O doce perigo da bolsa americana
Na última semana, tanto a inflação ao consumidor (3,8%) quanto ao produtor (6,0%) nos Estados Unidos atingiram níveis preocupantes, incluindo os índices básicos. Porém, ao contrário do esperado, as bolsas americanas continuaram batendo recordes de valorização.
Essa situação gera um questionamento: estaríamos perdendo os parâmetros tradicionais? O novo presidente do Federal Reserve (FED) aceitará essa alta, reduzindo juros na expectativa de que a inteligência artificial promova ganhos de produtividade que contenham a inflação?
Recentemente, recebi uma mensagem de um ex-aluno elogiando meus argumentos, mas ressaltando que, com figuras como Trump e a China comprando tecnologias como chips da Nvidia, o céu seria o limite para o crescimento das bolsas.
Para ilustrar a situação atual, faço uma analogia com o controle da glicose no sangue. Tenho 62 anos e convivo com pré-diabetes, mantendo minha glicose em jejum em uma média de 110 mg/dl, ligeiramente acima do limite considerado saudável (até 99 mg/dl). Agora imagine se a glicose estivesse no dobro desse valor, 220 mg/dl, e eu continuasse consumindo doces e guloseimas diariamente, sem cuidado algum. Essa seria uma situação perigosa.
Na bolsa, o índice conhecido como Shiller CAPE Ratio, que mede o preço das ações ajustado pelos lucros reais nos últimos dez anos, tem uma média histórica de 17 vezes. Hoje, esse indicador do S&P 500 está em 41 vezes, próximo do valor que antecedeu a bolha das pontocom em 2000 (44 vezes). Se aceitarmos um limite saudável perto de 20 vezes, as ações atualmente negociadas equivalem a mais que o dobro desse parâmetro, com as bolsas atingindo novas máximas continuamente.
Assim como no caso do diabetes, onde o excesso pode causar sérias complicações, o mercado parece estar “se empanturrando” de otimismo e preços elevados, o que pode ser insustentável.
Não quero ser um profeta do desastre, mas registros históricos, como o colapso do fundo LTCM em 1998, mostram que o excesso de confiança pode levar a perdas trilionárias, e hoje parte dos investidores nem conhecia esses eventos.
Embora haja quem acredite que o avanço tecnológico e a alta demanda possam justificar preços elevados, como a valorização astronômica da Nvidia, cujo valor de mercado hoje supera o PIB de muitos países e é comparável à quinta maior economia mundial, é difícil sustentar essa lógica quando títulos de dez anos oferecem retornos elevados (acima de 5%).
Existe uma chance de os lucros empresariais crescerem muito no futuro, o que reduziria efetivamente o índice de preço sobre lucro e justificaria o cenário atual, na mesma linha que um diabético conseguiria controlar a glicemia com mudanças radicalmente positivas na dieta e estilo de vida. No entanto, essa possibilidade é improvável.
Outra hipótese seria a redefinição do parâmetro histórico, aceitando que um CAPE de 40 vezes seja normal, como se a febre alta de 38ºC passasse a ser considerada comum ao invés de 37ºC. Essa solução não é racional.
Meu prognóstico pessoal é que, caso esse excesso continue, uma bolha poderá estourar, o que traria consequências severas para os investidores.
Seria ideal se o mercado pudesse decidir que os níveis atuais são aceitáveis, assim como seria bom se o limite saudável de glicose fosse alterado para um valor maior; infelizmente, tanto médicos quanto professores são rigorosos porque desejam evitar problemas mais graves.
Alexandre Espirito Santo é sócio e economista-chefe da Way Investimentos e professor do IBMEC-RJ e ESPM.



