Estratégias Inovadoras Para Retardar Progressão Da Miopia

Estratégias Inovadoras Para Retardar Progressão Da Miopia

Novas abordagens para retardar a progressão da miopia em crianças e jovens

Fatores como alimentação, qualidade do sono e prática de atividade física podem influenciar positivamente ou negativamente o desenvolvimento da miopia.

Estima-se que até o ano de 2050 metade da população mundial será afetada pela miopia, sendo que quase um bilhão sofrerá de casos graves da doença. Para aprofundar a compreensão dessa preocupante tendência, o professor Langis Michaud, da Escola de Optometria da Universidade de Montreal (UdeM), realiza anualmente uma extensa revisão de mais de 2 mil artigos científicos que tratam sobre os avanços no conhecimento e tratamento da miopia, especialmente em crianças e adolescentes.

Segundo Michaud, nos últimos dois anos surgiram várias publicações relacionando nutrição e microbioma intestinal à miopia. Embora à primeira vista esses temas pareçam desconectados da questão visual, pesquisas demonstram ligação entre miopia grave e processos inflamatórios, cuja origem pode estar no intestino. O controle da inflamação intestinal pode, futuramente, ser uma estratégia para retardar o crescimento da miopia.

A gravidade da miopia e suas complicações

A miopia, por muito tempo vista como um simples erro refrativo passível de correção com óculos, é atualmente reconhecida como um problema mais sério. Desde 1995, com as advertências da Organização Mundial da Saúde (OMS), crescem as evidências sobre os riscos da miopia progressiva. O alongamento contínuo do globo ocular torna-o frágil, aumentando o risco de sérias complicações.

Michaud compara o alongamento do olho à situação de uma camisa que rasga se a pessoa engorda muito: “Quando o olho se estica demais, a retina pode romper, rasgar ou até se descolar.” Entre as complicações graves estão descolamento da retina, glaucoma, catarata precoce e hemorragia retiniana, que pode levar à cegueira. Hoje a OMS classifica a miopia como uma causa evitável de cegueira, e a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos a considera uma doença. Por isso, além de corrigir a visão, profissionais da área devem trabalhar para educar, prevenir e controlar a progressão da miopia.

Influência do ambiente: exercícios, sono e alimentação

A genética explica cerca de 30% do risco de desenvolver miopia, mas fatores ambientais têm papel fundamental. Pequenas mudanças no estilo de vida podem impactar significativamente a saúde ocular. Estudos evidenciam que ficar pelo menos duas horas diárias ao ar livre exerce efeito protetor contra a miopia em crianças devido à exposição à luz natural, que estimula a dopamina na retina – uma substância que impede o alongamento do olho – e ainda proporciona um ambiente visual mais rico. Adiar o início da miopia em alguns meses diminui consideravelmente o risco de miopia severa na vida adulta.

Controle do tempo de tela

Michaud orienta que os pais evitem o uso de tablets como recurso para acalmar bebês, recomendando que crianças menores de dois anos não tenham contato com telas. O dano maior não é necessariamente pela tela em si, mas pela curta distância do olhar em relação à tela.

Para crianças entre 2 e 10 anos, o tempo recreativo frente às telas deve ser restrito a cerca de uma hora por dia, sem contar o tempo dedicado às tarefas escolares. O ideal é que, a cada 30 minutos, as crianças façam pausas de 2 a 3 minutos e mantenham uma distância mínima de 35 a 40 centímetros da tela. O uso de celulares é especialmente preocupante, pois geralmente são usados muito perto dos olhos.

Estilo de vida saudável para controlar a miopia

Além disso, adotar um estilo de vida saudável, com prática regular de exercícios, sono de qualidade e dieta com baixo teor de açúcar e sal, auxilia na diminuição da inflamação e da resistência à insulina, fatores envolvidos na progressão acelerada da miopia. O combate à obesidade infantil, que contribui para a evolução da doença, também é fundamental.

Tratamentos modernos e embaçamento controlado

O entendimento atual é que o crescimento do olho está mais influenciado pela retina periférica do que pela visão central. Por isso, novos tratamentos buscam corrigir a visão central e, ao mesmo tempo, criar um embaçamento terapêutico na periferia do campo visual para prevenir alongamento ocular.

Lentes convencionais com visão simples não são recomendadas porque enviam sinais à retina que promovem o alongamento do olho, agravando a miopia.

Vários métodos estão disponíveis para desacelerar a evolução da miopia. A ortoceratologia, por exemplo, utiliza lentes de contato noturnas que remodelam temporariamente a córnea, induzindo um efeito de desfocagem periférica benéfico. Os modelos mais recentes possuem área central menor para aumentar esse efeito e melhorar o controle do crescimento ocular. Quando mantidos os cuidados de higiene, a ortoceratologia é considerada eficaz e segura.

Lentes multifocais gelatinosas são projetadas para oferecer maior potência na periferia, criando um embaçamento que restringe o alongamento do olho. Além disso, lentes especiais com desfocagem periférica também induzem esse efeito. O único tratamento farmacológico com eficácia comprovada para controlar a miopia é a aplicação de baixas doses de atropina, sendo a concentração de 0,05% a mais indicada, pois equilibra eficácia e efeitos colaterais mínimos. Doses menores podem estabilizar o erro refrativo, mas não controlam o alongamento axial do olho.

Ajustando o tratamento para cada criança

Embora vários tratamentos sejam eficazes, nenhum deles atende igualmente a todos os casos. A escolha deve considerar fatores como idade, velocidade de progressão, comprimento axial do globo ocular, etnia, preferências pessoais, adaptação a lentes de contato e condições financeiras.

Michaud exemplifica: “Para uma menina asiática de sete anos com miopia severa e olhos já muito alongados, não é possível esperar; a abordagem deve ser agressiva, às vezes combinando métodos. Já uma criança caucasiana com miopia leve pode responder bem a óculos especiais.”

O especialista ressalta a importância do comprometimento com o tratamento: “Se os óculos ou lentes não forem usados regularmente, não surtirão efeito. Pergunto sempre aos pacientes se estão dispostos a seguir o tratamento diariamente, pois é essencial para o sucesso.”

Riscos de tecnologias inadequadas: lasers vermelhos

Existem ainda métodos que despertam preocupações, como o uso de lasers vermelhos para retardar a miopia. Apesar dos resultados iniciais positivos em testes com galinhas, relatos de lesões na retina humana surgiram na China.

Estudos bioquímicos indicaram que a exposição intensa a esses lasers destrói temporariamente cerca de 20% das células fotorreceptoras, causando danos graves. Por este motivo, a China passou a classificar os lasers vermelhos como dispositivos médicos de alto risco, e o Canadá proibiu sua utilização.

Impacto socioeconômico e avanços na pesquisa

A miopia representa um grande desafio para a saúde pública, gerando elevados custos econômicos devido à perda de produtividade e despesas médicas. As perdas globais são estimadas em até 240 bilhões de dólares anualmente.

Na Escola de Optometria da UdeM, a miopia é uma das principais linhas de pesquisa clínica. “Disponibilizamos tratamentos muito eficazes em nossa clínica. Estudos retrospectivos feitos durante dois anos indicam que a progressão da miopia em nossos pacientes jovens está abaixo da taxa média de crescimento ocular. Esses resultados são animadores, pois desacelerar a evolução da miopia reduz os riscos de complicações futuras. Embora não curemos a miopia, conseguimos quase interromper sua progressão,” afirma Michaud.

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