XP, B3 e plataformas de bets competem para liderar o mercado de prediction markets no Brasil
Conhecido como derivativo pela B3, aposta pelas plataformas de bets e ativo de informação por uma startup, o mercado de prediction markets acaba de chegar ao Brasil por meio de uma parceria entre a Kalshi e a XP.
A Kalshi, uma das principais bolsas de previsões dos EUA, fechou acordo com a XP para disponibilizar seus contratos aos investidores brasileiros. Inicialmente, o acesso ficará restrito a clientes da corretora Clear com contas internacionais, mantendo a operação em ambiente offshore e, portanto, fora da jurisdição regulatória do Brasil.
Nos EUA, o mercado de prediction markets movimentou cerca de US$ 64 bilhões em 2025, segundo estimativas, e agora está desencadeando uma disputa no Brasil sobre quais entidades terão autorização para operar esse segmento, movimentando corretoras, bolsas e startups.
A cofundadora da Kalshi, a brasileira Luana Lopes Lara, recente jovem bilionária self-made, já havia anunciado planos da empresa para ingressar no mercado nacional em 2026. Porém, a estratégia escolhida, que envolve contas internacionais vinculadas à XP, reflete as complexas discussões legais em torno dos prediction markets no país.
O funcionamento dos prediction markets
Nos Estados Unidos, plataformas como Kalshi e Polymarket operam bolsas de eventos com contratos binários autorizados pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC). Os participantes adquirem contratos que indicam a probabilidade de ocorrência de determinados acontecimentos, como “sim” ou “não”. O preço do contrato representa essa probabilidade.
Por exemplo: se um contrato é cotado a 65 centavos de dólar, isso indica 65% de chance atribuída pelo mercado para o evento ocorrer. Caso o participante acerte, recebe US$ 1 por contrato; se errar, perde o valor investido. Os preços são ajustados conforme novas informações surgem, refletindo as percepções dos envolvidos, e a plataforma recebe uma comissão sobre o volume negociado, não sobre as perdas dos usuários.
Investimento ou aposta?
Um ponto central do debate é se esses contratos constituem investimento ou aposta. Por exemplo, alguém que compra um contrato apostando na redução da taxa Selic está fazendo um hedge para proteção ou especulando? A resposta depende do perfil do usuário e do uso do contrato.
Para bancos e empresas, esses contratos funcionam como instrumentos de gestão de risco. Já para outros, são apostas fundamentadas em análise e expectativa. No Brasil, até 2002, contratos futuros eram vistos como apostas, mas após a publicação do novo Código Civil, o entendimento mudou.
Diferenças entre prediction markets e casas de apostas
Enquanto as casas de apostas criam riscos para entretenimento — com odds definidas para garantir vantagem à banca —, os prediction markets negociam riscos preexistentes relevantes para setores econômicos e financeiros, como variações de juros, conflitos geopolíticos e políticas regulatórias.
Esses mercados produzem preços que agregam informações dispersas, incentivando os participantes a pesquisarem e expressarem suas convicções reais, o que resulta em previsões mais precisas do que pesquisas tradicionais, conforme estudos recentes, incluindo um relatório do Federal Reserve dos EUA.
Semelhanças e disputas com o mercado de bets
O presidente do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), André Gelfi, afirma que os prediction markets focados em eventos esportivos competem diretamente com o setor de apostas já regulado, ocupando uma fatia de mercado estimada em até 90% do volume dessas plataformas nos EUA. Para o IBJR, esses mercados são semelhantes às apostas de quota fixa e deveriam seguir as mesmas regras e pagar as licenças correspondentes.
No entanto, as casas de apostas atualmente vivem de forma paradoxal, pois cerca de 70% de sua receita no Brasil vem de jogos de cassino online, que possuem regras e licenças distintas das apostas esportivas, correspondendo a apenas 30% do faturamento.
Aspectos éticos e regulatórios
Os prediction markets permitem a especulação sobre qualquer evento quantificável, desde lançamentos artísticos até conflitos internacionais, o que gera debate ético. Enquanto alguns defendem que os preços sinalizam tendências relevantes para negócios, outros questionam a legalidade e os limites morais dessas operações.
No Brasil, contratos relacionados a eleições, por exemplo, estão proibidos após decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), colocando restrições claras para determinados tipos de prediction markets.
O posicionamento da B3 e de startups nacionais
A B3 oferece contratos binários regulados pela CVM, como a opção Copom sobre decisões de política monetária, mas restringe-os a investidores profissionais, limitando a liquidez e a formação eficiente de preços. A bolsa busca expandir o acesso a investidores comuns para desenvolver esse mercado.
A startup Prévias, por sua vez, estruturou seus produtos sob uma licença de investimento coletivo via crowdfunding, operando em um modelo conhecido como pari-mutuel, no qual os ganhos são distribuídos entre os investidores vencedores, sem banco contra o apostador, refletindo modelos tradicionais de bolão.
Incertezas regulatórias e desafios
A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda acompanha o tema e analisa possíveis lacunas regulatórias, mas qualquer decisão dependerá de coordenação com a CVM. A Febraban também monitora a evolução, aguardando regras específicas para o mercado.
A CVM aprova instrumentos caso a caso, mas não se pronunciou sobre plataformas offshore como a Kalshi e a Polymarket. Portanto, ainda não há clareza jurídica definitiva sobre esses mercados no Brasil.
Enquanto não há novas regulamentações, cada instituição busca seu próprio caminho para operar, em um cenário parecido com o das bets que atuaram antes mesmo da regulamentação vigente, o que acabou moldando as regras posteriores.



