Rainha: o que aconteceu com a marca de tênis que fez sucesso nos anos 80
Origem, crescimento e mudanças ao longo do tempo
Lançada em 1934 por Saad & Cia em São Paulo, a Rainha iniciou sua trajetória no mercado brasileiro de calçados esportivos com uma tecnologia inovadora para a época: o processo de autoclave, responsável pela vulcanização da borracha sob calor e pressão. Essa técnica conferia ao produto um padrão de qualidade elevado, tornando o tênis mais um artigo de luxo do que um acessório esportivo popular.
A mudança significativa ocorreu em 1978, quando a Alpargatas — conhecida mundialmente pelas Havaianas — adquiriu a marca. Com essa aquisição, a Rainha deixou de ser um produto exclusivo para se tornar um tênis produzido em larga escala, com foco no esporte como principal meio de divulgação e expansão.
O ápice durante a década de 1980
Na década seguinte, a Rainha consolidou-se como uma das principais marcas esportivas do Brasil, apostando no crescimento do vôlei e fechando contrato de patrocínio com a equipe da Pirelli, considerada a primeira parceria do tipo firmada por uma marca esportiva com um time nacional. Essa associação fortaleceu a imagem da marca, que se tornou símbolo da década nas quadras e nas ruas.
No mercado consumidor, a Rainha oferecia modelos como o Mont Car, com cadarço, e o Iate, sem cadarço, além do Bullit, focado no basquete, e o VL 2500, famoso pela flexibilidade e boa aderência, especialmente utilizado no futsal. Além disso, a empresa investiu em tecnologia própria, lançando o Rainha System — o primeiro sistema tecnológico totalmente brasileiro aplicado em calçados esportivos — e posteriormente versões aprimoradas como o System 2, com sola translúcida, e o System Interaction, que proporcionava amortecimento e melhor pisada.
Desafios com a chegada das marcas internacionais
Com a abertura econômica no início dos anos 1990, marcas internacionais como Nike, Adidas e Puma passaram a dominar o mercado brasileiro, oferecendo tecnologia, marketing agressivo e um apelo estético muito forte. O tênis deixou de ser apenas um produto esportivo para se tornar um item de moda e status, uma área em que a Rainha enfrentava dificuldades para competir.
Embora a marca não tenha desaparecido de imediato, ela perdeu gradualmente a liderança, migrando para segmentos mais populares e distantes do prestígio que conquistara nas décadas anteriores.
A venda para o Grupo Sforza e o reposicionamento
Em 2015, a Alpargatas vendeu a Rainha, junto com a Topper, para a BR Sports, holding da empresa do empresário Carlos Wizard Martins. A transação, que custou R$ 48,7 milhões, trouxe uma nova gestão focada em revigorar a marca por meio de licenciamento e franquias, delegando a produção a terceiros e concentrando esforços na administração e no desenvolvimento do marketing.
A estratégia de resgatar o público nostálgico, aliado à atração de novos consumidores por meio do design retrô, foi fundamental para o retorno da marca ao radar dos brasileiros. Modelos icônicos como o VL 2500 foram relançados com design original e melhorias no conforto, ganhando destaque no universo do streetwear e conquistando um público mais jovem.
Presente e futuro da Rainha
Com quase 90 anos de história, a Rainha mantém-se ativa no mercado, celebrando seu legado enquanto busca se adaptar aos novos tempos. Em 2024, a marca completou nove décadas, lançando campanhas com o slogan “Leve, para o seu estilo” e promovendo relançamentos de versões limitadas, como o VL 2500 Frevo, em parceria com o artista plástico Sancler Graffit, que homenageia o ritmo cultural nordestino reconhecido pela Unesco.
Atualmente sob a gestão da BR Sports, a tocha que acompanha o logo da Rainha continua viva, simbolizando uma marca que começou como artigo de luxo, tornou-se popular nas quadras brasileiras nos anos 80, enfrentou os desafios dos importados e hoje aposta no resgate da própria história para seguir relevante.


