Por que o dólar voltou a subir? DXY supera 101 pontos, maior nível desde maio de 2025; veja o que esperar da moeda
Especialistas do mercado financeiro projetam que o dólar continuará forte no curto prazo, sustentado pela expectativa de elevação das taxas de juros nos Estados Unidos. No Brasil, a possibilidade de redução da Selic somada às dúvidas fiscais locais deve pressionar o real, enquanto os próximos indicadores inflacionários dos EUA e o contexto geopolítico deverão influenciar os movimentos futuros da moeda americana.
Recentemente, o índice DXY, que mede o dólar frente a uma cesta de seis moedas importantes como o euro e o iene, ultrapassou a marca de 101 pontos. Este patamar não era registrado desde maio de 2025, período em que o conflito comercial entre Estados Unidos e China estava no seu ápice. Na quinta-feira (25), o índice atingiu o máximo de 101,746 pontos.
A valorização do dólar intensificou-se nos últimos dias, impulsionada por sinais de que o Federal Reserve (Banco Central dos EUA) adotará uma postura mais rígida (hawkish) no combate à inflação elevada. Instituições financeiras, como o Bank of America e o BTG Pactual, já incorporaram em suas projeções a expectativa de três elevações da taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual cada.
Leonel Mattos, analista de inteligência de mercado da StoneX, destaca que a principal causa do fortalecimento do dólar é a revisão das expectativas para a taxa de juros americana, agora com novas altas no radar. Ele também comenta que anteriormente se imaginava que o indicado por Donald Trump para o Fed, Kevin Warsh, teria uma postura mais branda em relação a cortes nos juros, mas o discurso mais firme de Warsh surpreendeu o mercado.
Treasuries tornam-se mais atrativos
Após a decisão do Fed e a coletiva de Warsh em 17 de junho, os juros dos títulos públicos americanos de curto prazo, os Treasuries, chegaram a 4,229%, alcançando o ponto mais alto desde fevereiro de 2025.
Para Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora, o cenário atual indica que é mais vantajoso para investidores transferirem recursos da renda variável nos mercados emergentes para a renda fixa em economias desenvolvidas, devido à perspectiva de juros mais elevados nos EUA. Este movimento reflete uma postura de menor risco por parte dos investidores globais.
Rodrigo Franchini, especialista em soluções de investimento da Monte Bravo, reforça que a alta dos juros americanos torna os Treasuries mais atraentes, o que amplia o retorno do investimento nos Estados Unidos e reforça o dólar.
Perspectivas para o índice DXY
Contudo, os analistas apontam que é complicado prever o comportamento do dólar no médio prazo, pois fatores como o conflito no Oriente Médio e a inflação nos EUA continuam incertos.
Na quinta-feira, novas tensões surgiram entre Estados Unidos e Irã, após um ataque da Guarda Revolucionária iraniana a um navio com bandeira de Cingapura no Estreito de Ormuz.
Em relação à inflação americana, o Índice de Preços para Gastos com Consumo Pessoal (PCE), métrica preferida do Fed, teve alta de 0,4% de abril para maio, abaixo da previsão de 0,5%. No acumulado dos últimos 12 meses até maio, o PCE aumentou 4,1%, ligeiramente acima dos 3,8% registrados em abril, em linha com as expectativas do mercado.
Esses dados trouxeram algum alívio para o mercado, com queda nos juros dos Treasuries e no índice DXY. Mesmo assim, a ferramenta Fed Watch do CME Group continua indicando alta de juros pelo Fed a partir de setembro, embora a probabilidade tenha diminuído de 70% para 63,1%.
Segundo Mollo, se os indicadores de inflação ao consumidor e produtor (CPI e PPI) mostrarem contenção, é provável que o Fed suavize sua postura mais rígida.
Impactos para o real
Para Mattos, apesar do real e outras moedas emergentes terem apresentado desempenho relativamente positivo no começo do ano, fatores locais negativos podem prejudicar a moeda brasileira, principalmente a perspectiva de cortes na taxa Selic e as incertezas fiscais.
Ele ressalta que o diferencial de juros tende a diminuir, já que o Fed mantém postura agressiva enquanto o Banco Central brasileiro deve reduzir os juros, o que contribui para a desvalorização do real frente ao dólar.
Além disso, as indefinições sobre a política econômica que será adotada pelo futuro governo brasileiro geram preocupações quanto ao controle da dívida pública, aumentando a pressão sobre a divisa nacional.
Mollo concorda que o crescimento da dívida bruta brasileira deve exercer influência negativa no câmbio e na curva de juros doméstica.



