Nunca foi de graça
Elevadas taxas de juros evidenciam fragilidades e impõem a necessidade de ajustes. Margens ocultas mostram-se insuficientes, exigindo uma revisão dos modelos de negócio. Ao final, o investidor acaba compreendendo melhor como essa engrenagem funciona.
Por José Brazuna — São Paulo
09/03/2026 06h40 Atualizado agora
Embora seja administrador de empresas e não economista, alguns conceitos básicos adquiridos na faculdade são universais e ajudam a entender o cenário atual do mercado financeiro.
O aumento dos juros vem com um propósito claro: desacelerar a economia e controlar a inflação. Quando o crédito fica mais caro, o consumo diminui, o endividamento para empresas se torna mais difícil e projetos menos atrativos. No mercado financeiro, isso se traduz na redução do valor presente dos fluxos futuros. Empresas passam a ter menor valor quando descontadas à taxa mais elevada. Isso é uma consequência matemática, não uma opinião.
No âmbito fiscal, quando o governo amplia seus gastos e aumenta a dívida pública, ele desloca recursos do setor privado para os títulos públicos. Isso acontece porque eles apresentam um risco menor e oferecem retorno elevado. Assim, o Estado compete por capital, encarecendo o crédito privado e pressionando a atividade econômica.
Esses movimentos não acontecem isoladamente nem afetam todos os investimentos simultaneamente, mas geram mudanças significativas na composição das carteiras. É nesse momento que a lógica econômica começa a influenciar com força o modelo de negócio da indústria de investimentos financeiros, especialmente quando o período de juros altos se prolonga. Isso gera um “inverno” para os produtos mais rentáveis voltados ao mercado.
Bancos, corretoras e gestores de investimentos oferecem uma “prateleira” de produtos com margens diversas. Em contextos de juros elevados, a preferência natural se volta para produtos mais conservadores, como títulos públicos e CDBs de primeira linha. O dinheiro acaba ficando mais estagnado, circulando menos, porém esses produtos resultam em margens menores para quem os estrutura e distribui.
Por outro lado, ofertas mais sofisticadas — como renda variável, fundos multimercados, fundos imobiliários e crédito estruturado — garantem margens maiores. Portanto, no momento em que o investidor tende a ser mais conservador, a indústria enfrenta simultaneamente a redução da captação nos produtos de maior margem e a diminuição de receita. Essa tendência tem ocorrido de forma consistente nos últimos quatro anos, com mais altas do que quedas nos juros.
Como em qualquer setor, ajustes de despesas são realizados, mas também há inventividade: durante ciclos longos de juros altos, surgem estruturas para preservar a rentabilidade dos canais de distribuição. Entre elas, crédito privado de prazos mais longos e complexos, títulos de bancos de menor qualidade amparados pelo FGC, fundos com estratégia “high yield”, COEs e outras variações que aparentam segurança para o investidor, mas buscam ainda oferecer margens atrativas para bancos, corretoras e gestores. Têm aspecto de “renda fixa”, mas na prática não são.
O problema é que juros elevados por tempo prolongado têm efeitos inevitáveis: a volatilidade aumenta, as companhias enfrentam dificuldades e a inadimplência cresce. Com isso, toda a estrutura acaba sendo comprometida, e esse impacto se torna perceptível mais cedo ou mais tarde. O investidor percebe que seu portfólio não rendeu conforme o esperado e começa a questionar os incentivos por trás das sugestões de investimento.
Nos últimos dez anos, plataformas de investimentos cresceram aproveitando uma alocação historicamente ineficiente dos grandes bancos e promoveram importante diversificação das carteiras dos brasileiros. O discurso de “custo zero” foi crucial para esse avanço. Contudo, nunca foi de fato gratuito — a remuneração sempre estava embutida nas margens dos produtos oferecidos.
É justo reconhecer que essas plataformas trouxeram competição e maior eficiência ao mercado financeiro, desempenhando papel fundamental na transformação do setor.
Enquanto o crescimento do mercado e a maior alocação em ativos de risco sustentaram receitas relevantes, o modelo se estabeleceu sem grandes questionamentos. O modelo se tornou volumoso: as duas maiores corretoras independentes respondem juntas por uma custódia superior a R$ 3 trilhões. Isso demonstra que havia espaço para concorrência frente aos bancos tradicionais, com ofertas mais sofisticadas.
Mas a questão sempre foi: o que ocorreria em um cenário de juros elevados por um período prolongado? Hoje observamos a resposta.
Apesar da resiliência e criatividade das plataformas, os fundos tendem a se concentrar em produtos mais conservadores, que oferecem margens menores, e a indústria vivencia um processo de reprecificação. Alguns consultores migraram para modelos com cobrança de taxa fixa, pressionados por clientes mais conscientes dos custos. Todos ajustaram suas estruturas de gastos. Os assessores possuem maior flexibilidade para esses ajustes, enquanto plataformas enfrentam estruturas operacionais mais rígidas e custos menos maleáveis. Portanto, reduzir custo não é suficiente para um grande banco ou corretora.
Dentro desse cenário, ganhou relevância a recente notícia sobre a maior corretora independente do país, que pretende, num futuro próximo, passar a cobrar diretamente assessores cujas carteiras não estejam alinhadas a determinados parâmetros de alocação. O debate entre a legitimidade da cobrança e a crítica de “captura de renda” rapidamente polarizou opiniões.
Porém, o ponto fundamental não é “se pode cobrar ou não”. Estruturas financeiras envolvem custos — bolsas, custódia, depositárias e provedores tecnológicos cobram por seus serviços. O sistema funciona sustentado por várias camadas remuneradas.
A pergunta relevante é: por que isso acontece agora?
Um longo período com juros elevados reduz signifcativamente as margens e torna explícito o que antes estava diluído. Se o investidor final paga menos, por girar menos a carteira ou migrar para produtos menos rentáveis, alguém na cadeia terá de absorver esses custos. Na situação atual, parte do custo será transferida ao assessor, a menos que ele obtenha formas de preservar as margens para a corretora, ajustando o portfólio do cliente para o perfil necessário antes do prazo que marca o início da cobrança em 2027, equilibrando assim a rentabilidade.
Essa mudança indica uma inflexão no setor. A cobrança clara substitui, ainda que parcialmente, a remuneração implícita. Pode provocar desconforto, mas também proporciona maior clareza sobre quem efetivamente paga por quais serviços.
As plataformas não atuam como agentes neutros: elas possuem a concentração de dados, controlam processos operacionais e podem influenciar recomendações. Isso faz com que a transparência, a previsibilidade e o alinhamento dos incentivos sejam ainda mais necessários.
Taxas sempre fizeram parte do jogo financeiro, mas incentivos desalinhados não deveriam existir. É fundamental um mercado claro e transparente.
Juros altos expõem fragilidades e demandam ajustes. Margens escondidas deixam de ser suficientes. Modelos precisam ser atualizados. E o investidor, no final, entende melhor a mecânica do mercado.
A economia básica raramente falha. Pode demorar, contudo as leis inevitavelmente se manifestam. Os efeitos colaterais aparecem.
Taxas fazem parte do jogo. Incentivos desalinhados, não deveriam fazer. Veremos para onde este novo modelo seguirá.
José Brazuna é sócio da Iaas!
Contato: jbrazuna@iaasbr.com



