Por que o Irã evitou ataques terroristas durante o conflito? Especialista analisa
O Irã, frequentemente chamado pelos Estados Unidos de “principal Estado patrocinador do terrorismo”, apoia e financia diversos grupos armados como Hezbollah, Hamas e os houthis no Iêmen. Contudo, mesmo diante dos recentes bombardeios e tensões no conflito de 2026 envolvendo Israel e os EUA, o regime dos aiatolás não atacou esses países por meio de ações terroristas. Essa ausência tem despertado questionamentos entre especialistas em geopolítica.
Daniel Byman, diretor do Programa de Guerra, Ameaças Irregulares e Terrorismo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), aponta múltiplas possíveis razões para o fato. Ele destaca que, historicamente, o Irã e seus aliados realizaram ataques terroristas em diversos países como Argentina, Bahrein, Bósnia, Bulgária, Alemanha, Quênia, Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos, demonstrando capacidade de conduzir operações tanto grandiosas quanto limitadas, com o objetivo de demonstrar poder sem desencadear uma guerra em larga escala.
Dado esse histórico, seria esperado que o Irã utilizasse o terrorismo em seu conflito atual com Israel e os EUA, que declararam abertamente o desejo de mudança de regime em Teerã. No entanto, até o momento, o país optou por ataques com foguetes, mísseis e drones contra alvos civis e militares na região, além de bloquear o Estreito de Ormuz, evitando incursões terroristas diretas.
Possíveis explicações para a ausência de ataques terroristas iranianos
1 – Limitações temporárias de capacidade
Byman considera que a explicação mais simples e plausível seja uma incapacidade temporária do Irã de executar operações terroristas contra os Estados Unidos e seus aliados. Isso se deve principalmente à eficácia das campanhas israelenses e norte-americanas que eliminaram mais de 250 líderes políticos e militares iranianos, demonstrando um alto grau de penetração da inteligência estrangeira no país.
Embora a inteligência usada para assassinatos seletivos difira daquela necessária para desarticular redes terroristas, as mesmas ações podem ter impedido a organização desses ataques. Ademais, a campanha pode ter afetado o comando e controle iraniano, dificultando o planejamento de operações enquanto líderes tentam se proteger de ataques aéreos.
2 – Medo de uma escalada do conflito
Outra hipótese levantada por Byman é que o Irã tenha evitado ataques terroristas por receio de provocar uma retaliação ainda mais intensa dos Estados Unidos e Israel. Apesar do poderio demonstrado nas operações Epic Fury e Lion’s Roar, os EUA poderiam intensificar seus ataques, incluindo ataques a infraestruturas críticas que já foram ameaçados por ex-presidentes como Donald Trump.
Assim, uma ação terrorista, especialmente dentro do território continental dos EUA ou contra alvos civis de destaque, poderia expandir o conflito a uma guerra aberta mais abrangente, colocando em risco a estabilidade e mesmo a sobrevivência do regime iraniano.
3 – Riscos de perder apoio internacional
Byman também destaca que ataques terroristas poderiam provocar uma reação negativa global, prejudicando a posição do Irã. No cenário atual, a guerra contra o Irã não conta com apoio popular robusto nos Estados Unidos, mas um atentado terrorista poderia aumentar significativamente o suporte à guerra, fortalecendo a causa dos EUA e aliados.
Além disso, na Europa e Ásia o conflito é ainda menos aceito, e ataques terroristas nesses continentes poderiam unir esses países contra o Irã, aumentando a pressão internacional e enfraquecendo a narrativa iraniana de vítima da agressão.
4 – Preparação de ataques futuros
Uma possibilidade mais preocupante considerada pelo especialista é que o Irã já esteja preparando ataques terroristas, apenas aguardando o momento mais oportuno para executá-los. Essa estratégia já foi observada no passado, como quando levou mais de um ano para planejar o assassinato do ex-assessor de Segurança Nacional americano John Bolton, em retaliação à morte do general Qasem Soleimani.
Dada a magnitude das mortes de líderes iranianos em 2026, incluindo o próprio líder supremo, a espera para uma retaliação planejada e menos exposta pode ser uma estratégia adotada para evitar uma escalada prematura.
5 – Avaliação de pouca vantagem estratégica
Por fim, Byman sugere que a liderança iraniana pode entender que não há necessidade de lançar ataques terroristas, já que as táticas atuais — envolvendo drones, mísseis, bloqueios marítimos e guerras por procuração — já impuseram custos suficientes aos adversários e criaram um fator de dissuasão eficaz.
Nesse contexto, ataques terroristas poderiam ser redundantes e trazer riscos elevados sem benefícios estratégicos proporcionalmente significativos.
Em resumo, as razões da contenção iraniana podem variar de limitações operacionais a decisões estratégicas prudentes ou estratégias temporais, sugerindo que a ausência atual de ataques terroristas não necessariamente indica uma mudança permanente de postura, mas sim uma contenção condicional.



