Milei Busca Dólares Secretos De Argentinos Para Reformas Econômicas

Milei Busca Dólares Secretos De Argentinos Para Reformas Econômicas

Milei busca US$ 250 bilhões que argentinos mantêm escondidos em segredo

O presidente argentino está empenhado em recuperar os dólares americanos há muito guardados em locais inusitados, como ursos de pelúcia e cofres caseiros, com o intuito de avançar em sua agenda de reformas econômicas pró-mercado.

Javier Milei, líder libertário da Argentina, que já conquistou apoio do ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e atraiu investidores internacionais, agora enfrenta o desafio de persuadir os argentinos, cansados de crises econômicas, a deixarem de esconder dólares em suas residências.

Estima-se que os argentinos guardem mais de US$ 250 bilhões em dinheiro vivo ocultos em casa, contas no exterior e cofres particulares — um montante aproximadamente seis vezes maior que as reservas do Banco Central do país.

Dois anos após o início do governo de Milei, observa-se que a população está gradualmente relaxando sua forte retenção dessas economias em dólar.

O volume de dólares mantidos em bancos argentinos por investidores privados atingiu, ao final do ano passado, um recorde de quase US$ 37 bilhões, representando um aumento de 160% desde que Milei assumiu a presidência em dezembro de 2023, conforme dados oficiais do Banco Central.

Nas avenidas arborizadas de Buenos Aires, cresce o otimismo à medida que o governo reduz restrições financeiras, estimulando os cidadãos a investirem, até então, recursos não declarados em bens diversos, como automóveis e imóveis.

“Os clientes estão mais confiantes e sentem menos necessidade de esconder seu dinheiro”, relatou Fabian Luciani, vendedor de carros com 25 anos de experiência na cidade. Ele mencionou que mais da metade de seus compradores utiliza dinheiro em espécie, frequentemente com dólares que suas famílias guardaram em esconderijos por anos.

Luciani aponta que as cédulas muitas vezes exibem manchas amareladas ou marrons, consequência do contato com a umidade típica dos locais onde ficaram armazenadas.

Guardar dólares “debaixo do colchão” ou fora do sistema financeiro formal é uma prática arraigada na Argentina, fruto das fortes oscilações do peso, bloqueios bancários e controles de capital que abalaram a confiança no sistema bancário durante décadas.

Mesmo assim, esconder dinheiro literalmente debaixo do colchão é arriscado, pois é o primeiro lugar que criminosos costumam procurar.

Héctor Orsenigo exemplifica a criatividade das pessoas ao contar que guardava seus dólares dentro do tubo metálico do pé de uma cadeira. Ele começou a acumular a moeda americana logo após a crise financeira de 2001, quando o governo congelou depósitos, bloqueando saques e eliminando as economias pessoais de muitos argentinos, gerando protestos e consequências graves.

Outros relatos de esconderijos incluem tetos falsos, caixas de descarga e até dentro de eletrodomésticos, criando um folclore que reflete o trauma de repetidas crises econômicas.

Trazer esses dólares ocultos de volta ao sistema bancário, ainda que temporariamente, representaria um avanço significativo para Milei e seu plano de reformar profundamente a segunda maior economia da América do Sul. Mais dólares disponíveis nos bancos poderiam ampliar o crédito e o financiamento às exportações, favorecendo o crescimento e atenuando os impactos das medidas de austeridade.

“Deposite seus dólares no banco… assim como em qualquer outro lugar do mundo!”, declarou recentemente o ministro da Economia, Luis Caputo.

Anteriormente, retirar dinheiro dessas reservas ocultas envolvia riscos legais, pois o uso de valores não declarados poderia resultar em processos fiscais. Muitos preferiam perder o dinheiro a enfrentar a burocracia e penalidades, segundo Juan Truffa, diretor da consultoria Outlier.

Ele relembra que, no início de sua carreira bancária, uma enchente quase destruiu os cofres subterrâneos onde estavam guardados milhões de dólares em espécie, que seus donos continuavam a manter fora do sistema financeiro formal.

Contudo, o governo de Milei está alterando o cenário fiscal. Em dezembro, o Congresso aprovou uma lei que eleva o limite para crimes de evasão fiscal, permitindo que argentinos usem até US$ 70 mil, em alguns casos, sem a necessidade de declarar a origem do dinheiro — uma mudança significativa em relação ao limite anterior de US$ 1 mil.

Embora a implementação da lei leve meses, uma anistia fiscal promovida em 2024 já havia retornado cerca de US$ 24 bilhões ao sistema financeiro e incentivado a declaração de aproximadamente 55 mil imóveis, conforme informações oficiais.

Um exemplo foi o caso de uma residência no Uruguai, pertencente a um cliente do arquiteto e incorporador Gerardo Keselman, que, graças à anistia, conseguiu vender o imóvel e transferir os recursos para a Argentina, investindo em novos empreendimentos residenciais.

Keselman espera que a nova legislação aumente ainda mais os investimentos no mercado imobiliário, ressaltando que quem guarda dinheiro prefere investir em bens tangíveis, como imóveis, em vez de confiar totalmente nos bancos.

A expansão do emergente mercado hipotecário argentino também deve favorecer essas tendências.

Ao longo dos anos, a Argentina já promoveu diversas anistias fiscais, mas muitas vezes as regras eram revertidas pelos governos posteriores, que voltavam a perseguir os contribuintes que declaravam seus bens e valores anteriormente escondidos.

No entanto, a legislação atual, apoiada por Milei, promete mudanças mais profundas. Segundo Truffa, a nova regra transfere o ônus da prova à autoridade fiscal para demonstrar irregularidades, liberando o poupador da obrigação de comprovar a licitude dos recursos, o que tem incentivado um novo clima de confiança.

Por outro lado, nem todos compartilham deste otimismo. Alguns argentinos ainda mantêm hábitos de economizar em casa devido ao trauma histórico e à tradição familiar transmitida por gerações, conforme destaca Gustavo Lazzari, economista e empresário no setor alimentício.

Milagros Gavilán, uma jovem de 19 anos que trabalha em um bar no centro de Buenos Aires, relata que, embora raramente tenha dinheiro para poupar, quando consegue, costuma esconder algumas cédulas entre as roupas, prática aprendida com sua avó, que guardava notas dentro de uma Bíblia.

Muitos argentinos guardam lembranças de quando, ainda crianças, descobriam os segredos financeiros dos seus pais, como Patricia Fernández, funcionária pública, que se recorda de encontrar uma bolsa escondida atrás da persiana em casa.

Além disso, algumas famílias ainda mantêm dólares em objetos passados por parentes falecidos há muito tempo.

Na região central de Buenos Aires, o serviço de aluguel de cofres de segurança da empresa Ingot é um indicativo da confiança no governo. Juan Piantoni, diretor-executivo da empresa, conta que negócios prosperaram na última década devido à desconfiança generalizada nas instituições bancárias, mas agora prevê uma queda de até 15% na demanda por cofres neste ano.

A Ingot tem buscado incentivar os argentinos a utilizarem os cofres para guardar outros itens pessoais, como cartas e fotografias, ao invés de mantê-los em casa, evitando riscos desnecessários.

Contato: Samantha Pearson – samantha.pearson@wsj.com

Fonte

Rolar para cima