Riscos Econômicos Para O Brasil Frente Aos EUA E Cenário Fiscal

Riscos Econômicos Para O Brasil Frente Aos EUA E Cenário Fiscal

Panorama Econômico do Brasil para 2026: Riscos e Desafios

As previsões indicam que a economia brasileira deve crescer entre 1,5% e 1,8% em 2026, apresentando uma desaceleração em relação a 2025, quando a expectativa foi de alta de 2,3%. Economistas consultados destacam que o principal fator de preocupação está relacionado ao desempenho da economia dos Estados Unidos, à deterioração da percepção fiscal no mercado em um ano eleitoral, e à inevitável necessidade de um ajuste fiscal em 2027.

Previsão para a Inflação e Política de Juros

Especialistas e instituições financeiras estimam que o índice de inflação, medido pelo IPCA, deve se situar em torno de 4% em 2026, valor abaixo do teto da meta de 4,5% estabelecido pelo Banco Central, cuja meta oficial é de 3%. Quanto à taxa Selic, o mercado prevê o início de um ciclo de queda já no primeiro semestre, com uma redução da taxa de 15% para aproximadamente 12,25% até o final do ano.

Pressões Fiscais e Política de Gastos

Segundo o economista Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV Ibre e do BTG Pactual, o Banco Central tem adotado uma política monetária restritiva para compensar os elevados estímulos fiscais implementados nos primeiros dois anos do terceiro mandato do presidente Lula. Conforme dados divulgados pela Instituição Fiscal Independente (IFI), os gastos federais aumentaram R$ 344 bilhões entre 2023 e o fim de 2025, atingindo R$ 2,4 trilhões no último ano.

Relatórios da IFI e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que a política de despesas do governo Lula não é sustentável a longo prazo. Pessôa alerta que, neste mandato, a dívida pública poderá crescer em torno de 10% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o crescimento econômico médio será estimado em 2,5%. A principal preocupação reside no desequilíbrio fiscal estrutural.

Impactos Eleitorais e Riscos Internos

O economista destaca que o ano eleitoral pode impulsionar uma disputa acirrada, semelhante à observada em 2014, o que pode resultar em um tom político que sinalize um agravamento da situação fiscal no próximo governo. Tal cenário aumenta o risco de fuga de capitais e forte desvalorização da moeda local, o real, afetando diretamente o controle da inflação.

Uma valorização negativa do real poderia desencadear pressões inflacionárias elevadas, elevando o IPCA potencialmente para valores entre 5,5% e 6% ou mais, dependendo da intensidade da desvalorização cambial.

Com o comprometimento crescente das finanças das famílias e taxas de juros elevadas impactando as pequenas e médias empresas, Pessôa advoga uma possível reversão mais profunda na atividade econômica, com risco até de recessão acompanhada de inflação crescente.

Considerações Sobre a Economia dos Estados Unidos

Outro fator relevante para a conjuntura brasileira reside no comportamento da economia americana. Segundo Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, as políticas externas adotadas no passado pelo ex-presidente Donald Trump, como a guerra tarifária, continuam a afetar negativamente o desempenho econômico dos Estados Unidos, criando uma situação de enfraquecimento da atividade econômica do país.

Essa desaceleração prolongada nos EUA tende a afetar as exportações brasileiras, uma vez que os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Em um cenário de crescimento lento na economia americana, é provável que haja uma redução nos volumes de importação, impactando negativamente a balança comercial brasileira.

Vale ressalta ainda que outras regiões como a China e a Europa, que também apresentam crescimento econômico moderado, não deverão representar riscos adicionais significativos para o Brasil nesse contexto.

O Desafio Fiscal para 2027

Diversas instituições financeiras estimam que, a partir de 2027, o Brasil terá de implementar um ajuste fiscal equivalente a cerca de 3% a 4% do PIB, o que corresponde a aproximadamente R$ 400 bilhões, a fim de conter o crescimento da dívida pública.

Esse ajuste já preocupa economistas em 2026, pois a dívida pública pode alcançar até 84% do PIB neste ano, tornando-se uma dívida alta e onerosa. Para reduzir esse patamar, seria necessário gerar superávits primários expressivos, uma tarefa complexa e delicada.

Sergio Vale destaca que o espaço para novas medidas fiscais neste governo está praticamente esgotado, uma vez que os principais estímulos, como isenção do imposto de renda para ganhos de até R$ 5 mil, aumento do salário mínimo, vale gás e isenção na conta de luz para famílias de baixa renda, já foram adotados em 2025.

De acordo com ele, o governo Lula dispõe de pouca margem para grandes alterações neste ano, tanto devido ao cenário legislativo quanto ao volume de políticas já implementadas. Pessôa acrescenta que, diferente do ex-presidente Jair Bolsonaro, que em 2022 aprovou uma Proposta de Emenda Constitucional abrindo espaço para maiores gastos em ano eleitoral graças ao apoio que detinha no Congresso, o atual presidente não possui maioria parlamentar para aprovar medidas similares.

Assim, o economista não prevê novos pacotes econômicos que possam alterar significantemente o quadro neste ano.

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