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Quem Desdenha Quer Comprar: Entenda A Influência Atual

Quem Desdenha Quer Comprar: Entenda A Influência Atual

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Quem desdenha quer comprar

Precisamos também de educação para a influência

Por Ana Leoni — São Paulo

29/06/2026 07h07 Atualizado 29/06/2026 07h07

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O ditado popular que batiza esta coluna é antigo e provavelmente já foi ouvido por muitos ou até utilizado em alguma ocasião. A expressão “Quem desdenha quer comprar” reflete um comportamento bastante humano que acontece quando algo ou alguém desperta em nós interesse, admiração ou até mesmo inveja, mas nossa reação não é de entusiasmo, e sim, frequentemente, de desprezo, ironia ou menosprezo. Esse desdém funciona muitas vezes como uma máscara para esconder o quanto aquilo realmente nos impactou.

É interessante notar como um provérbio tão antigo ainda descreve uma atitude muito atual. A grande diferença está no ambiente em que esse comportamento se manifesta: antes era uma conversa à mesa de jantar em família, hoje ele se revela em comentários ásperos nas redes sociais, em reações negativas, críticas enfurecidas ou no compartilhamento de conteúdos acompanhados de expressões como “absurdo!”. A forma mudou, mas a essência permanece.

Nos meses recentes, temas polêmicos envolvendo influenciadores digitais, a divulgação de casas de apostas, golpes financeiros e a responsabilidade daqueles que recomendam produtos e serviços para milhões de seguidores geraram debates acalorados. Muitas das críticas são justificadas. Porém, para compreender esse fenômeno, talvez a questão fundamental precise ser reformulada: por que certas pessoas conseguem exercer tamanha influência sobre nós?

A resposta mais simples costuma ser atribuir tudo aos algoritmos, que foram criados para capturar nossa atenção e nos proporcionar mais do que nos interessa — seja admiração, curiosidade ou mesmo indignação (esta última com ainda mais força). Contudo, essa interpretação é insuficiente. Os algoritmos apenas ampliam um comportamento humano que sempre existiu. Influenciar e ser influenciado é parte da experiência social de todos.

Desde cedo aprendemos observando o que as pessoas ao nosso redor fazem. Orientamos nossas escolhas profissionais, hábitos, consumo de marcas, decisões políticas, investimentos e até a educação dos filhos baseados em exemplos ou na simples presença daqueles que despertam algum grau de interesse ou admiração. O que mudou é a escala desse processo, pois atualmente inúmeras pessoas disputam simultaneamente nossa atenção.

Entretanto, na economia atual, a atenção não é o ativo mais valioso. O que realmente importa é a confiança. Ela transforma seguidores em consumidores, consumidores em fãs e fãs em disseminadores de ideias. A confiança é o que faz uma recomendação parecer um conselho de um amigo, que leva alguém a comprar um produto, abrir uma conta, apostar, investir ou até mudar de opinião por influência de um terceiro.

As casas de apostas são um exemplo claro desse fenômeno. Elas não ofereceram apenas apostas, mas sim a sensação de proximidade, sucesso, diversão, pertencimento e esperança — mesmo que ilusória — de ascensão social. O produto tornou-se um simples detalhe, porém um detalhe que saiu do controle, transformando-se em um foco de incêndio capaz de destruir muitos sonhos e possibilidades. A confiança, um ativo valioso, acabou potencializando um problema imenso.

Essa dinâmica se repete diariamente ao lidarmos com investimentos, cosméticos, suplementos, cursos, restaurantes, opiniões políticas e causas sociais. A influência deixou de ser meramente uma ferramenta de marketing para se tornar um verdadeiro ativo econômico. E é aí que reside nosso principal desafio atual.

Durante décadas enfatizamos a importância da educação financeira para que as pessoas aprendessem a lidar melhor com o dinheiro. Agora, talvez seja o momento de ampliar essa discussão e incluir também a educação para a influência.

Isso envolve aprender a identificar quando estamos sendo persuadidos; compreender o funcionamento dos algoritmos; distinguir entre autoridade e popularidade; separar confiança de competência; perceber quando uma recomendação atende a interesses nossos ou de quem a faz. Não será simplesmente a divulgação de uma etiqueta de “publi” que resolverá essa equação.

A influência sempre existiu e continuará presente em nossas vidas. Não é realista imaginar que podemos ser completamente imunes a ela, porque somos seres sociais que aprendem uns com os outros. A liberdade real está em desenvolver a consciência sobre quem nos influencia e por quais motivos.

Talvez esse seja o novo tipo de alfabetização exigido pelo século XXI: assim como aprendemos a ler, escrever, interpretar informações e gerir dinheiro, também precisaremos aprender a administrar a influência exercida sobre nós.

No fim das contas, as decisões mais relevantes das nossas vidas — inclusive as financeiras — raramente são tomadas apenas pela razão. Elas também dependem da confiança. Entender como essa confiança é construída talvez seja uma das habilidades mais valiosas da atualidade. Percebe-se que apenas desdenhar não basta mais para proteger nossas escolhas.

Ana Leoni — Foto: Arte/Valor

Ana Leoni — Foto: Arte/Valor

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