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Endividamento, Dívidas e Bets: Angústia de Brasileiros Endividados

Endividamento, Dívidas e Bets: Angústia de Brasileiros Endividados

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Endividamento atinge recorde histórico e gera angústia entre brasileiros

Mais de 80% das famílias no Brasil encontram-se endividadas, com quase 82 milhões de pessoas inadimplentes, um marco inédito que preocupa o governo em um ano eleitoral.

Essa situação é exemplificada por uma mãe cearense que, em uma comunidade online de devotos da Santa Edwiges — padroeira dos aflitos e endividados —, fez uma oração pedindo ajuda para pagar suas compras no mercado no final de abril, ilustrando o drama de muitas famílias brasileiras.

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De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 80,4% das famílias estavam endividadas em março. Desse total, 29,6% apresentavam dívidas em atraso, e 12,3% não tinham condições de quitar esses débitos. O peso dessas dívidas compromete quase um terço da renda familiar (29,6%).

As dívidas são majoritariamente relacionadas a cartões de crédito (84,9%), crediários no varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%).

Uma pesquisa da Serasa indica que 81,7 milhões de brasileiros adultos (49,9% da população adulta) estavam inadimplentes em fevereiro, com uma dívida média de R$ 6.598,13 por pessoa.

Especialistas atribuem esse aumento do endividamento a três fatores principais: a ampliação do acesso ao crédito, impulsionada pelo crescimento do número de pessoas bancarizadas desde a pandemia; as altas taxas de juros; e a disseminação das plataformas de apostas virtuais, popularmente chamadas de “bets”.

Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o elevado nível de endividamento representa um desafio considerável neste ano eleitoral, pois ofusca os avanços em renda e emprego e contribui para uma percepção negativa da economia, apesar da inflação controlada e do crescimento do PIB.

Em resposta, o governo estuda lançar a segunda edição do programa de renegociação de dívidas, o Desenrola, que pode incluir a liberação de até R$ 7 bilhões retidos no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para pagamento de dívidas. Além disso, está sendo avaliada a implementação de mecanismos para frear o uso excessivo de apostas virtuais como causa do superendividamento.

O drama dos endividados: relatos e causas

“Recebo até 20 ligações de cobrança por dia”

Bárbara Helena da Silva, psicóloga autônoma de 31 anos residente em Florianópolis, relata o sufoco do excesso de cobranças, chegando a receber vinte chamadas diárias, inclusive para familiares, devido a suas dívidas. Ela estima acumular uma dívida que já ultrapassa R$ 20 mil, resultado do crédito rotativo nos cartões de crédito ao qual recorreu após perder clientes e renda.

Dados do Banco Central mostram que em fevereiro a taxa média de juros do rotativo do cartão de crédito atingiu 435,9% ao ano, embora regulamentos desde 2024 tenham limitado o crescimento da dívida a até o dobro do valor original.

Segundo pesquisa Datafolha, 27% dos entrevistados utilizam o crédito rotativo com regularidade; 67% admitem ter dívidas e 21% contam com parcelas em atraso.

Cultura do consumo parcelado

O geógrafo Kauê Lopes dos Santos, da Unicamp, analisa em seu livro “Parcelado” a crescente dependência do crédito parcelado na sociedade brasileira, sobretudo nas últimas três décadas. Ele destaca que o parcelamento está presente desde a compra de imóveis até mesmo alimentos em regiões periféricas.

Entrevistas realizadas em periferias paulistanas mostram que o endividamento é encarado com um misto de humor e preocupação, pois, embora seja comum, representa uma tensão para famílias de baixa renda, muitas vezes vulneráveis e trabalhadoras informais.

Santos aponta um fenômeno de “alienação do futuro”, onde famílias comprometem seus rendimentos no pagamento de parcelas a longo prazo, limitando suas perspectivas de crescimento ou melhora social, enquanto os juros bancários acumulam riqueza para as instituições financeiras.

