Startup pernambucana utiliza música para alavancar vendas e já atende marcas internacionais
Fundada em 2016, a Musique alcançou um faturamento de R$ 2 milhões em 2025 e agora investe em sua expansão no setor varejista, além de focar na criação de músicas autorais.
A música ambiente em estabelecimentos comerciais pode influenciar tanto o tempo que o consumidor permanece no local quanto sua decisão de compra. Com base nessa percepção pouco explorada pelo varejo, André Domingues criou a Musique.
“Muitos negócios aplicam recursos elevados em arquitetura, iluminação, treinamento e marketing, mas frequentemente deixam de lado o que o cliente escuta durante toda a sua experiência de compra. A música não apenas transmite a identidade da marca, como também afeta o comportamento do consumidor”, destaca Domingues, fundador e CEO da Musique.
Inicialmente, a startup focou em clientes de pequeno porte em Recife e dedicou os primeiros anos para educar o mercado. Com o tempo, passou a atender grandes empresas nacionais e internacionais, como Ri Happy, Volvo e BMW.
Após faturar R$ 2 milhões em 2025, a empresa planeja quadruplicar seu tamanho no próximo ano, mirando ampliar sua atuação no varejo e fortalecer a estratégia baseada em produções musicais próprias.
Trajetória da Musique
Formado em Administração e músico, Domingues uniu suas habilidades para empreender. Seu olhar atento permitiu identificar que o aspecto sonoro era negligenciado nas estratégias empresariais.
Ele percebeu que a música não deveria ser apenas um fundo sonoro, mas sim uma ferramenta para reforçar a identidade da marca, melhorar a experiência do consumidor e impulsionar os resultados.
“Quando a comunicação sonora é aplicada de forma adequada, no momento, local e público corretos, ela contribui para aumentar as vendas e tornar a experiência de compra mais eficaz”, explica.
Com o apoio do sócio Renato Alves, especialista em tecnologia, criaram rapidamente a plataforma da startup, validando o produto em negócios de conhecidos, sendo a primeira cliente uma parente de Domingues.
O foco inicial foi conquistar clientes em Recife, atendendo clínicas, concessionárias, shoppings e hospitais. Os resultados positivos e as recomendações resultaram em maior credibilidade, abrindo portas para grandes contratos.
Progressivamente, a Musique expandiu sua atuação para todo o país e, depois, internacionalmente de forma orgânica.
Em 2018, a startup conquistou seu primeiro grande cliente, a Volvo, inicialmente nas concessionárias brasileiras, e depois em operações na América Latina e Ásia. Essa parceria consolidou a reputação da empresa e abriu espaço para outros clientes do segmento automotivo, como a BMW.
O desafio de conscientizar o mercado
Nos anos iniciais, a Musique enfrentou um desafio maior que a tecnologia: persuadir o mercado de que a música representa um ativo estratégico para o varejo.
Para muitos, bastava a reprodução de uma playlist para criar ambiente agradável, sem compreender o impacto real da trilha sonora no comportamento do consumidor e nos resultados de negócio.
A estratégia da Musique incluiu palestras, produção de conteúdo e a apresentação de estudos que comprovavam como a música influencia a decisão de compra, além de mostrar cases com os primeiros clientes.
Segundo dados da empresa, o uso do áudio inteligente aumentou em 9% o tempo de permanência dos consumidores nas lojas e possibilitou crescimento de até 20% nas vendas de produtos mencionados sonoramente.
“Era essencial educar o mercado. Publicávamos artigos, produzíamos conteúdo e apresentávamos cases porque as empresas ainda não compreendiam o quanto a música poderia transformar a experiência do cliente e impactar nos resultados”, comenta Domingues.
Conforme resultados surgiam e grandes marcas adotavam a solução, o método ganhava confiança e facilitava a entrada de novos clientes, especialmente dentro de setores similares.
“Quando uma marca importante implementava nossa solução, isso facilitava o diálogo com concorrentes do mesmo ramo. Os cases começaram a nos representar”, acrescenta.
Foco no crescimento do varejo
Após obter um faturamento de R$ 2 milhões em 2025, a expectativa da Musique é multiplicar por quatro seu tamanho nos próximos doze meses.
Para isso, o foco será intensificar a presença no varejo, que concentra a maior parte da carteira de clientes e apresenta maior potencial de expansão. Ao invés de diversificar para setores como hotelaria ou academias, a estratégia é aprofundar a atuação em segmentos onde já possui experiência e resultados comprovados.
A conquista de um nome de peso auxilia na abertura de negociações com concorrentes, reduzindo a resistência das novas parcerias. “Foi assim com a Volvo; depois tornou-se mais tranquilo prospectar a BMW e outras montadoras. Agora observamos esse fenômeno no varejo de moda”, revela Domingues.
Dentre os clientes atuais estão redes como Marisa e Ri Happy, além do acompanhamento da expansão internacional de clientes como a Volvo, que levou a solução para operações em América Latina e Ásia.
Músicas autorais como parte da estratégia
Além do crescimento comercial esperado, a Musique aposta forte na criação de músicas autorais, que constituem um dos pilares da expansão. A iniciativa vai além da simples curadoria de faixas já disponíveis nas plataformas de streaming.
A startup conta com uma equipe de compositores responsáveis por desenvolver canções exclusivas que expressem a identidade dos clientes e possam ser usadas em campanhas promocionais, lançamentos e demais ações dentro dos pontos de venda.
Essa estratégia visa entregar experiências sonoras cada vez mais personalizadas. Para ampliar a capacidade de criação, a empresa incorpora inteligência artificial ao processo musical.
Esse formato também reduz significativamente um dos maiores custos operacionais das grandes redes varejistas: o pagamento dos direitos autorais para execução pública de músicas comerciais. Como a Musique detém os direitos patrimoniais dessas composições, licencia o catálogo diretamente às empresas, eliminando a necessidade do pagamento a terceiros.
“Empresas varejistas chegam a desembolsar entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões anualmente em direitos autorais de música ambiente. É uma despesa fixa que o varejo nunca conseguiu evitar. Com nosso modelo, esse custo desaparece já no primeiro dia do contrato”, explica Domingues.
Embora promissor para contenção de gastos, o modelo ainda encontra resistência. O maior desafio é provar juridicamente a segurança da solução, exigindo reuniões constantes com departamentos jurídicos para esclarecer normas e comprovar a legalidade.
“Grande parte das empresas desconhece essa possibilidade. É necessário mostrar que há uma estrutura contratual e respaldo na Lei de Direitos Autorais para o licenciamento dessas obras de forma legítima”, conclui.



