Parceria entre Oncoclínicas, Fleury e Porto Seguro: o que significa e os questionamentos no mercado
Foi anunciado recentemente que Fleury (FLRY3), Porto Seguro (PSSA3) e Oncoclínicas (ONCO3) estão articulando a formação de uma nova companhia que reunirá os ativos clínicos de oncologia atualmente vinculados à Oncoclínicas. Este movimento pode trazer um novo e significativo participante ao setor oncológico, que vem crescendo e passando por intensa consolidação.
O anúncio inicial da negociação entre Porto Seguro e Oncoclínicas ocorreu no dia 15 de março, com a inclusão do Fleury confirmada no dia 23. Caso a criação da nova empresa, chamada “NewCo”, avance, será possível redesenhar a atuação das três companhias em um mercado que apresenta grandes perspectivas de expansão.
No entanto, ainda existem dúvidas por parte dos analistas quanto à transição dos contratos da Oncoclínicas com operadoras de saúde e sobre a avaliação financeira do negócio, que permanece incerta. Além disso, a geração de caixa da nova estrutura é difícil de prever neste momento.
O analista Milton Rabelo, da VG Research, destaca que apesar do potencial estratégico da operação, ela está em fase inicial, sujeita a auditorias, aprovações regulatórias e assinatura de contratos definitivos, não havendo obrigatoriedade formal para sua conclusão, o que mantém o cenário indefinido.
A Oncoclínicas atravessa uma reestruturação devido a pressões financeiras, o que a levou a ajustar sua estratégia para focar novamente no núcleo principal do negócio de tratamentos oncológicos. A empresa também está em negociações com seus credores para buscar estabilização financeira.
Como o JPMorgan enxerga o acordo
No relatório do JPMorgan, o negócio é considerado positivo para a Porto Seguro e estrategicamente atraente para o Fleury, embora carregue incertezas para a Oncoclínicas. O banco vê a operação como uma reestruturação do balanço da Oncoclínicas, onde a entrada de sócios estratégicos proporciona maior clareza operacional. Contudo, o valor residual para os acionistas depende de definições sobre os passivos que permanecerão na nova empresa ou na holding, pontos ainda não esclarecidos.
Para o Fleury, o movimento representa uma expansão coerente na área de oncologia, com um salto significativo em escala, mas implica um comprometimento de capital relativamente elevado. O Fleury e a Porto teriam que investir conjuntamente R$ 500 milhões por meio de uma holding que controlaria a nova companhia, com remuneração vinculada a 110% do CDI e prazo de até 48 meses. A operação ainda prevê que a Oncoclínicas transferirá suas operações clínicas e parte relevante dos passivos para a nova empresa, podendo chegar a R$ 2,5 bilhões.
O JPMorgan calcula que os R$ 500 milhões de aporte representam cerca de 6% do valor de mercado do Fleury ou 20% de seu caixa do quarto trimestre de 2025.
Para a Porto Seguro, a estratégia é vista como lógica, fortalecendo sua presença no setor de saúde, estimulando a competição e buscando retorno financeiro. A entrada do Fleury atua como mitigador de riscos operacionais e traz maior aporte financeiro em comparação a uma operação independente. Entretanto, o banco ressalta que há poucas informações sobre possíveis alterações na joint venture que Porto já possui com a Oncoclínicas, em que detém 40% da participação econômica.
A perspectiva do Itaú BBA
Segundo o Itaú BBA, a lógica industrial da transação é clara, com o Fleury avançando em um segmento mais complexo que traz crescimento estrutural e pode melhorar seu posicionamento na cadeia de saúde. No entanto, a falta de definição dos termos finais limita o entusiasmo no curto prazo.
Os analistas do banco, liderados por Vinicius Figueiredo, destacam que, embora a tese estratégica seja consistente com a intenção do Fleury de expandir sua atuação em áreas de maior complexidade como oncologia, a execução é o maior ponto de atenção. A conclusão da due diligence e o alinhamento entre as partes serão determinantes para a concretização efetiva do negócio.
O Itaú BBA ainda ressalta um risco operacional relevante: a migração das operações oncológicas para a nova empresa exigirá novos processos de credenciamento junto às operadoras de saúde, o que pode impactar contratos de exclusividade atualmente mantidos pela Oncoclínicas. Esse processo pode se revelar difícil em um contexto de maior rigor no setor.
Assim, a operação ainda demanda acompanhamento atento para avaliar sua viabilidade e possíveis impactos no mercado de saúde.



