Por Que O Dinheiro Foge Dos Projetos Climáticos

Por Que O Dinheiro Foge Dos Projetos Climáticos

Por que os recursos financeiros evitam projetos climáticos

Embora exista capital disponível e tecnologias aperfeiçoadas, executivos indicam que fatores como risco político, ausência de padrões definidos e dificuldades para ampliar a escala dos projetos dificultam que os investimentos sustentáveis saiam do papel.

Na Brazil House em Davos, gestores de ativos, seguradoras, representantes do mercado financeiro e especialistas em sustentabilidade debateram os desafios que impedem o avanço das finanças voltadas ao clima.

O consenso apontou que o problema não está na falta de intenção ou no interesse do mercado, mas sim na operacionalização dos projetos. Os obstáculos incluem a maioria dos projetos ser pequena, os riscos serem difíceis de controlar, a inexistência de critérios claros e o contexto geopolítico, que afasta investidores institucionais, especialmente nos países em desenvolvimento.

Coalizões climáticas não garantem resultados efetivos

Jens Nielsen, fundador e CEO da World Climate Foundation, criticou a crença excessiva nas alianças climáticas. Segundo ele, apenas formar coalizões não assegura impacto real. O problema inicial é conceitual, já que sustentabilidade possui diferentes interpretações entre os envolvidos. “Sem consenso sobre o significado de sustentabilidade, metas e objetivos, é impossível organizar ações conjuntas”, destacou.

Outro empecilho está na falta de compromisso firme, pois não adianta criar normas se participantes podem desistir quando os padrões se tornam difíceis de cumprir. Para Nielsen, só com coordenação efetiva entre setores, países e estruturas financeiras as coalizões funcionam. O executivo enfatizou que existem soluções, investimentos e governos dispostos, mas que faltam sinergia entre eles.

Inovação existe; coordenação, ainda não

O executivo usou a energia eólica como exemplo da oportunidade perdida por falta de colaboração global. A Dinamarca desenvolveu os aerogeradores modernos nos anos 1970, mas levou quatro décadas para que eles fossem efetivamente lucrativos. Se houvesse uma atuação supranacional mais articulada, esse avanço poderia ter ocorrido muito antes. Esse raciocínio vale para questões climáticas e biodiversidade, já que as tecnologias existem, mas não chegam ao mercado com a agilidade que a crise exige.

Regulamentação é uma faca de dois gumes

Amy Barnes, líder de Energia, Potência e Estratégia de Clima na Marsh, explicou que a regulação não é sempre algo negativo, mas pode ser problemática se antecipada. Citou o exemplo da Copenhagen Atomics, empresa dinamarquesa que desenvolve pequenos reatores nucleares modulares capazes de fornecer energia limpa e econômica para regiões remotas, porém enfrenta um paradoxo de regulamentação pois a Dinamarca proíbe energia nuclear e a empresa não pode testar sua tecnologia localmente.

Para Barnes, o erro ocorre quando regras são estabelecidas antes da definição clara do modelo de negócio, prejudicando a inovação e os processos.

Experiência brasileira reforça eficácia da autorregulação

No Brasil, José Carlos Doherty, diretor-executivo da Anbima, destacou que a autorregulação foi fundamental para preparar o terreno para normas rígidas no setor. No mercado de fundos sustentáveis, muitos produtos utilizavam o termo “fundo verde” sem necessariamente seguir critérios ESG.

A iniciativa privada criou mecanismos de autorregulação que precederam a regulamentação oficial, permitindo que o mercado assimilasse boas práticas antes das exigências obrigatórias. Isso contribuiu para organizar o segmento e aumentar a confiança dos investidores.

Ativos sustentáveis precisam ser quantificáveis para atrair financiamento

Durante o debate, a questão de como financiar projetos comunitários de restauração ambiental, como manguezais e florestas, foi levantada. Barnes respondeu de forma clara: “Não se pode investir em algo que não pode ser assegurado, e para isso é preciso medir o ativo”.

Ela exemplificou com uma iniciativa nas Filipinas que, após restaurar manguezais, reduziu em 65% os prejuízos causados por tempestades de média intensidade. Essa proteção levou a uma diminuição de 12% nos valores dos seguros para os bens protegidos, tornando o impacto ambiental um ativo financeiro.

Risco político é o principal fator de afastamento do capital

Ao tratar da América Latina, o risco geopolítico foi destacado como o maior desafio para atrair investimentos institucionais. Barnes ressaltou que seguros são eficazes para riscos imprevisíveis, mas não para incertezas políticas como expropriação, inadimplência ou restrições cambiais, comuns em alguns países da região.

Parcerias com bancos multilaterais e instituições de desenvolvimento podem amenizar esses riscos, mas não os eliminam completamente, continuou a executiva.

Blended finance tem potencial ainda não plenamente realizado

Carlos Takahashi, chairman da BlackRock Brasil, ofereceu uma visão prática sobre o blended finance — combinação de recursos públicos e privados. Ele destacou a iniciativa Eco Invest, do Tesouro Nacional, como um projeto que demonstra a capacidade do setor público em fomentar áreas como agricultura sustentável, recuperação ambiental e ecoturismo.

Takahashi salientou que o papel do Estado deveria focar em mitigar riscos políticos e geográficos, abrindo caminho para que o capital privado se engaje com maior segurança.

Ao final do painel, ficou claro que o dinheiro para projetos climáticos não falta por falta de intenção ou interesse dos investidores. O que impede os recursos são os altos riscos envolvidos, a escala limitada dos projetos e o longo prazo necessário para geração de retorno, fatores que desanimam o mercado financeiro atual.

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