Guerra No Oriente Médio Pode Encarecer Preço Dos Alimentos

Guerra No Oriente Médio Pode Encarecer Preço Dos Alimentos

Conflito no Oriente Médio pode elevar preços dos alimentos no Brasil; entenda

O embate no Oriente Médio tende a pressionar os custos dos alimentos no Brasil, influenciado pelo aumento nos preços dos fertilizantes, no frete marítimo e no valor do diesel, conforme avaliação de economistas.

Enquanto o produtor rural já sente o impacto imediato no custo dos fertilizantes, devido à dependência de importações, o efeito para o consumidor deve se manifestar somente daqui a alguns meses, uma vez que os insumos adquiridos para a safra atual foram comprados antes do conflito.

O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã — uma das principais rotas comerciais globais — obriga navios a mudarem seus trajetos, encarecendo transporte e seguro de cargas. Além disso, a alta no preço do diesel, decorrente da importância da região para a oferta mundial de petróleo, pode elevar os custos operacionais das máquinas agrícolas e do transporte dos alimentos.

Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, destaca que o conflito ocorre em um momento delicado, em que os produtores já enfrentam juros elevados e dificuldades para obter crédito. Ele ressalta que o impacto direto na produção é imediato, mas o efeito sobre os preços ao consumidor será notado com alguma defasagem, dependendo da duração dos conflitos.

Por sua vez, Felippe Serigati, analista da FGV Agro, considera prematuro mensurar a extensão dos efeitos. Ele lembra que fatores como a recente queda do dólar e condições climáticas favoráveis podem ajudar a amenizar o impacto nas cotações dos alimentos.

O papel do Oriente Médio nos fertilizantes

Em 2025, o Oriente Médio foi a quarta maior fonte de fertilizantes químicos para o Brasil, ficando atrás da Europa, Ásia e África, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Apesar das principais origens estarem em outros continentes, países da região como Arábia Saudita, Israel, Omã, Catar e Irã desempenham papel fundamental no mercado mundial.

Segundo o analista Tomás Rigoletto Pernías, da StoneX Brasil, a região é responsável por aproximadamente 40% das exportações globais de ureia e 28% da amônia. Portanto, qualquer instabilidade no Oriente Médio afeta diretamente os preços internacionais desses insumos.

Após o início do conflito, os valores dos fertilizantes tiveram alta rápida e significativa, entre 10% e 12%, registrando aumentos já no primeiro dia no mercado brasileiro e regional. O contrato futuro da ureia no Brasil, por exemplo, subiu US$ 39 em apenas um dia.

Antes mesmo da guerra, Pernías ressalta que os preços já estavam pressionados devido às preparações para o plantio de grãos nos EUA e na China e à forte demanda indiana. Além disso, o Irã enfrentava paralisações em fábricas por falta de gás natural, essencial à produção.

Com o conflito, fornecedores da região têm suspenso vendas para reavaliar os preços, enquanto produtores locais diminuem a produção por receio das consequências do transporte e demanda.

Quando o Brasil sentirá os efeitos na safra

O aumento no custo dos fertilizantes deverá afetar principalmente as safras plantadas a partir do segundo semestre, conforme explica Paulo Pavinato, professor da ESALQ/USP. Isso porque as compras para a safra atual já foram realizadas anteriormente.

Nos EUA, pela diferença no calendário agrícola, os agricultores poderão sentir os efeitos de forma mais imediata, já que ainda estão adquirindo fertilizantes.

De acordo com Pernías, no Brasil o uso dos adubos fosfatados e potássicos para a soja ocorre entre maio e julho, enquanto a demanda por fertilizantes nitrogenados como ureia ocorre entre novembro e janeiro, preparando os estoques para o cultivo do milho.

Apesar da dependência brasileira do Oriente Médio, outras fontes como o Canadá podem substituir parte das importações. Contudo, mesmo redirecionando as compras, o especialista Felippe Serigati acredita que os preços devem permanecer elevados.

Leandro Gilio alerta que esse crescimento dos custos representa um desafio atual para produtores, que já enfrentam um cenário complexo para o setor agrícola.

Impactos nas rotas de comércio e transporte

O Irã controla o Estreito de Ormuz, uma passagem crítica que conecta importantes produtores de petróleo do Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico. O fechamento desta rota provoca aumento nos custos de frete, seguro de transporte, movimentação de contêineres e diesel.

Embora as exportações brasileiras não estejam totalmente suspensas, o desvio das rotas implica em custos maiores. Gilio destaca que os custos adicionais são sentidas em todos os mercados, pois o comércio global está interligado e a oferta é afetada por qualquer interrupção regional.

Diesel e custos operacionais mais elevados

Com o aumento do preço do diesel, o custo para operar máquinas agrícolas e transportar produtos pelo país também cresce, impactando o custo total de produção. A colheita de soja, que ocorre desde janeiro, e o transporte para os portos podem já estar sofrendo estes efeitos.

Entretanto, Serigati pontua que o momento atual é diferente da crise gerada pela guerra entre Ucrânia e Rússia, quando o mercado enfrentava escassez de petróleo. Hoje, há um excedente de oferta que pode amenizar os efeitos dessa turbulência.

Repercussões nas exportações brasileiras

Além do aumento dos custos internos, o Brasil já enfrenta consequências nas exportações para o Oriente Médio, especialmente em carnes e açúcar, conforme avaliação de Leandro Gilio.

Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), contêineres de frango permanecem retidos em rotas marítimas, principalmente para os Emirados Árabes e Arábia Saudita, devido à necessidade de redirecionamentos causados pelo conflito.

Novas rotas são mais longas e dispendiosas, aliado a taxas extras cobradas pelas empresas de navegação para cobrir seguros e custos adicionais de armazenagem e refrigeração, já que os produtos precisam ser mantidos em baixas temperaturas.

Além disso, o setor observa suspensão temporária da reserva de navios, complicando ainda mais a logística.

O Irã, um dos principais compradores do agronegócio brasileiro em 2025, é o maior importador de milho. Contudo, os embarques para o país ocorrem a partir de junho, o que pode minimizar impactos imediatos.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) demonstrou preocupação com a possibilidade de o conflito se estender, uma vez que cerca de 10% das exportações da carne brasileira são destinadas ao Oriente Médio, além de haver grande volume de produtos brasileiros que atravessam a região a caminho dos mercados da Ásia.

Roberto Perosa, presidente da Abiec, afirmou que muitas empresas não têm controle sobre essa situação, que está fora de seu alcance.

Fonte

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