OnlyFans: de plataforma familiar a referência em conteúdo adulto
Em 2018, a empresa foi vendida por US$ 1,9 milhão e, até 2024, seu faturamento bruto alcançou impressionantes US$ 7,2 bilhões.
Atualmente, o OnlyFans é imediatamente associado à indústria do entretenimento adulto. A plataforma ganhou notoriedade pelo uso de celebridades que monetizam conteúdo exclusivo, além de centenas de milhares de usuários que buscam complementar sua renda por meio do aplicativo.
Desde 2020, o OnlyFans ultrapassou o patamar de mero fenômeno cultural. Conforme relatório financeiro da Fenix International, em 2024 a empresa atingiu um faturamento bruto de US$ 7,2 bilhões, crescendo 9% em relação ao ano anterior. A receita líquida foi de US$ 1,4 bilhão e o lucro antes de impostos alcançou US$ 684 milhões.
Ao final de 2024, a plataforma contava com 377,5 milhões de usuários e 4,6 milhões de produtores de conteúdo, que juntos receberam cerca de US$ 5,8 bilhões — representando 80% do volume total transacionado. Em comparação, em 2020, ano do crescimento acelerado por conta da pandemia de COVID-19, as movimentações somavam US$ 2,4 bilhões, pouco mais de um terço do valor atual.
Por trás desse extraordinário sucesso estava Leonid Radvinsky, proprietário do OnlyFans, peça fundamental no desenvolvimento do negócio. Radvinsky faleceu em 23 de março de 2026, aos 43 anos, após enfrentar um câncer. Nascido em Odessa, na Ucrânia, imigrou para os Estados Unidos ainda criança e iniciou sua jornada empreendedora aos 16 anos com um site de links para conteúdo adulto. Sob sua liderança, o OnlyFans transformou-se em um dos negócios mais rentáveis da internet, com lucros que pularam de US$ 1,9 milhão em 2018, ano da aquisição, para US$ 520 milhões em 2024.
Entre 2021 e 2024, Radvinsky acumulou cerca de US$ 1,8 bilhão em dividendos, sendo sua fortuna pessoal avaliada em US$ 2,1 bilhões. Apesar do impacto do seu trabalho, manteve um perfil discreto, raramente aparecendo publicamente e jamais concedendo entrevistas, o que adiciona um tom de mistério à trajetória do OnlyFans.
Origem do OnlyFans como plataforma familiar
A história do OnlyFans teve início no interior da Inglaterra, concebida inicialmente como um negócio familiar. Tim Stokely, fundador da plataforma, cresceu no condado de Essex, no Sul do Reino Unido, e já na escola experimentava empreendedorismo, cobrando colegas para comprar lanches.
Em 2011, já adulto, Stokely ingressou no mercado de conteúdo sexual, lançando sites como Glam Worship — focado em fetiches e envio de presentes a dominatrizes — e Customs4U, que oferecia vídeos pornográficos personalizados. Ambos os projetos não prosperaram.
Após conversas com amigos, Stokely decidiu construir uma plataforma que permitisse a qualquer criador monetizar seu conteúdo com facilidade, basicamente uma rede social com mecanismo de pagamentos embutido. Assim surgiu o OnlyFans, em novembro de 2016, com Tim como CEO, e seus pais Guy e Deborah atuando como diretores até o fim do ano. Seu irmão Tom assumiu a função de diretor de operações em 2018, consolidando o negócio como um empreendimento parcialmente familiar.
A empresa foi registrada no Reino Unido, ainda sob o guarda-chuva da controladora Fenix International. Importante destacar que a intenção original não era atrair conteúdo adulto. Segundo Petra, uma das primeiras diretoras, os fundadores buscavam atrair músicos, influenciadores do YouTube e Instagram, desejando criar uma plataforma para conteúdo mainstream.
Entretanto, como o interesse dos criadores comuns não foi suficiente, a plataforma redirecionou seu foco para o conteúdo adulto, área que já lhes era familiar. No fim de 2017, o OnlyFans retirou a proibição sobre material explícito, o que impulsionou seu crescimento exponencial.
A transformação para o conteúdo adulto
Após liberar conteúdo adulto, o OnlyFans se expandiu rapidamente. Para ganhar espaço no mercado americano, os fundadores contaram com Bill Fox, importante figura da indústria pornográfica da Califórnia, que recrutou dezenas de performers para a plataforma, popularmente chamadas internamente de “as meninas do Bill”.
Em 2018, dois anos depois da fundação, a família Stokely vendeu o negócio para Leonid Radvinsky. Embora o valor da venda não tenha sido divulgado, balanços da época mostram que a empresa gerava lucro inferior a US$ 2 milhões, evidenciando que Radvinsky adquiriu a empresa num estágio inicial antes da grande expansão.