A ascensão das apostas virtuais potencializa ainda mais esse endividamento, produzindo ainda mais procura por crédito emergencial, como cheque especial.

O impacto devastador do vício em apostas

Nicole, uma jovem baiana de 21 anos, compartilha o relato de como as apostas virtuais destruíram sua vida. Desempregada e com única renda do Bolsa Família, ela acumulou dívidas de mais de R$ 10 mil decorrentes de empréstimos bancários contraídos para financiar o vício nas apostas, que começou após clicar em um link compartilhado por uma influenciadora.

Ela revela que seu nome está negativado em cinco bancos e que seu casamento foi desfeito pelos danos financeiros e emocionais causados pelo vício. Sem fonte de renda e desempregada em sua região, não tem perspectiva de saldar as dívidas.

Nicole expressa pessimismo com os rumos do país e critica a falta de ação do governo diante do problema do crescimento das apostas virtuais, ressaltando que deveriam ser proibidas para evitar que mais pessoas sejam prejudicadas.

Uma pesquisa Quaest indica que 29% dos brasileiros costumam participar de apostas virtuais com frequência.

Falhas na concessão de crédito e resposta do sistema financeiro

Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, aponta a ausência de rigor na concessão de crédito pelos bancos, especialmente em linhas com juros elevados, como o rotativo do cartão de crédito, como fator agravante do endividamento.

Ele exemplifica com o caso de Nicole, que, mesmo dependendo apenas do Bolsa Família, conseguiu empréstimos em cinco instituições diferentes.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) contesta essa análise, afirmando que as instituições seguem critérios rigorosos estabelecidos pelo Banco Central para concessão responsável de crédito, explicando que o rotativo do cartão é uma linha emergencial de curto prazo, cujo custo reflete o alto risco da operação.

O crescimento da bancarização e a popularização do Pix desde a pandemia trouxeram benefícios para a economia e para quem anteriormente recorria a agiotas. Contudo, o acesso facilitado, combinado à baixa educação financeira e à alta Selic (atualmente 14,75% ao ano), torna a situação explosiva para famílias já fragilizadas.

Especialistas consideram que a nova edição do programa Desenrola deve apenas aliviar o problema temporariamente, sem atacar as causas estruturais do endividamento.

Um estudo da consultoria MB Associados confirma que a primeira etapa do Desenrola, concluída em 2024, reduziu significativamente a inadimplência entre famílias de baixa renda em 2 a 3,5 pontos percentuais, mas o efeito desapareceu dentro de 18 meses, com o endividamento retornando e até ultrapassando níveis anteriores.

Bentes destaca que para enfrentar o problema de forma permanente é necessário investimento em educação financeira, transparência nos custos do crédito, maior controle sobre concessões, estímulo à concorrência bancária e redução dos juros básicos, o que depende da estabilização das contas públicas para baixar a Selic.

Ele alerta que o próprio governo é afetado pelo mal-estar dos endividados, o que pode repercutir negativamente nas eleições.

Endividados e as eleições de 2026

Otávio, pequeno empresário do interior mineiro, ilustra a insatisfação dos endividados. Após perder sua poupança e vender o carro para quitar dívidas relacionadas ao vício em apostas, ele ainda acumula cerca de R$ 30 mil de débito.

Otávio critica a falta de ação do governo em relação às apostas, que estão autorizadas desde 2018 e regulamentadas em 2023 e 2024, e cogita votar em Flávio Bolsonaro (PL) nas próximas eleições.

Em contrapartida, Bárbara, a psicóloga endividada, mantém intenção de voto no atual presidente Lula, reconhecendo a complexidade do cenário econômico e político, e a dificuldade do governo em controlar fatores externos e internos.

Apesar de todas essas dificuldades, as três pessoas citadas desconhecem as propostas do governo para aliviar o endividamento, ressaltando o desafio de comunicação enfrentado pelas autoridades.

Fonte

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