos mercados de títulos de dívida e ações contribui para mais liquidez e menores custos de operação, atraindo investidores institucionais principalmente em economias com sistemas financeiros menos desenvolvidos.
Casos de sucesso demonstram caminhos possíveis
O Banco Mundial lembra que a ampliação contínua de empregos aconteceu após reformas orientadas a impulsionar a produção e o investimento. Cinco países — Austrália (1994-2008), Chile (1979-1992), Colômbia (2002-2008), Coreia do Sul (1986-1997) e Singapura (2004-2014) — são destacados como exemplos.
Nesses períodos, o crescimento médio do emprego foi de 3,4% ao ano, o dobro dos anos anteriores, com destaque para maiores proporções de jovens na população ativa. O investimento aumentou quase quatro vezes em relação aos anos anteriores, a produção cresceu cerca de 50% mais e a produtividade dobrou durante o mesmo intervalo.
Esse conjunto reforça a importância da acumulação de capital, crescimento da produção e ganhos em eficiência que ocorrem simultaneamente em fases de crescimento sustentado e criação de empregos.



