Rotação global de recursos revela vulnerabilidade na liderança dos Estados Unidos
A economia é cíclica, crises são normais e isso influencia os investimentos — o cenário deve complicar na próxima turbulência
Em um artigo recente, explorei as cartas enviadas por gestores de fundos multimercado, que explicaram os motivos por trás do retorno negativo registrado em março. De modo geral, havia uma expectativa generalizada de queda nas taxas de juros e valorização global das ações que acabou sendo frustrada pelo avanço militar dos EUA contra o Irã, desencadeando um conflito maior do que o previsto, cujo desfecho permanece incerto após mais de dois meses.
Atualmente, os investimentos parecem acompanhar o desenrolar da guerra e as oscilações nas negociações sobre um possível acordo de paz entre os EUA e o Irã, que ainda não foi concretizado. Essa dinâmica tem provocado um aumento significativo na volatilidade do mercado. Apesar das evidências claras de que os Estados Unidos carecem de um plano eficaz para uma intervenção militar bem-sucedida ou para apresentar uma proposta de paz convincente, os agentes financeiros continuam a reagir às declarações do presidente americano, que geralmente são veiculadas pelas suas postagens nas redes sociais. Essa plataforma, aliás, tornou-se quase um canal oficial de comunicação da Casa Branca, influenciando diretamente os preços do petróleo, que sobem e descem conforme suas mensagens.
Ao analisar esse conflito do ponto de vista de um país emergente como o Brasil, nota-se uma característica nova: enquanto o dólar diminuiu, a Bolsa, mesmo com maior volatilidade, resistiu quase intacta ao impacto do conflito. Isso representa uma mudança em relação ao passado, quando crises no Oriente Médio ou problemas em países desenvolvidos freavam a valorização dos ativos e provocavam desvalorização cambial nos mercados emergentes.
Nas crises da década de 1990, por exemplo, era comum ocorrer uma fuga em direção a ativos mais seguros, resultando na retirada maciça de recursos do Brasil, o que pressionava fortemente a moeda local e as ações. Atualmente, esse cenário tem se alterado, e olhar para o longo prazo ajuda a entender essa transformação.
O Brasil experimentou avanços relevantes nas últimas décadas. A descoberta do pré-sal tornou o país autossuficiente em petróleo, transformando-o em um exportador com peso significativo nas vendas internacionais. Além disso, o país superou uma extensa dívida externa e hoje dispõe de reservas internacionais robustas, consolidando-se como credor líquido em moeda forte.
Esses fatores explicam a resiliência brasileira diante das turbulências, mas não justificam a estabilidade observada em outros mercados emergentes. O ETF IEMG, um dos maiores que englobam ações de países emergentes, apresenta valorização no ano e manteve-se estável mesmo após o início da guerra.
Para compreender plenamente esse movimento global, é essencial considerar o papel dos Estados Unidos. Desde o início do segundo mandato de Trump, os EUA promovem uma desconstrução do multilateralismo e da ordem internacional, implementando várias medidas que afetam o comércio global. Durante quase um ano e meio, foram emitidas diversas ordens executivas que alteraram regras estabelecidas sem amplo debate, aplicaram tarifas altas sobre parceiros comerciais, retiraram o país de acordos internacionais sobre comércio e clima, e frustraram alianças militares como a OTAN em momentos críticos, como a guerra entre Rússia e Ucrânia. Esse conjunto de ações torna os EUA menos previsíveis e confiáveis.
Essa instabilidade é evidenciada pela fuga de recursos em busca de maior diversificação global. Os investimentos que antes concentravam-se intensamente nos EUA agora se espalham para outros países emergentes, indicando que os Estados Unidos estão perdendo sua posição de liderança incontestável no Ocidente.
Apesar da economia americana manter uma dinâmica vigorosa, com ganhos de produtividade consistentes e uma bolsa que reflete essa força, o país vem perdendo a legitimidade que o tornou a principal referência em política, negócios e cultura no pós-Segunda Guerra Mundial.
Embora seja prematuro prever o futuro próximo, já fica claro que os EUA não devem mais atuar como mediadores dos conflitos no Oriente Médio, provedores de equilíbrio militar entre Europa e Rússia, ou líderes do Ocidente em disputas tecnológicas e industriais contra a China.
O funcionamento cíclico da economia envolve inevitavelmente crises, que impactam diretamente os investimentos. Até então, existia uma compreensão clara sobre a cooperação entre países para administrar crises econômicas e políticas. Hoje, essa coordenação não é mais evidente, o que eleva de forma significativa a incerteza nos negócios e nos mercados.
Hudson Bessa é economista, sócio da HB Escola de Negócios e da Spot Capital Consultoria de Investimentos e professor de Administração na ESPM-SP.



