Por que a inflação disparou e não deve recuar tão cedo
O brasileiro já sente na pele: o supermercado com os preços sempre subindo, o cartão de crédito cada vez mais caro e a passagem aérea custando duas vezes mais do que no ano anterior. Esses exemplos refletem o mesmo problema: a inflação voltou a ser uma preocupação constante.
Essa percepção também está nas projeções do mercado financeiro. Em menos de um mês, a expectativa para o IPCA, o índice oficial que mede a inflação ao consumidor no Brasil, subiu de 4,1% para 4,71%, de acordo com o boletim Focus do Banco Central.
A origem desse aumento está no impacto da guerra. O conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã desestabilizou o mercado global de petróleo e desencadeou uma reação em cadeia no país: do preço do barril até os derivados, passando pelo custo do frete e chegando aos preços de praticamente todos os produtos.
O que faz com que esse cenário se torne mais prolongado é uma característica histórica da economia brasileira.
“Preço no Brasil sobe de elevador e desce de escada”, explica Fábio Romão, sócio da consultoria Logos Economia e especialista no tema. Mesmo que o conflito seja resolvido — como o indicativo recente da liberação do Estreito de Ormuz — e o preço do petróleo diminua consideravelmente, boa parte das altas já incorporadas à economia não será revertida na mesma proporção.
A guerra foi o estopim para os reajustes, mas a estrutura interna do país dificulta uma correção ampla para baixo.
De acordo com Romão, os formadores de preço — donos de restaurantes, transportadores, supermercadistas — muitas vezes já estavam absorvendo custos maiores, aguardando um gatilho para repassá-los. Quando esse gatilho surge, eles não só incluem o aumento recente, mas também tentam compensar custos absorvidos nos meses anteriores.
Por outro lado, quando a pressão diminui, a redução dos preços é mais lenta, parcial ou até mesmo inexistente. Romão atribui isso à memória inflacionária de um país que conviveu com hiperinflação até meados da década de 1990.
Para compreender melhor, é preciso analisar três cadeias que estão impulsionando a inflação — cada uma com seu próprio ritmo e nenhuma delas fácil de ser revertida.
O impacto do diesel nas cadeias de custos
A alta do petróleo provocou reajustes significativos na gasolina e no diesel, com o último apresentando aumentos de dois dígitos no IPCA de março. Apesar de a gasolina ter maior peso no índice, é o diesel que gera o efeito mais generalizado.
“É como a energia elétrica, que está presente em tudo. No caso do diesel, isso ocorre porque ele influencia o custo do frete”, destaca Romão. Quase todos os produtos transportados por caminhão encarecem quando o preço do diesel sobe. Além disso, houve casos pontuais de desabastecimento de derivados, agravando o problema logístico. A previsão da consultoria Logos é que o setor de Transportes tenha alta de 5,4% em 2026.
Passagem aérea: impacto tardio e desafiando a sazonalidade
Uma segunda cadeia opera com uma defasagem temporal. O querosene de aviação acumulou aumento de 55% até o começo de abril, mas essa elevação ainda não se refletiu totalmente no IPCA. Isso porque o IBGE considera a compra da passagem com uma antecedência de dois meses, de modo que o índice de maio reflete preços praticados em março, antes do agravamento do choque.
Por isso, a pressão dos custos do querosene deve aparecer no índice a partir dos meses de junho e julho. A passagem aérea já havia acumulado uma alta surpreendente de 46% no primeiro trimestre, contrariando a tendência sazonal habitual, que indicava uma queda mediana de 22,8% no período. A Logos projeta que esse item encerrará o ano com um aumento de 45%, um dos maiores da série histórica.
Cadeia do barril ao prato: a alta dos alimentos
A terceira cadeia é a mais extensa e preocupante. O preço dos alimentos no domicílio, ou seja, o que os brasileiros compram no supermercado, acelerou de 0,26% em fevereiro para 1,94% em março. Uma parte dessa pressão vem do aumento no custo do frete.
Existe ainda um segundo efeito, que surge com um atraso maior: o custo dos fertilizantes tende a subir influenciado pelo petróleo e pela instabilidade nas cadeias globais de fornecimento. Esse acréscimo se manifesta na agricultura com defasagem de meses.
