Escassez de pedreiros na construção civil: entenda os motivos por trás do problema
Executivos do setor da construção civil frequentemente relatam a dificuldade crescente em encontrar profissionais como pedreiros e mestres de obra, apontando que menos pessoas desejam atuar nos canteiros de obras. Entre as explicações comuns estão programas sociais como o Bolsa Família, o trabalho por meio de aplicativos como Uber, e supostos comportamentos geracionais. Entretanto, as raízes dessa escassez vão além dessas causas aparentes, demandando uma análise mais profunda e soluções estruturais a longo prazo.
David Fratel, diretor do Sinduscon-SP, entidade que representa as construtoras no estado de São Paulo, destaca que a profissão atualmente não atrai os jovens como antes. Ele enfatiza que o setor precisa se transformar para ser mais acolhedor às novas gerações, ao invés de esperar que elas se adaptem a um modelo antigo.
Análise dos dados e causas estruturais
O pesquisador Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), investigou as causas frequentemente atribuídas à falta de mão de obra na construção civil, como o Bolsa Família, o surgimento da economia em plataformas digitais, a alta rotatividade de trabalhadores e fatores demográficos. Sua pesquisa concluiu que o problema não tem uma única origem, mas ocorre principalmente por razões estruturais profundas.
Para compreender as mudanças no mercado de trabalho, é preciso voltar à década de 1990, quando o Brasil vivenciou duas grandes transformações simultâneas: uma redução significativa da taxa de natalidade, que caiu de uma média de quase quatro filhos por mulher para menos de 1,6 hoje, e o avanço da escolaridade média da população.
Países desenvolvidos vivenciaram essas mudanças demográficas ao longo de várias décadas, acompanhadas por grandes investimentos em automação industrial e políticas de imigração que mantiveram a força de trabalho. No Brasil, entretanto, essas transformações ocorreram em meio a um cenário de crescimento econômico lento e baixo avanço tecnológico.
O quadro demográfico brasileiro hoje se assemelha ao de nações desenvolvidas, com uma diminuição no número absoluto de jovens em idade ativa, especialmente nas regiões Sudeste e Sul, que são as maiores empregadoras do setor da construção. Contudo, a estrutura produtiva brasileira ainda opera sob a premissa de mão de obra abundante e barata, o que está defasado frente à realidade atual.
Daniel Duque compara essa situação com o uso doméstico: enquanto a máquina de lavar louça já é comum no exterior há décadas, no Brasil prevaleceu o emprego intensivo de mão de obra, como as empregadas domésticas, devido ao baixo custo relativo do trabalho humano em comparação com a tecnologia. Nas obras, a realidade é similar: os Estados Unidos contam com menos trabalhadores e mais equipamentos por projeto, enquanto o Brasil ainda depende muito da força humana e possui baixa automação.
Além disso, a importação de tecnologia permanece cara no Brasil devido a elevada carga tributária sobre os bens de capital, e recentemente foram criados tributos adicionais que onerarão ainda mais certos equipamentos.
Quanto ao efeito do Bolsa Família, os dados indicam que o programa impactou a oferta de trabalhadores, mas principalmente em grupos específicos, como homens jovens das regiões Norte e Nordeste, e num período determinado entre 2020 e 2023, quando o programa expandiu significativamente durante a pandemia. Apesar disso, o Bolsa Família é apenas um fator secundário e não a principal causa da escassez observada na construção civil, que segundo empresários do setor, se agravou mesmo com a diminuição do número de famílias beneficiadas pelo programa.
David Fratel confirma que o Bolsa Família não pode ser responsabilizado pela falta de trabalhadores na construção: “Ninguém vive confortavelmente só com Bolsa Família. Os custos do aluguel, por exemplo, já são altos demais para esse benefício sustentar”.
Sobre a influência dos aplicativos de trabalho como Uber e iFood, a pesquisa de Duque apresenta dados surpreendentes: a chamada “gig economy” acaba por gerar um impacto positivo líquido na geração de empregos e renda. Atualmente, cerca de 1,7 milhão de brasileiros atuam via aplicativos, em sua maioria jovens homens em grandes cidades, o mesmo perfil demográfico da construção civil. No entanto, esses aplicativos funcionam mais como uma transição profissional do que sugam trabalhadores de outras áreas.
