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Percepção De Risco Em Investimentos Com Fatores Além Da Guerra

Percepção De Risco Em Investimentos Com Fatores Além Da Guerra

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Não é apenas a guerra: conjunto de fatores amplia a percepção de risco

O momento atual exige que gestores revisitem os cenários e repensem suas estratégias, incluindo ajustes táticos e até modificações no portfólio estratégico.

Por Hudson Bessa — São Paulo

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29/04/2026 06h30

Março apresentou grandes desafios para os fundos multimercados: nove em cada dez cartas enviadas por gestoras buscaram explicar os motivos por trás das rentabilidades negativas registradas. Um olhar no Boletim Anbima de Fundos de Investimento revela que, das onze categorias usadas pela associação para classificar esses veículos conforme suas políticas e riscos, nove fecharam o mês com desempenho negativo. O retorno médio simples apontou uma queda de 0,51%, um resultado que não havia sido visto durante todo o ano de 2025.

Os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e Israel aos territórios do Irã e do Líbano provocaram uma forte aversão ao risco, levando à reavaliação dos ativos que oferecem prêmios de risco em praticamente todas as classes. No segmento dos fundos multimercados, esse prejuízo e o clima mais negativo têm o potencial de interromper o ciclo de recuperação iniciado em 2025, quando mesmo com resultados negativos, a captação líquida foi significativamente maior que nos três anos anteriores. Janeiro, por exemplo, registrou uma captação líquida positiva de R$ 20 bilhões, algo que não se via há muito tempo.

A gestão de recursos, por natureza, envolve apostas no futuro — embora o termo não agrade a todos, ele não significa um jogo de azar puro. Gestores utilizam informações, probabilidades e instrumentos de análise para embasar suas decisões, mas todo investimento carrega o componente da incerteza.

Até fevereiro, as análises indicavam consenso razoável entre gestores: a inflação mundial estava diminuindo lentamente, o crescimento econômico se mantinha moderado mas constante, e o impacto da inteligência artificial na produtividade global traria, a longo prazo, uma tendência deflacionária.

No Brasil, a inflação em queda, o crescimento econômico mais moderado e expectativas de inflação mais firmes, embora ainda próximas ao teto da meta, abriam espaço para corte de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros, diante de um juro real de quase 10% embutido na Selic. Ao mesmo tempo, o movimento de rotação global valorizava a Bolsa e o real, favorecendo o processo deflacionário.

Todo esse cenário apontava para uma tendência de juros mais baixos e ações valorizadas no longo prazo, até que, em 27 de fevereiro, ocorreu um evento inesperado, um chamado “evento de cauda”.

Inicialmente, muitos analistas acreditavam que o ataque dos EUA seria preciso e contido. A perspectiva era que a eliminação da liderança iraniana desencadearia protestos internos acelerados, podendo levar ao colapso do regime teocrático, o que normalizaria os preços do petróleo e a situação mundial.

No entanto, quando este texto foi escrito, o conflito já completava dois meses, e mesmo com muitas ameaças, avanços e recuos, seu fim ainda não é previsto. Como resultado, os custos de frete aumentaram, os seguros estão mais caros, e o preço dos combustíveis e seus derivados disparou.

Mesmo que o conflito tenha um fim imediato, os efeitos inflacionários futuros já estão instalados. Preços de combustíveis podem chegar a recuar, mas custos relacionados a seguros e fretes provavelmente permanecerão elevados quando comparados ao período anterior à guerra.

O aumento de custos, rotas comerciais mais longas e onerosas, imposição de pedágios e a ascensão de economias mais autossuficientes — como no caso dos fertilizantes — devem tornar o mundo menos eficiente e mais caro, o que significa a persistência de pressões inflacionárias.

Nações com economias mais fechadas e menos integradas tendem a reduzir a cooperação e se concentrar em políticas internas, fomentando atitudes nacionalistas mais extremas. Esse ambiente pode incentivar a adoção de tarifas, restrições ao comércio, diminuição da influência de organismos multilaterais e aumento de atritos entre os países.

Embora a inteligência artificial represente um avanço estrutural para a produtividade e uma possível revolução em nossa forma de trabalhar e conviver, o risco geoeconômico se soma ao risco geopolítico, exigindo uma elevação nos prêmios de risco exigidos pelos investidores.

Assim, gestores devem analisar esse novo contexto como um conjunto de acontecimentos, não apenas focando na guerra, mas entendendo que vivemos uma conjuntura mais turbulenta, nacionalista, incerta e inflacionária.

Hudson Bessa é economista, sócio da HB Escola de Negócios e da Spot Capital Consultoria de Investimentos, além de professor na Administração da ESPM-SP.

Hudson Bessa — Foto: Arte sobre foto Divulgação Fonte

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