O chique mesmo é não parecer rico
Consumir menos e aproveitar discretamente suas conquistas não significa necessariamente abrir mão de algo, mas, na maioria das vezes, envolve ter uma visão clara sobre o que se tem e o que se deseja.
Por Ana Leoni — São Paulo
16/03/2026 07h21 Atualizado agora
O assunto atual que tem atraído atenção é a série da Disney Plus que narra o romance entre John F. Kennedy Jr e Carolyn Bessette. Ele, descendente de uma das famílias políticas mais prestigiadas dos Estados Unidos, e ela, uma executiva da moda que se tornou referência de estilo na década de 1990. Apaixonada por séries, fui conferir se a repercussão era justificada. E realmente é, pois a produção une temas que sempre me fascinam: moda, finanças, estilo e comportamento.
Na década de 1990, Carolyn se tornou um ícone da moda por um motivo peculiar: não aparentava esforçar-se para isso. Ela foi a pioneira de um movimento naquele período — e que tem sido retomado recentemente — chamado quiet luxury, ou “riqueza discreta”. Essa tendência rejeita logotipos evidentes, exageros e qualquer ostentação, valorizando uma elegância que não precisa chamar atenção.
Esse conceito, entretanto, transcende moda e estilo, estendendo-se ao modo como lidamos com o dinheiro. Durante muitos anos, fomos condicionados a ligar riqueza a demonstrações visíveis. Gastos elevados passaram a ser sinônimo de capacidade financeira para muitos, refletindo-se em casas grandes, carros luxuosos e marcas ostensivas. Como se o patrimônio tivesse que ser exibido, mesmo sendo sabido por especialistas em finanças que, frequentemente, os indivíduos mais financeiramente estruturados são os que consomem com mais discrição.
A riqueza discreta se manifesta menos em vitrines e mais nas decisões que tomamos. Ela está presente em uma casa confortável, porém sem exageros; em um guarda-roupa que permanece atual apesar das estações; na preferência por qualidade em vez de quantidade; na disciplina de investir antes de gastar; e na busca por um estilo de vida equilibrado.
Essa perspectiva, originalmente vinculada ao planejamento financeiro, vem ganhando espaço também na discussão sobre consumo e moda. Talvez por isso o slogan quiet luxury tenha retornado com tanta força, antecipando até a estreia da série da Disney. Essa ideia traduz uma mudança cultural interessante, fundamentada no princípio de que ser é mais valioso que simplesmente ter, e que manter é melhor do que apenas ostentar.
Essa reflexão torna-se ainda mais relevante justamente nesta semana em que o comércio celebra o Dia do Consumidor. Instituída em 1962, quando o então presidente americano John F. Kennedy — pai de Kennedy Jr e sogro de Bessette — proferiu um discurso histórico defendendo direitos básicos do consumidor, como acesso à informação, segurança nas compras e liberdade de escolha, a data perdeu seu sentido original ao se transformar em um período de grandes promoções. Um evento que, em vez de conscientizar, se converteu em uma oportunidade para o varejo lucrar e para o consumidor acumular dívidas.
Consumir menos, desfrutando silenciosamente suas conquistas, não significa necessariamente viver em restrição. Trata-se, na verdade, de ter clareza sobre o que já se possui antes de desejar mais; de sofrer menos influência externa e exercer mais influência interna; de compreender que o verdadeiro luxo pode ser a tranquilidade que dispensa a necessidade de provar algo a terceiros.
Compreender que nada é mais libertador — e sofisticado — do que a liberdade de escolha, pois liberdade financeira está muito mais relacionada a poder decidir do que simplesmente a comprar.
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Ana Leoni — Foto: Arte/Valor