Para Antonio Ramalho, presidente do sindicato dos trabalhadores da construção civil em São Paulo (Sintracon-SP), o trabalhador costuma trocar o trabalho na obra, com remuneração média de R$ 3 mil e condicionantes difíceis como chuva, calor e insalubridade, por tarefas em apps que aparentemente pagam números maiores, como até R$ 8 mil. Porém, ele ressalta que essa soma não considera os custos com combustível, manutenção, e a ausência de direitos trabalhistas como FGTS e Previdência.
Outro aspecto menos discutido é a alta rotatividade de trabalhadores. Duque aponta que após a pandemia a taxa de troca de emprego subiu muito, gerando custos extras para empregadores com contratação, treinamento e adaptação. Parte do que é identificado como falta de mão de obra, portanto, resulta também do aumento na movimentação da força de trabalho, fenômeno que se torna mais evidente com a queda do desemprego.
O preconceito histórico contra o trabalho manual no Brasil
Um fator cultural que contribui para o desinteresse no trabalho braçal está associado a uma herança profunda e antiga no país. Já em 1824, a viajante inglesa Maria Graham destacou no seu diário de viagem pelo Brasil que, na época, grande parte do trabalho era realizada por escravos, e o trabalho manual feito por homens livres era considerado vergonhoso. A sociedade acontecia sob o pilar do esforço escravo, sendo este o sistema vigente.
Estes aspectos históricos ainda reverberam atualmente. O pesquisador Daniel Duque explica que o racismo estrutural brasileiro faz com que o ofício de pedreiro tenha um baixo prestígio social, por ser associado a grupos discriminados no passado e por seu pagamento precário, o que alimenta um ciclo de baixa valorização.
Modernização da construção civil como caminho para a recuperação
Para reverter esse quadro, David Fratel lidera uma agenda que envolve o sindicato dos trabalhadores e o Senai, focada na modernização do setor. Isso inclui mudança de nomenclaturas para aumentar o apelo da profissão, como trocar o termo “pedreiro” por “montador de drywall”; estabelecer trajetórias profissionais certificadas; e introduzir métodos construtivos industrializados.
Um exemplo prático é o uso de painéis pré-moldados que permitem erguer dez metros quadrados de parede em apenas dez minutos, em comparação a um dia inteiro utilizando técnicas tradicionais. Apesar das tecnologias disponíveis, 70% das obras ainda recorrem a métodos convencionais, ocasionando desperdícios estimados em 30% dos materiais.
Um desafio significativo do setor é a ausência de métricas rigorosas para medir produtividade. Fratel admite: “Não sabemos quantos operários por hora são realmente necessários para executar uma obra de determinada dimensão em um prazo predeterminado”.
Grande parte das construtoras terceiriza os serviços sem acompanhamento detalhado dos processos, focando apenas em prazos e orçamentos. Diferente da indústria automotiva, que calcula minuciosamente o número de horas necessárias por veículo, a construção civil conta com aproximadamente 8 milhões de trabalhadores, mas sem controle adequado sobre a produtividade.
Essa falta de informação mostra que o setor não dispõe de soluções rápidas para tornar a profissão mais atraente. De acordo com a visão dos empregadores, somente após avanços em qualificação, industrialização e eficiência produtiva será possível discutir reajustes salariais e uma potencial redução da jornada de trabalho.
Já o sindicato dos trabalhadores defende que sem um aumento salarial imediato, será muito difícil atrair e reter mão de obra qualificada.
David Fratel enfatiza que a transformação da profissão e sua modernização devem ocorrer simultaneamente, pois uma impulsiona a outra. “O problema não é a falta de vontade de ser pedreiro, mas sim a recusa em trabalhar com métodos ultrapassados.”
O grande desafio brasileiro está em transformar a construção civil em uma indústria moderna o suficiente para que jovens – sejam filhos de pedreiros ou não – enxerguem nela uma carreira desejável e digna.



