Fundador da Cardano prevê nova onda de falências no setor de criptomoedas
Charles Hoskinson, criador da rede Cardano, expressou preocupação com o futuro do mercado cripto, projetando uma série de falências, encerramentos de projetos e evasão de desenvolvedores conforme o capital se concentra em um conjunto restrito de ativos digitais. Em vídeo divulgado recentemente, Hoskinson afirmou: “Suspeito que haverá uma onda de falências” e indicou que o ano será extremamente desafiador para o setor.
A insatisfação do fundador da Cardano reflete uma situação complexa que vai além da recente queda do Bitcoin. A principal criptomoeda do mundo sofreu uma desvalorização de mais de 6%, chegando a ficar abaixo dos US$ 60.000 em um momento na sexta-feira (5), acumulando perdas próximas a 17% no mês e atingindo níveis não vistos desde 2024.
Diversos fatores explicam essa queda: a venda de parte dos Bitcoins da Strategy de Michael Saylor, a contínua saída de capital dos fundos negociados em bolsa dedicados à criptomoeda, e o temor de que o Federal Reserve dos EUA eleve as taxas de juros, refletindo em queda generalizada nos ativos de risco. Nas 24 horas até o meio-dia de sexta-feira, foram liquidados mais de US$ 1,7 bilhão em ativos digitais, conforme dados da CoinGlass.
Michael Antonelli, estrategista de mercado da Robert W Baird, comentou que o Bitcoin perdeu o charme da novidade, passando a ser considerado apenas mais uma categoria de investimento em um vasto leque de opções para alocação de capital.
Enquanto o Bitcoin enfrenta pressão, o restante do mercado cripto sofre ainda mais profundamente. Centenas de projetos promissores deixaram de existir e bilhões de dólares desapareceram nos últimos meses. Thomas Probst, analista da Kaiko, observa que as altcoins sentiram um impacto maior recentemente, embora esta queda não tenha sido universal entre todos os tokens.
Um exemplo notório é o token Zcash, que recuou mais de 50% desde 3 de junho, após surgirem relatos sobre uma possível falha de segurança.
O crescimento explosivo do mercado cripto foi em parte impulsionado pela facilidade de criação de tokens; anteriormente, o lançamento de um blockchain completo era necessário, mas hoje, contar com contratos padronizados diminuiu drasticamente essa barreira. Essa facilidade resultou na criação de dezenas de milhões de tokens nos últimos anos. Contudo, de acordo com um relatório da Delphi Digital, menos de 1.700 desses ativos ainda mantêm volume diário significativo em bolsas descentralizadas.
A maioria dos tokens vinculados a projetos sofreu quedas expressivas, algumas superiores a 90% em relação ao preço inicial, com a média de retorno negativa atingindo 80%, segundo levantamento da empresa.
Outro ponto importante é que a recente desvalorização do Bitcoin é considerada por muitos como um fenômeno cíclico, relacionado à alteração no apetite dos investidores por riscos. Já as altcoins enfrentam uma crise mais profunda. Mesmo quando o Bitcoin atingia recordes, pelas pressões do final do ano passado, muitos tokens alternativos já lutavam para manter atração de capital, usuários e liquidez.
A sequência de perdas do Bitcoin continuou na sexta-feira (6), alcançando sete sessões consecutivas de queda, o que representa a maior série negativa desde 2023, conforme dados da Bloomberg.
Há uma concentração crescente dos investimentos em um número reduzido de ativos e companhias capazes de demonstrar aplicabilidade real, deixando o amplo universo de tokens em expansão lutando por justificar seu lugar no mercado.
Embora fosse esperado que a tecnologia blockchain sustentasse milhares de economias digitais florescentes, o crescimento do setor mostrou-se, em grande parte, efêmero. Milhões de tokens emergiram, seus preços subiram momentaneamente e depois perderam o interesse do mercado.
Cosmo Jiang, gestor de portfólio da Pantera Capital, ressaltou que o vasto universo de tokens, à exceção do Ether e do Bitcoin, atingiu seu ápice em 2021. Ele ressaltou que muitos tokens acumularam perdas de 80% a 90%, destacando que alguns, apesar de ainda possuírem capitalizações bilionárias, não apresentam fundamentos sólidos para justificar sua existência.
Redução no número de usuários e atividade
Esse abalo no mercado, típico durante declínios nas criptomoedas, está pressionando projetos estabelecidos, que observam diminuição nas bases de usuários e na atividade, levantando dúvidas sobre sua capacidade de se manterem relevantes se a saída de capital persistir.
Na Cardano, por exemplo, o número de desenvolvedores ativos em tempo integral caiu 32% desde o início do ano, conforme o Developer Report da Electric Capital. Além disso, os fundos bloqueados em aplicativos descentralizados caíram 35%, segundo dados da DeFi Llama. O token ADA da Cardano recuou aproximadamente 55% em 2026, atingindo cerca de 16 centavos de dólar.
Curiosamente, alguns dos avanços mais concretos da cripto coincidiram com um dos períodos mais difíceis para a especulação envolvendo tokens.
Stablecoins estão cada vez mais sendo usadas para pagamentos; a stablecoin Tether está prestes a ultrapassar o Ether em valor de mercado, tornando-se o segundo maior token.
Além disso, Wall Street está experimentando com ativos tokenizados e instituições financeiras investem na construção de infraestrutura blockchain. Mesmo assim, muitos tokens que nasceram para capitalizar esse futuro estão desmoronando.
Diferente de ciclos anteriores, quando o entusiasmo pelo blockchain impulsionava todo o mercado, desta vez o interesse está mais restrito e concentrado.
O capital migra para um pequeno conjunto de ativos e empresas realmente úteis, como o token HYPE da Hyperliquid, vinculado a uma das exchanges de derivativos que mais crescem, enquanto boa parte do universo tokenizado é deixada para trás.
Cosmo Jiang define essa mudança como uma “racionalização saudável” do mercado cripto. Ele destaca que a escassez de capital está levando investidores a focarem no valor intrínseco dos projetos, e que muitos tokens, que persistiram por muito tempo, agora enfrentam o ceticismo dos financiadores, que estão cansados de “bobagens”.



