Retorno Dos IPOs Brasileiros E Escolha Pelas Bolsas Externas

Retorno Dos IPOs Brasileiros E Escolha Pelas Bolsas Externas

Entenda o retorno dos IPOs de empresas brasileiras e a escolha pelas bolsas internacionais

Após um intervalo de quatro anos, o mercado brasileiro presencia um novo IPO nesta quinta-feira (29), marcado pela estreia do banco digital PicPay na Nasdaq. A decisão de companhias nacionais de listarem suas ações em bolsas estrangeiras, especialmente nos Estados Unidos, está ligada a fatores como os altos juros e o baixo apetite por risco no Brasil.

Recentemente, o Agibank também anunciou um IPO, embora ainda não tenha definido uma data, optando igualmente pelo mercado americano para sua abertura de capital. Essa preferência não é inédita para empresas brasileiras e revela as condições desafiadoras do mercado nacional, que têm limitado a quantidade de ofertas públicas de ações por aqui.

Especialistas apontam que a principal razão para essa tendência está nas taxas de juros da economia brasileira, que atualmente se encontram em 15% ao ano, o nível mais elevado dos últimos 20 anos. Esse cenário torna a renda fixa mais atraente para investidores, reduzindo o interesse por ativos de maior risco, como as ações.

Há expectativas positivas quanto a uma possível redução desses juros pelo Banco Central do Brasil já no primeiro trimestre, o que pode animar o mercado de IPOs local nos próximos meses.

Contexto e fatores que influenciam o retorno dos IPOs

Depois de um período considerado de pausa, algumas empresas brasileiras iniciam seu retorno ao mercado de capitais por meio de ofertas públicas iniciais (IPOs). O PicPay realiza a primeira dessas operações em quatro anos, buscando captar recursos para ampliar suas atividades.

Outro caso recente é o Agibank, que também prepara sua entrada no mercado acionário, com a escolha das bolsas americanas como palco para a captação.

Esse movimento revela a influência dos juros elevados no Brasil, que afastam investidores do mercado de ações. Conforme destaca Roderick Greenlees, diretor global de investment banking do Itaú BBA, a taxa de juros real em dois dígitos é um grande fator que faz com que investidores prefiram aplicações mais seguras de renda fixa em detrimento das opções de renda variável.

Em 2021, quando o Brasil teve o maior número de IPOs (mais de 40), a taxa Selic subiu significativamente, mas ainda se mantinha em níveis atrativos para captar recursos na bolsa. Desde então, a elevação da taxa para 15% tornou o cenário menos favorável.

Bruno Saraiva, do Bank of America no Brasil, acrescenta que o aumento dos juros gerou perdas em fundos de ações, que consequentemente perderam força e levaram a uma queda no volume negociado e na demanda por novos IPOs.

Greenlees complementa afirmando que muitos fundos multimercados e fundos de ações foram descontinuados nos últimos anos devido a esse ambiente de juros altos.

Motivos para optar pelo mercado americano em vez do brasileiro

O Federal Reserve (Fed), no entanto, iniciou uma redução dos juros nos Estados Unidos a partir de setembro do ano passado, diminuindo as taxas para a faixa entre 3,50% e 3,75%, tornando os mercados americanos mais atrativos.

Leonardo Resende, da B3, explica que a decisão sobre onde abrir capital envolve uma série de fatores, considerados individualmente para cada empresa, incluindo o setor, a tese de investimento e o histórico da companhia, além da análise de onde estão listados seus concorrentes.

No segmento dos bancos digitais e fintechs, por exemplo, nomes como Nubank, PagSeguro, StoneCo e XP estão listados em Wall Street, o que pode influenciar empresas como o PicPay a escolherem esses mercados.

Resende destaca que abrir capital no exterior não é uma fórmula única para todas as empresas, e, apesar do interesse pelo mercado americano, também há negociações com companhias que preferem realizar IPOs na B3.

Perspectivas para o mercado de IPOs no Brasil

Os especialistas veem com otimismo a possibilidade de que o Banco Central inicie o ciclo de cortes nos juros ainda no início do ano, favorecendo uma retomada gradual dos IPOs no país.

De acordo com o boletim Focus, a Selic deve encerrar o ano em 12,25% ao ano, representando uma queda de 2,75 pontos percentuais em relação ao nível atual.

Greenlees pondera que, embora essa redução possa não ser suficiente para retornar ao volume de IPOs visto no passado, já é um sinal positivo para que algumas ofertas possam ocorrer, pois a taxa ainda é alta, mas menos impeditiva para os padrões brasileiros.

Além da temática dos juros, o cenário geopolítico global e as demonstrações de comprometimento com a trajetória fiscal por parte do novo governo no Brasil também influenciam as decisões de investidores e empresas.

Bruno Saraiva afirma que, apesar do otimismo cauteloso para 2026, a retomada será lenta e com um número ainda limitado de operações no país. Ele ressalta que uma agenda reformista focada no ajuste fiscal aliada à continuação da queda dos juros poderão impulsionar um cenário de maior atividade no mercado de capitais brasileiro a partir de 2027.

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