“O fertilizante pode causar um aumento nos preços no segundo semestre de 2026 e em 2027”, alerta Romão. “Esse impacto ainda não é sentido porque boa parte da safra já foi colhida, mas para o futuro preocupa.”
A previsão da consultoria para os alimentos no domicílio em 2026 subiu de 3% para 5,4%. Embora esse valor ainda seja inferior à mediana dos últimos 15 anos (7,8%), representa uma alta expressiva em relação à inflação de 1,4% observada em 2025.
Inflação acumulada e impacto no orçamento familiar
Para os brasileiros, o problema não está apenas na variação anual, mas no nível acumulado dos preços. Romão compara a situação a uma pessoa que subiu uma montanha e, embora tenha parado de subir, continua no topo — ou seja, os preços permanecem elevados.
A trajetória recente da alimentação no domicílio mostra que os reajustes acumulados nesta década podem alcançar 67% até o final deste ano, conforme dados do IBGE e projeção da Logos Economia.
| Ano | Variação de preços de alimentos |
|---|---|
| 2020 | +18,2% |
| 2021 | +8,2% |
| 2022 | +13,2% |
| 2023 | -0,5% |
| 2024 | +8,2% |
| 2025 | +1,4% |
| 2026* | +5,4% |
Fonte: IBGE. Projeção 2026: Logos Economia.
Os poucos momentos em que há algum alívio raramente compensam os aumentos anteriores. O preço da comida está em um patamar mais alto, e a percepção popular acompanha esse aumento. Em abril, pesquisa Genial/Quaest indicou que 72% dos brasileiros sentiram alta nos preços dos alimentos no último mês.
Esse cenário é agravado pelo comprometimento do orçamento familiar. Dados da CNC indicam que oito em cada dez famílias estão endividadas — 80,4% em março de 2026, frente a 77,1% um ano antes — e quase 30% delas possuem contas atrasadas. O comprometimento da renda com dívidas atingiu 49,7% em janeiro, conforme declarou à imprensa o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan.
De um lado estão as despesas fixas que não diminuem, como energia elétrica, plano de saúde e aluguel; de outro, alimentos e transporte cada vez mais caros. O cartão de crédito vira uma válvula de escape, alimentando um ciclo vicioso de endividamento e alta de custos.
Expectativas para o futuro
Segundo Romão, a volta ao cenário pré-guerra é improvável. “Com tudo o que ocorreu, dificilmente veremos projeções de inflação em 4% para este ano novamente. É mais fácil as expectativas pararem de crescer do que começarem a recuar.”
Essa inércia já alcança as previsões para 2027. No boletim Focus do Banco Central, a mediana subiu de 3,8% para 3,91%. A consultoria Logos também revisou a projeção de 3,8% para 4,0%.
A inflação de 2026 ainda influencia reajustes de contratos, aluguéis e salários para o próximo ano. Quanto à política monetária, a Logos estima um corte cauteloso de 0,25 ponto percentual na Selic ao final de abril. Os juros elevados, combinados com o alto endividamento, devem reduzir gradualmente os preços dos serviços, mas essa desaceleração será lenta, não uma reversão abrupta.
O governo tem adotado medidas para amenizar o impacto, como cortes de impostos e subsídios nos combustíveis que ultrapassam R$ 30 bilhões, parte destas fora das regras fiscais. O ministro Durigan alertou que, se a guerra persistir, bancos centrais no mundo inteiro terão que reagir.
Há sinais de esperança, como a reabertura do Estreito de Hormuz pelo Irã, que fez o preço do petróleo Brent cair para menos de US$ 90, o menor valor em mais de um mês. No entanto, essa queda no valor internacional do petróleo não implica automaticamente a redução dos preços internos já elevados.
Em resumo, o Brasil em 2026 enfrenta uma inflação moderada em termos históricos, mas que corrói o poder de compra, eleva o patamar dos preços e provoca efeito cascata — do barril ao frete, do frete ao supermercado, do fertilizante à safra futura. Essa inflação sobe rapidamente e desce devagar, mantendo a pressão sobre a população e a economia.