Radvinsky possuía experiência anterior na indústria adulta. Quando jovem, sua mãe Anna registrou em seu nome uma empresa que operava um site, Ultrapasswords.com, que oferecia acesso a links para páginas pornográficas e chegou a faturar cerca de US$ 5 mil por dia em 2002.
Formado em economia pela Northwestern University, Radvinsky fundou em 2004 o MyFreeCams, um dos maiores sites de webcam adulta do mundo, que em 2010 já contava com cerca de 100 mil modelos cadastrados.
Com sua expertise, Radvinsky guiou o OnlyFans rumo ao sucesso definitivo, que se acelerou com a chegada da pandemia de Covid-19. Entre março e abril de 2020, o número de cadastros subiu 75% mensalmente, com média diária de 200 mil novos usuários, de acordo com dados divulgados pela empresa.
Em 2020, o total de criadores saltou de 384 mil para 1,6 milhão, enquanto os usuários passaram de 13,5 milhões para 82,3 milhões. As transações financeiras da plataforma cresceram 553%, atingindo US$ 2,4 bilhões no ano fiscal, segundo o Financial Times.
Impacto cultural e crescimento bilionário
Em 2020, artistas como Beyoncé mencionaram o OnlyFans em lançamentos musicais, elevando a popularidade da plataforma. Celebridades como Cardi B e Blac Chyna também passaram a utilizá-lo para distribuir conteúdo exclusivo.
Em abril de 2021, a rapper Bhad Bhabie entrou para a plataforma seis dias após completar 18 anos e conquistou mais de US$ 1 milhão nas primeiras seis horas. Em um ano, seu faturamento na rede ultrapassou US$ 42 milhões, segundo declarou à Reuters.
Em agosto do mesmo ano, a empresa chegou a anunciar a remoção de conteúdo pornográfico a partir de outubro, alegando pressão dos parceiros financeiros. A reação da comunidade foi imediata e negativa, com muitos criadores afirmando que o trabalho sexual foi a base da plataforma. Após seis dias, a decisão foi revertida.
Tim Stokely deixou o cargo de CEO em dezembro de 2021, seguido pela saída de seu pai Guy da diretoria.
Já sob a liderança de Radvinsky, o OnlyFans consolidou-se como um dos negócios digitais mais rentáveis do mundo. Em 2024, contava com apenas 46 funcionários diretos, conforme o relatório financeiro, mantendo porém uma grande equipe terceirizada para a moderação de conteúdo.
Os números de 2024 demonstram a dimensão do império: US$ 7,2 bilhões em transações financeiras, um crescimento anual de 9%, receita líquida de US$ 1,4 bilhão e lucro antes de impostos de US$ 684 milhões. Os criadores mantiveram 80% da arrecadação, recebendo juntos US$ 5,8 bilhões.
Em 2025, Radvinsky recebeu US$ 701 milhões em dividendos e, no acumulado de 2021 a 2024, a soma chegou a quase US$ 1,8 bilhão.
Processo de negociação para venda e desafios
Com a plataforma consolidada e altamente lucrativa, Radvinsky explorava a possibilidade de vender o OnlyFans, que estava avaliado em cerca de US$ 8 bilhões. Entre as potenciais interessadas está a Forest Road Co., empresa de investimentos de Los Angeles ligada aos setores de mídia e entretenimento.
No entanto, a venda enfrenta obstáculos estruturais relacionados ao tipo de conteúdo da plataforma. Em 2023, intermediários do OnlyFans buscaram parcerias e possível oferta pública com grandes bancos de Wall Street, mas as negociações não avançaram. Bancos e investidores temem que auditorias revelem material ilegal hospedado no site, como pornografia infantil ou conteúdo relacionado a tráfico humano.
Em resposta, o OnlyFans tem adotado uma estratégia para diversificar sua imagem, priorizando o OFTV, plataforma de streaming com produções adequadas para todas as idades, incluindo temas como fitness, culinária, comédia, música e reality shows.
Em 2024, celebridades como Carmen Electra, Mia Khalifa e a atriz Drea de Matteo estavam entre os produtores de conteúdo mais populares. A plataforma também começou a atrair comediantes e outros criadores fora do universo adulto.
No relatório anual de 2024, a empresa destaca riscos relacionados a processos judiciais, mencionando exposições a ações coletivas nos Estados Unidos, e reafirma seu compromisso em manter relações sólidas com parceiros financeiros, reguladores e partes interessadas globalmente.



