Guerra no Irã pode levar economias do Golfo à pior crise desde 1990
Especialistas apontam que, caso o conflito se estenda, os países da região podem enfrentar uma queda de até 14% em seu Produto Interno Bruto (PIB) neste ano.
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A guerra envolvendo o Irã tem o potencial de causar impactos severos nas principais economias do Golfo, incluindo Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, especialmente se o conflito continuar por mais tempo.
Conforme destaca Farouk Soussa, economista do Goldman Sachs, em entrevista à Bloomberg, Catar e Kuwait podem sofrer um encolhimento de até 14% no PIB em 2026 caso a guerra se prolongue até abril, acompanhada de uma paralisação de dois meses no Estreito de Ormuz.
Estreito de Ormuz é epicentro da crise
O Estreito de Ormuz é uma passagem crucial para as exportações mundiais de petróleo, responsável pelo trânsito de cerca de 20% do petróleo global. No segundo dia da guerra, o Irã bloqueou essa rota e ameaçou atacar qualquer embarcação que tentasse atravessá-la.
Com o conflito avançando para a terceira semana e sem sinais de cessar-fogo, o Irã vem realizando ataques contra países vizinhos em retaliação aos ataques dos Estados Unidos e Israel. Recentemente, os EUA bombardearam instalações militares na ilha de Kharg, importante polo exportador de petróleo iraniano, concorrendo a novos ataques caso Teerã continue a obstruir o tráfego no estreito.
Pressões no mercado de petróleo e gás
As tensões já provocaram repercussões no setor energético. O petróleo do tipo Brent passou a custar mais de US$ 103 por barril na última sexta-feira, impulsionado pelo bloqueio no Estreito de Ormuz e pela redução da produção em países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Além disso, o mercado de gás natural enfrentou impacto devido à queda nas exportações de gás natural liquefeito (GNL) do Catar. No Bahrein, a maior fundição mundial de alumínio começou a diminuir a produção, afetada pela interrupção das rotas marítimas da região.
Segundo Soussa, se a crise persistir, Catar, Kuwait e Bahrein — cujas economias dependem fortemente das exportações de energia — serão os mais prejudicados.
Resiliência da Arábia Saudita e dos Emirados
Economistas apontam que Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos deverão sentir os impactos de forma menos intensa, pois conseguem direcionar parte de suas exportações por rotas alternativas.
Mesmo assim, prevê-se uma retração econômica significativa, com queda estimada de 3% no PIB saudita e cerca de 5% nos Emirados, o que representaria o maior abalo econômico dessas nações desde a pandemia do coronavírus em 2020.
Soussa ressalta: “Para diversas economias da região, o impacto deste conflito poderá ser mais severo no curto prazo que a Covid-19. Embora haja perspectiva de recuperação futura, as cicatrizes na confiança econômica ainda se farão sentir.”
Consequências além do setor petrolífero
Os efeitos do embate também deverão afetar outros segmentos, como turismo, investimentos e mercado imobiliário, que tendem a sofrer diante da elevada incerteza regional.
Especialistas consultados pela Bloomberg indicam que a Arábia Saudita pode estar relativamente mais protegida em um cenário de prolongamento da guerra, visto que o país consegue limitar a maioria dos ataques iranianos e manter seu espaço aéreo e o comércio funcionando. Entretanto, o principal risco imediato é o aumento do déficit fiscal no primeiro trimestre devido à diminuição da arrecadação.
Repercussão nas contas públicas
Apesar dos impactos da guerra, alguns economistas avaliam que a Arábia Saudita pode apresentar resultados fiscais positivos em 2026, caso os preços do petróleo e também o volume das exportações mantenham-se em patamares elevados.
Tim Callen, pesquisador do Instituto dos Estados Árabes do Golfo, indica que o déficit fiscal anual saudita pode recuar cerca de 1% se a produção se mantiver próxima de 7,5 milhões de barris por dia e o preço do barril Brent oscilar perto de US$ 90.
Atualmente, o governo saudita estima um déficit equivalente a 3,3% do PIB para este ano.
Nos Emirados Árabes Unidos, espera-se manutenção do superávit fiscal em 2026, ao passo que o Catar pode enfrentar aumento no déficit, segundo projeções de economistas.
Acesso aos mercados de dívida permanece estável
Mesmo com a escalada do conflito, investidores ainda não apresentaram grandes preocupações com as finanças das economias do Golfo.
De acordo com Fady Gendy, gestor na Arqaam Capital, esses países continuam conseguindo acessar mercados de dívida para aliviar as pressões fiscais. Ele alerta que um prolongamento do conflito por longo período poderia causar problemas, porém esse cenário ainda não está refletido nas avaliações atuais do mercado.



