O que o conflito com o Irã revela sobre a importância estratégica do Estreito de Ormuz
O confronto com o Irã, iniciado após ataques americanos em 28 de fevereiro de 2026, já se estende por algumas semanas e envolve também outras nações do Oriente Médio, como Líbano, Kuwait e Israel. Um dos principais impactos econômicos resultantes dessa crise é a limitação no trânsito pelo Estreito de Ormuz.
Este artigo foca estritamente nas consequências econômicas dessa situação, sem emitir julgamentos sobre as estratégias militares ou geopolíticas adotadas por qualquer dos envolvidos.
O Estreito de Ormuz é responsável pela passagem de aproximadamente 20% a 25% do suprimento global de petróleo — cerca de 20 milhões de barris diários — além de gás natural, recursos essenciais para empresas e consumidores em todo o mundo. Importante destacar que esses combustíveis não possuem substitutos imediatos, dada a infraestrutura atual de transporte, fábricas e residências.
Portanto, a imposição de restrições duradouras na oferta, combinada a uma demanda pouco sensível a mudanças no curto prazo, provoca um intenso choque nos preços. Esse efeito já é perceptível nos mercados internacionais, com os valores dessas commodities subindo mais de 50% desde o início do conflito. Além da elevação dos preços, que impacta diversas cadeias econômicas globais, há o risco de interrupções em operações essenciais por falta de suprimentos, o que pode gerar distorções não só no preço do petróleo e gás, mas também de seus derivados. Quanto mais longas forem as restrições, maior será esse risco.
Para compreender o efeito em cascata, vale lembrar que o petróleo é a principal matéria-prima para a produção da gasolina e do diesel, combustíveis fundamentais para o transporte aéreo e marítimo mundial. Estima-se que esses combustíveis representem entre 25% e 35% dos custos no transporte aéreo e cheguem até a 50% na modalidade marítima. Esses dados ilustram a pressão de custos que a economia global deverá suportar nos próximos meses.
Além do impacto direto nos combustíveis, outras cadeias produtivas também sofrerão consequências, como as indústrias de bens petroquímicos, que produzem materiais plásticos e diversos derivados. Fertilizantes, fundamentais para a agricultura, serão afetados, assim como produtos que passam pela região como ácido sulfúrico, ureia e enxofre, além do gás natural — insumos essenciais para processos industriais complexos, incluindo a fabricação de semicondutores usados nas indústrias automotiva e de telecomunicações.
De modo ilustrativo, cerca de um terço do fertilizante comercializado no mercado internacional transita pelo Estreito de Ormuz. Além disso, aproximadamente 40% das exportações globais de ureia e amônia são oriundas de países da região, como Irã, Catar, Arábia Saudita, Kuwait e Bahrein. Não surpreende, portanto, a elevação de preços em torno de 30% nos fertilizantes em relação aos níveis pré-conflito.
Uma continuidade das barreiras ao tráfego desses produtos pode provocar atrasos nas programações de produção agrícola em diversos países, reduzindo a produtividade e afetando safras importantes como soja, milho e trigo.
Impactos específicos no Brasil
O Brasil enfrenta dois agravantes no cenário:
1. Depende de 90% das importações de fertilizantes para sua produção agrícola, o que pode resultar tanto em aumento de custos quanto em queda de produtividade para a safra 2026/2027.
2. Os países do Oriente Médio são destinos relevantes para algumas exportações brasileiras, como carne de frango, que direciona cerca de 30% de suas vendas externas para a região, além de madeira.
Não há previsibilidade sobre a duração do conflito, que pode se encerrar rapidamente por meio de acordos ou prolongar-se com oscilações de intensidade. Independentemente do desfecho, alguns danos já são permanentes, como a destruição de instalações de extração e refino, restrições impostas à navegação no Estreito e aumento da insegurança regional, evidenciada pela capacidade do Irã de rapidamente ampliar e envolver outros países no confronto.
Assim, parte dos prejuízos não será revertida em curto prazo. O momento exige contabilizar os impactos secundários e terciários nas cadeias produtivas, equilibrar oferta e demanda de determinados bens e administrar as consequências para a inflação e o crescimento econômico global.
De acordo com estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), num cenário de resolução rápida, a inflação global poderia subir 0,7 ponto percentual e o PIB declinar 0,3 ponto percentual. Caso o conflito se prolongue, os impactos poderiam chegar a quase 2 pontos percentuais adicionais na inflação e uma queda de 0,8 ponto percentual no crescimento. Por isso, pressões internacionais por uma solução pacífica têm aumentado, envolvendo governos, organizações multilaterais e grandes empresas globais.
Como destacou Neville Chamberlain, ex-primeiro-ministro britânico, pouco antes da Segunda Guerra Mundial: “Na guerra, independente do lado vencedor, não há ganhadores, todos perdem.”
Estevão Scripilliti é diretor da Bradesco Vida e Previdência.



